Anulação de Henrique

É provável que a idéia de anulação (não divórcio como comumente assumido) veio por si mesma a Henrique muito mais cedo do que se pensa e foi motivada pelo seu desejo de um herdeiro masculino para garantir a legitimidade da reivindicação Tudor à coroa. Antes de o pai de Henrique, Henrique VII, subir ao trono, a Inglaterra foi assolada pela guerra civil por conta dos direitos do rival à coroa e Henrique queria evitar uma incerteza sobre a sucessão similar. Mesmo com a lei inglesa permitindo que mulheres herdassem o trono, os exemplos que se tinham de reinados femininos eram desencorajados.

Maria, filha de Catarina e Henrique.

Ele e Catarina não tiveram filhos homens vivos: todos os filhos de Catarina, exceto Maria, morreram na infância. Catarina de Aragão veio à Inglaterra para ser a noiva do irmão de Henrique, Artur, que morreu logo após seu casamento. A Inglaterra, naquela época uma potência inferior, ainda queria a união de seu reino com a poderosa Espanha, e, em 1509, Henrique e Catarina se casaram. Mas este casamento não poderia ocorrer até o Papa se pronunciar sobre uma passagem controversa de um livro da Bíblia.

Esse livro, Levítico, proibia o casamento de um homem e a viúva de seu irmão pois ele e a viúva seriam amaldiçoados. O Papa se pronunciou conveniente para as dinastias envolvidas que Levítico não se aplica mediante a emissão de uma dispensa papal. No entanto, muitos anos e um novo papa depois, Henrique foi repensar as coisas.
Estava escrito no Levítico:

“Não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão; é a nudez de teu irmão” (Lv 18,16).

Artur Tudor

O rei acreditava que Deus lhe tinha virado o rosto para puni- lo por seus pecados, semelhantes a um incesto e por isso Catarina, que havia sido casada antes com seu irmão, não lhe dava herdeiros.

Estimulado pela incapacidade de Catarina em fornecer um herdeiro, e, possivelmente, por Ana também, Henrique decidiu que o Papa não tinha o direito de ignorar um livro bíblico. Isso significava que ele tinha vivido em pecado com Catarina de Aragão por todos estes anos, apesar de Catarina calorosamente contestar e se recusar a admitir que seu primeiro casamento foi consumado. Significava também que sua filha Maria era uma bastarda, e que o novo Papa (Clemente VII), deveria admitir o erro do papa anterior e anular seu casamento.

Ana viu uma oportunidade na paixão de Henrique e no conveniente dilema moral. Ela determinou que só iria ceder aos seus braços reconhecida como rainha. Ela começou a tomar lugar ao seu lado na política e no Estado, mas não, pelo menos não ainda, em sua cama.

Várias são as opiniões dos estudiosos e historiadores sobre a forma como foi profundo o compromisso de Ana para a Reforma, o quanto ela estava talvez só pessoalmente ambiciosa e quanto tinha a ver com o desafio de Henrique ao poder papal. Há evidencias anedóticas, relacionadas com o biógrafo George Wyatt por sua ex-dama de honra Ana Gainsford, que Ana chamou a atenção de Henrique a um panfleto herético, talvez “Obediência do homem cristão” de Tyndale ou um chamado “Súplica de Mendigos” de Simon Fish, que clamava aos monarcas que refreassem os excessos do mal da Igreja Católica. Se pode-se crer em Cavendish, a indignação de Ana com Wolsey pode ter personalizado qualquer desafio filosófico que ela trouxe com ela da França. Além disso, a edição mais recente da biografia de Ives admite que Ana pode muito bem ter tido um despertar espiritual pessoal em sua juventude, o que a impulsionou, não apenas como catalisadora, mas aceleradora para a Reforma de Henrique, embora o processo tenha levado anos.

No dia 23 de Julho de 1527, a Corte de Henrique VIII chegou a Beaulieu (em 1517, o New Hall havia sido vendido por Thomas Bolena a Henrique VIII e o rei reconstruiu a casa em tijolo, em obras que tiveram um custo de 17.000 libras, uma soma considerável na época, dando ao novo palácio o nome de Beaulieu) para passar o verão, permanecendo, de forma incomum, por mais de um mês.

Beaulieu

Foi neste palácio que, a companhia dum grande número de nobres e suas esposas, incluindo Thomas Bolena, Visconde Rocheford, o pai de Ana Bolena, o Visconde Fitzwalter, os Condes de Oxford, Essex e Rutland, o Marquês do Exeter e os Duques de Norfolk e Suffolk, Henrique VIII planejou um equema que lhe permitisse coabitar com Ana, a pretendida sucessora de Catarina de Aragão, através da obtenção de uma bula papal que o autorizasse a cometer bigamia. Este plano foi abandonado quando o Cardeal Wolsey o descobriu, embora o papa tenha, de fato, emitido uma bula para o mesmo efeito em dezembro daquele ano.

Em 1528, a “doença do suor” eclodiu com grande severidade. Em Londres, o índice de mortalidade foi grande e a corte foi dispensada. Henrique saiu de Londres, frequentemente mudando de residência; Ana recuou para Hever, mas contraiu a doença; seu cunhado, William Carrey, morreu. Henrique enviou seu próprio médico para Hever Castle para cuidar de Ana e logo depois ela se recuperou. Logo se tornou uma obsessão para Henrique garantir a anulação de Catarina. Henrique depositou suas esperanças em um apelo direto para a Santa Sé, atuando independentemente do Cardeal Wolsey, a quem em primeiro lugar nada comunicou de seus planos relacionados com Ana.

Carlos V

William Knight, secretário do rei, foi enviado ao Papa Clemente VII para processar a anulação de seu casamento com Catarina, alegando que a bula de dispensa do Papa Júlio II foi obtida por falsos pretextos. Henrique também pediu, em caso de tornar-se livre, a dispensa para contrair um novo casamento com uma mulher, mesmo no primeiro grau de afinidade, se a afinidade foi contraída por uma ligação legal ou ilegal. Esta situação é claramente referida a Ana e seu relacionamento prévio com sua irmã, Maria.

Como o Papa era, naquele tempo, prisioneiro de Carlos V, Santo Imperador Romano e sobrinho de Catarina de Aragão, em Orvieto, Knight teve algumas dificuldades na obtenção de acesso a a ele. No final, ele teve que voltar com uma dispensa condicional, ao que Wolsey insistiu que era tecnicamente insuficiente. Henrique já não tinha outra escolha senão colocar sua grande questão nas mãos de Wolsey, que fez todo o possível para garantir uma decisão em favor de Henrique. O Cardeal escreveu ao Papa Clemente VII sobre Ana:

“Estão confirmadas excelentes qualidades virtuosas da dita nobre senhorita: a pureza de vida, a constante virgindade, a juvenil e feminina pudicícia, a sobriedade, castidade, humildade e sabedoria, a linguagem nobre e elevada até o sangue real, a educação com todas as boas e saudáveis qualidades e maneiras…”

Wolsey foi tão longe que fez a convocação de um tribunal eclesiástico na Inglaterra, com um emissário especial do próprio Papa, o Cardeal Campeggio, para decidir a questão. Ana e Henrique exultaram com a escolha do emissário do Papa, pois o prelado já estivera na Inglaterra, recebia um rendimento anual com o bispo de Hereford, devia seu próprio palácio em Roma ao apoio e dinheiro britânicos. Porém o Papa nunca deu poderes ao seu substituto para tomar qualquer decisão. O Papa ainda era um verdadeiro refém de Carlos V, sobrinho fiel da rainha Catarina.

Cardeal Campeggio

Um tribunal eclesiástico foi estabelecido na Inglaterra somente em 1529. O rei expôs suas dúvidas de consciência, esclarecendo não ser movido “por nenhuma concupiscência carnal, nem por nenhum tédio ou antipatia pela pessoa da rainha, ou por sua idade.” Catarina compareceu somente na primeira sessão, reafirmando seus direitos como rainha sua virgindade quando casou com Henrique, e depois não quis mais comparecer. Muitas testemunhas, entretanto, apareceram para afirmar o contrário, de que o matrimônio anterior de Catarina com Artur havia sido consumado. Por fim a sentença foi adiada, sob alegação de que a decisão só poderia ser tomada em Roma, pelo próprio Papa. Enquanto isso, o papa proibia Henrique de contrair um novo casamento. Em vão funcionários de Henrique procuraram na bagagem do Cardeal Campeggio um documento que se dizia ter sido entregue pelo papa Clemente VII, com uma assinatura e um selo endossando qualquer decisão. Se este existiu, havia sido destruído.

Convencidos das lealdades de Wolsey com o Papa e não com a Inglaterra, Ana e muitos inimigos de Wolsey asseguraram sua demissão do cargo público em 1529, quando Henrique finalmente concordou em sua prisão nas masmorras de Praemunire. Se não fosse por sua morte por doença em 1530, ele poderia ter sido executado por traição. Ele morreu arrependendo-se de não ter dedicado tanto zelo a serviço de Deus como dedicou ao rei. Thomas More assumiu então o cargo de chanceler, substituindo Wolsey a convite do rei. Thomas Cranmer, um dos religiosos diplomatas a serviço da questão de Henrique, surgere que o caso do rei poderia ser resolvido sendo submetido aos teólogos das mais ilustres universidades européias e se estes julgassem inválido o casamento com Catarina, o rei poderia voltar a se casar sem a permissão de Roma. Ao invés de assustar Henrique, que não simpatizava com protestantes nem queria se colocar contra o Papa, a idéia o entusiasmou e, com efeito, as universidades declararam nulo seu casamento com Catarina de Aragão e o parlamento inglês ratificou a sentença.

Thomas More

Em 1531, a rainha Catarina foi expulsa da corte e seus quartos foram dados a Ana. Teve que devolver as jóias da Coroa que foram dadas então a Ana. Catarina passou a ser chamada de “Princesa Viúva” ou “Princesa de Gales”, de acordo com seus títulos relacionados ao primeiro casamento com Artur.

O apoio público, no entanto, manteve-se com Catarina. Um noite, no outono de 1531, Ana foi jantar em uma mansão no rio Tamisa e esta foi quase tomada por uma multidão raivosa de mulheres hostis. Ana conseguiu fugir apenas de barco.

No entanto, Ana deu mais dinheiro para os pobres em três anos do que Catarina de Aragão fez durante todo seu reinado de mais de 20 anos. Ela ainda costurava roupas com as próprias mãos para distribuir aos pobres e pessoalmente cuidava do doentes em suas viagens.

Ela tinha um senso de humor divertido. Quando houve protestos de Henrique escolhê-la como rainha, por um curto período de tempo, ela mudou seu lema para “Ainsi sera, groigne qui groigne (“É assim que será, doa a quem doer”, na tradução de “A irmã de Ana Bolena” de Philippa Gregory ou “É assim que será, por mais que o povo possa resmungar” na tradução de As seis mulhere de Henrique VIII de Antonia Fraser.) e este foi bordado em todos os casacos de seus criados de libré. Poucas semanas depois, foi removido.

Rompimento com a Igreja Católica

Quando o arcebispo de Canterbury, William Warham, morreu em 1532, Thomas Crammer foi nomeado com precipitada aprovação papal. A quebra do poder de Roma na Inglaterra foi gradativa, o que sugere que as tentativas de Henrique para romper com Roma dificilmente foram feitas no capricho para agradar sua nova amante. Em 1532, Thomas Cromwell colocou perante o Parlamento um conjunto de atos, incluindo a Súlica contra os Ordinários e Submissão do Clero, que reconheciam a supremacia real sobre a Igreja,finalizando assim a ruptura com Roma. Após esses atos, Thomas More renunciou ao cargo de chanceler, deixando Cronwell como ministro-chefe de Henrique.

Thomas Cromwell

Enquanto eclesiásticos de tendências luteranas trabalhavam na reforma dos ritos e na definição dos artigos de fé, um grupo de funcionários, chefiados pelo novo chanceler Thomas Cromwell, dedicava-se à confiscação e expropriação dos bens da Igreja. Todas estas mudanças – uma nova política, uma nova aliança, uma nova religião, uma nova hierarquia – haviam sido necessárias para que uma bela mulher de cabelos negros pudesse subir ao trono da Inglaterra e renovasse no rei a esperança de um herdeiro masculino.

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