Diário, 15 de Janeiro de 1522

ingi uma dor de cabeça, para poder ficar enquanto as outras foram ver um combate de ursos no pátio do castelo. Estou sentada, junto à janela do meu quartinho, de pena na mão e, ao pensar na minha vida diária, descubro que o passar do tempo não curou a minha melancolia. Desde o meu regresso de França para a corte enfadonha e provinciana do rei Henrique, estou ao serviço da sua piedosa rainha. Levo e trago as suas roupas de lã, e as do seu leito, por corredores escuros e estreitos, entre paredes de pedra geladas pelas brumas inglesas que se erguem do Tamisa. Gelam-me o coração e deixam-me prostrada numa saudosa melancolia.
Se a Inglaterra não tivesse reclamado o regresso de meu pai de França, depois da ruptura das relações cordiais entre ambas as nações, continuaria a dançar todas as noites, como agora o faço em sonhos, na corte cintilante de Francisco I. Nela havia encanto, esplendor, beleza e maliciosos jogos de sedução. O endiabrado rei (embora para dizer a verdade Henrique se lhe assemelhe em figura, majestade e beleza varonil) tem uma coisa que o nosso soberano nunca teve nem desejou ter – um amor esplêndido e obsceno pela luxúria que confere aos mais chegados membros da sua elegante corte.
Foi em França que passei a minha juventude e, aí fui educada, desde pequenina, em companhia de Renée, a princesinha aleijada. A luz cristalina entrava pelas altas janelas do palácio real e intensificava as cores. Todas as paredes estavam cobertas, todos os recantos enfeitados, todos os soalhos atapetados com tesouros de incalculável valor – tapeçarias, quadros, estátuas e objectos de metal para agradar os sentidos e os gostos de todos. Ali acudiam grandes filósofos, escritores e sábios de todos os cantos do mundo. jantávamos na companhia do grande poeta Marot, olhávamos durante horas para a Mona Lisa de Leonardo da Vinci trazida por esse refinado cavalheiro italiano para enfeitar o próprio salão do rei. Ah, como lembro esses tempos e esse lugar. Conservo a recordação de um momento, de um dia perfeito, numa vida a um mundo de distância. Contar-vos-ei tudo para que vejais, querido Diário, como foi a vida que até há pouco levava a senhora Ana Bolena.
…Avancei a toda a pressa pelo corredor soalheiro, para me encontrar com Josette que tinha prometido pôr-me ao corrente de alguns mexericos. Mas então vi aproximar-se, qual archote que ilumina a noite escura, o rei Francisco, cuja figura suplantava o resplendor das suas própria jóias. Os homens da corte francesa seguiam na sua esteira de luz, pavoneando-se com passo seguro e lascivo aclamando cada palavra do rei, lisonjeando-lhe os movimentos graciosos, satisfazendo-lhe todos os caprichos.
Aproximaram-se mais. Ousadamente, ergui os olhos para o rei de França, antes de fazer uma sedutora reverência. Ergui-me, sabendo que todos os cortesãos me admiravam, me acariciavam e me despiam com o olhar. O rei, os cortesãos e eu trocamos algumas palavras… um cumprimento a sua Majestade pelo saque obtido na Itália, um gracejo às custas de outra dama, um cumprimento para o meu pai, o embaixador, um convite para jogar cartas. Inclinei a cabeça, pestanejei, esbocei um malicioso sorriso. Os anos de educação nas artes da coqueteria surtiram efeito, pois sabia o que pensavam:  “Esta é Anne de Boullan, irmã de Maria, a impúdica égua inglesa. É jovem, ainda sem mácula e oferece-nos um sem-número de possibilidades e um potencial de sedução. Vou apresentar o meu mais atraente sorriso, adotar a pose mais chamativa, provocar nela uma gargalhada, com o meu espírito. Talvez possa ser o seu primeiro amante e conseguirei do meu rei, se e que ainda não se deitou com ela, a sua admiração mais pura e lasciva. Talvez possa ser eu a contar a sua Majestade – pois sei como lhe agrada ouvir – os excitantes pormenores dos nossos encontros amorosos, as palavras trocadas por entre os abraços mais apaixonados.”
Assim, insinuando-me maliciosamente antes de me despedir, fingi entregar-me a pensamentos lúbricos, incentivando-os a deliciosas fantasias a meu respeito. Mal sabiam eles, enquanto retomavam com passo lento o seu caminho em direção a novas futilidades, que o meu corpo e o meu espírito estavam ainda intactos e que continuava virgem, pois tinha tido bons exemplos para me instruírem nesta questão.
Ouvira os nomes que chamavam a minha irmã. Maria era uma verdadeira beleza, mas um pouco curta de inteligência, conduzida apenas pelas rédeas do desejo e da exaltação do momento. Apenas pensava nas conquistas de uma noite.
Aprendi também com a casta e deselegante rainha Claude, a quem servíamos. Todas as aias desdenhavam dos seus modos e zombavam dela devido às escapadas do esposo. Para a maioria, era uma mulher sem importância. Mas não para mim, pois via que era verdadeiramente uma rainha. Usava a coroa, tivera entre as suas pernas o rei de França e dera-lhe os príncipes que lhe perpetuavam o nome. As fúteis e espirituosas damas da corte, com os seus vestidos de seda, cobertas de jóias e objetos de desejo… nada tinham. Nem amor, nem nome, nem glória duradoura. Eu fazia como elas. Ria e namorava, fingia-me libertina, bebia de uma taça em cujo interior estavam representadas cenas impúdicas… e não corava. Mantive a sensatez. Tinha apenas quinze anos.
O soalheiro corredor do palácio francês encheu-se de música alegre e apercebi-me de um intenso perfume que pairava junto a mim. Toquei no mármore colorido de um deus nu sobre um pedestal.Olhei o seu membro viril, de pedra, e pensei na carne. Toquei-lhe na coxa fria com uma mão ardente. Respirei fundo …
Do pátio, chegavam gritos agudos e ganidos de um cão moribundo. O meu doce devaneio quebrou-se como o gelo fino sobre as vidraças das janelas. Estou na Inglaterra. Mas o meu coração sofre as tristes saudades daquela vida dourada. Queira Deus estivesse ainda em França.

Afetuosamente,
Ana


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Um comentário sobre “Diário, 15 de Janeiro de 1522

  1. Só um detalhe: a foto que ilustra a postagem é da atriz espanhola Ana Torrent, na personagem de Catarina de Aragão, no filme A Outra (com Natalie Portman no papel de Ana Bolena.

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