Horas Finais

Anne Boleyn in the Tower, 1835, por Edouard Cibot.

Anne Boleyn in the Tower, 1835, por Edouard Cibot.

Embora as provas contra eles não fossem convincentes, os acusados foram considerados culpados e condenados à morte pelos seus pares, que estavam sob pressão para fazê-lo sob ordem do próprio rei. George Bolena e os outros acusados foram executados em 17 de maio de 1536. Todos declararam inocência, exceto o torturado Smeaton. Ana perguntou “Então não retratou suas calúnias?” E com piedade comentou “Temo que sua alma precisará prestar contas disso.”

Senhor Kingston, o guardião da Torre, relatou que Ana parecia muito feliz e pronta para dar fim à vida. O rei comutou a pena de Ana da queima para decapitação e empregou um espadachim de St Omer para a execução, ao invés de ter uma rainha decapitada com uma machado comum.

Há uma curiosidade que permite avaliar a personalidade forte e marcante de Ana Bolena e, segundo fontes histórias, aconteceu por ocasião de sua excecução. Alguns, inclusive, dizem ter sido um último recurso da rainha para retardar a consumação da excecução, ainda esperançosa de um perdão real por parte de Henrique VIII. Quando informada da sua iminente execução, Ana Bolena fez chegar a Henrique VIII uma exigência – não aceitaria ser morta por um carrasco inglês, que utilizava o machado para a decapitação. Exigia a “importação” de um carrasco francês, pois estes usavam a espada. Para justificar a sua exigência, teria dito “uma Rainha da Inglaterra não curva a cabeça para ninguém em nenhuma situação”, pois as execuções com a espada eram feitas com a vítima ajoelhada, mas com a cabeça erguida, enquanto as com machado eram feitas com a vítima ajoelhada curvada sobre cepo.

O esgrimista francês recebeu como pagamento 23 para reduzir o seu sofrimento ao mínimo e levou a cabeça em uma tentativa. Seu nome era Jean Rombaud e ele era tão hábil que uma vez decapitou dois criminosos com um só golpe. Execuções eram rotineiramente problemáticas e muitas vezes vários golpes eram dados para cortar a cabeça. Ana estava preocupada, tendo testemunhado isso, e este foi o último ato de “bondade” de Henrique para ela.

“Último adeus de Ana Bolena”, datado de meados do século XIX, artista desconhecido.

Vieram a Ana, na manhã de 19 de Maio para levá-la para a Torre Verde. Anthony Kingston, o guardião da Torre, escreveu:
“Esta manhã, fui enviado a ela a seu pedido, para que eu pudesse estar com ela no momento emque recebeu o bom Senhor, com a intenção de que eu deveria ouvir sua confissão como para atestar que sua inocência fosse sempre clara. É na escrita disto que ela me confiou, e com a minha chegada, ela disse, “Sr. Kingston, eu soube que não morrerei antes do meio-dia, e eu estou muito triste por isso, pois sempre pensei estar morta por esta altura e ter deixado para trás a minha dor”. Eu disse a ela que deve ser sem dor, que era tão rápido. E então ela disse: “Eu ouvir dizer que o algoz era muito bom, e eu tenho um pescoço fino”, e colocou as mãos sobre ele, às gargalhadas. Em seguida acrescentou: “Sabeis como chamarão de agora em diante? Ana sem-cabeça”. E riu de novo.

Eu vi muitos homens e também mulheres executador, e eles estavam em grande tristeza, e ao meu conhecimento esta senhora tem muita alegria na morte. “Senhor, seu esmoler está continuamente com ela, e tem estado desde as duas horas após a meia-noite.”

Apesar do exposto acima, um poema provavelmente de Ana Bolena mostra que em algum momento sua morte iminente pode ter causado grande tristeza, e que também ela pode ter esperado que a morte acabasse com seu sofrimento.

“Morte
Acalenta meu adormecer
Permita-me um repouso tranquilo
Deixa passar meu espírito
completamente inocente

Lá fora tocam os sinos
dos meus presságios
Lúgebres
Deixe-os tocar
anuncando a minha morte
Por que eu preciso morrer”

Execution of Anne Boleyn by Jan Luyken, c.1664-1712.

Pouco antes do amanhecer, ela chamou Kingston para ouvir missa com ela, e jurou em sua presença, pela salvação eterna de sua alma, mediante os santos sacramentos, que ela nunca tinha sido infiel ao rei. Ela repetiu esse ritual de juramento imediatamente antes e depois de receber o corpo e o sangue de Cristo.

Na manhã de sexta feira, 19 de Maio, Ana Bolena foi executada, não sobre a Torre Verde, mas sim em um andaime montado no lado norte da Torre Branca, em frente ao que hoje são as Casernas de Waterloo. Poucas pessoas estavam presentes, somente os enviados do rei, pois a execução não foi pública. Na primeira fila estavam o ministro Cromwelll, o Duque de Suffolk e o Duque de Richmond, bastardo do rei.

Ela usava um saiote vermelho sob um avulso, um vestido de tordilha de damasco com decote baixo e um manto de arminho. O penteado foi enfeitado com pérolas, segundo a moda da época, e uma rede prendeu suas tranças, deixando livre o pescoço. Acompanhada por duas assistentes do sexo feminino, Ana fez sua caminhada final da Casa da Rainha ao cadafalso, e ela parecia “como se não fosse morrer”. Subiu ao patíbulo e fez um breve discurso:

“Bom povo cristão, eu vim aqui para morrer, de acordo com a lei, e pela lei eu sou julgada a morrer, e, portanto, nada vou falar contra ela. Eu não vim aqui para acusar ninguém, nem falar nada disso, de que sou acusada e condenada a morrer, mas eu oro a Deus para salvar o rei e concedê-lo por muito tampo para reinar sobre vos, pois nenhum princípe foi mais misericordioso e para im ele sempre foi bom, gentil e soberano. E se qualquer pessoa se meter em minha causa, eu obrigá-la-ei a julgar o melhor. E assim eu me despeço do mundo e de todos vós, e eu sinceramente desejo a todos que orem por mim. Oh, Senhor, tendes misericórdia de mim, a Deus eu entrego minha alma.”

Esta é uma versão do seu discurso, escrito por Lancelot de Carles em Paris, poucas semanas após sua morte, ele esteve em Londres, mas não presenciou nem o julgamento nem a excecução. Todas as contas são similares, e indubitavelmente corretas em graus variados. Pensa-se que ela evitou criticar explicitamente o rei para salvar a filha e a família de maiores repercussões, mas mesmo sob essa pressão não confessou culpa, preferindo deixar implícita a sua inocência, no seu apelo aos historiadores que “irá se meter em minha causa”.

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