Entrevista com Robin Maxwell

A Natalie, do site On The Tudor Trail, entrevistou a historiadora Robin Maxwell, autora de vários livros sobre a Era Tudor, Ana Bolena e Elizabeth I. Segue abaixo a tradução da entrevista:

“Mademoiselle Bolena”*

Por que você acha que após quase 500 anos da morte de Ana Bolena, ela ainda provoca sentimentos e emoções tão fortes? Por que ela atrai a atenção das pessoas?
Eu não acho que a maioria das pessoas param para pensar sobre como a Ana foi um indivíduo raro para sua época. Uma mulher especialmente rara. No início do século 16, as mulheres – mesmo as mulheres bem-nascidas, bem como princesas e rainhas – eram simplesmente bens – criadas para serem compradas e vendidas por seus pais para enriquecer os cofres de famílias e continuar a linhagem de herdeiros masculinos. Elas não eram avaliadas como algo maior.

Daí vinha a plebéia, Ana Bolena, criado na corte libertina de Francisco I. Ela não só aprende a política do sexo (como as mulheres eram tratadas se mantivessem sua virgindade antes do casamento, como a Rainha Cláudia, e como elas eram tratadas se agissem como prostitutas, como sua irmã Maria), e ela têm a educação do da “nova” religião, o Luteranismo, que era altamente herético, e da mulher pensando mais à frente, na corte francesa, como a irmã de Francisco, Duquesa Margareth. Finalmente, ela se apaixona por um jovem nobre, Henry Percy, ainda adolescente, e acaba de quebrar todas as regras cordiais da personalidade feminina assim que ela retorna para a Corte Inglesa. Ela tem pensamentos, idéia, opiniões próprias. Ela está interessada em buscar uma nova religião. E ela decidiu seu próprio destino amoroso.

Em seguida, Henrique VIII fica obsessivamente apaixonado por ela. Tem que tê-la. Irá mover montanhas (permitir-se excomungado pela Igreja Católica) para tê-la. Ele já é um cara assustador, e todos rastejam aos seus pés. Ninguém resiste a ele, nem mesmo o Cardeal Wolsey. Ninguém, exceto Ana Bolena. Ela o têm na palma de sua pequena mão (perdoem o clichê). Ele pede conselhos dela sobre assuntos de política do Estado, deixando seus acessores loucos. Ele não dorme com ela por seis anos, quando há várias mulheres caindo a seus pés. Ela converte o príncipe mais amado do catolocismo para o luteranismo. Em seu desespero para se casar com ela, ele rompe com Roma, divorcia-se de Catarina de Aragão (a rainha mais amada e sua esposa, há 18 anos) e mata uma série de homens populares (como Thomas More) por não apoiarem seu casamento ou o a sua coroação como Papa da nova Igreja da Inglaterra. E não nos esqueçamos que em todo este processo Ana desafiou seu próprio pai (o mais frio, ambicioso filho da puta, desagradável da corte, com exceção de seu tio, Duque de Norfolk) e sobre para uma posição acima de qualquer um deles quando se torna rainha (e eles ficaram putos!)

Então Ana, que prometeu que daria a Henrique um filho (um dos principais motivos de que ele queria ela), ela têm uma filha e três abortos. Uma vez que ela cai em desgraça, os urubus se movem para fazer com que ela caia definitivamente. E o velho ditado de que “a história é escrita pelos vencedores” nunca foi mais verdadeiro no caso de Ana Bolena. Quase tudo o que sabemos e sua vida é visto através da lente de escritores contemporâneos que odiavam essa mulher (mesmo assim, eles foram simpáticos o suficiente para não publicar isso enquanto Henrique estava vivo). Você não pode escrever qualquer coisa sobre as mulheres do Rei quando você não quer que sua cabeça fique num poste na ponte de Londres. Todas as histórias posteriores sobre Ana e o período são baseados nos relatos contemporâneos, e alguns deles foram escritos durante a era vitoriana, quando uma mulher como Ana era igualmente desaprovada.
Em suma,a razão pela qual há muito veneno vomitado em Ana Bolena é porque ela foi a mais arrogante e escandalosa mulher de seu tempo,e no momento em que Henrique VIII era o mais poderoso, ela era a única pessoa que o controlava. É minha opinião pessoal que, em todas as interações humanas, tudo se resume a “problemas de controle”, e o cenário do controle de Ana, Henrique e seus cortesãos era tão de virar a cabeça, que ela acabou com a pior reputação de qualquer mulher na história da Inglaterra. E na minha opinião, é totalmente imerecida.

Muitas vezes penso sobre Ana Bolena e entre outras coisas, eu me pergunto o que teria sido, quão alto ela teria chegado, e o que ela teria pensado da nossa sociedade “moderna”. Quais são as que você faz a si mesma sobre Ana?
O que eu mais me pergunto é, “Alguma vez você amou Henrique VIII”? Eu não acho que ela teria sentido algo desde o início, porque ela estava realmente apaixonada por Henry Percy, e acho que o rei e Wolsey tirando-o dela deve ter rasgado seu coração. Ela foi colocada na posição de fazer ceder qualquer homem poderoso, e “sacaneando” ele (não é uma coisa muito inteligente de se fazer). Então ela encontrou uma outra solução – deixá-lo jogar no seu jogo. Eventualmente, depois de muitos anos, com ele movimentando aquelas montanhas que eu mencionei para tê-la como sua esposa, acho que ela deve ter se tornado amiga dele, mas me pergunto se ela estava realmente apaixonada por ele.

“Senhora da Vinci”*

Seus romances são ricos em detalhes e meticulosamente pesquisados. Você sente que os fatos restringem sua escrita de alguma forma? Ou será que eles ajudam na sua criatividade?
A maioria deles me ajudam – especialmente na Era Tudor, porque não há fatos suficiente (e muitos deles são deliciosos), mas não suficientes. Eu uso o que eu chamo de “preencher os buracos da história” para escrever meus romances. Claro que devemos lembrar quesempre houve reviravoltas, e para escrever tem que ser cuidadoso com o que eles disseram, ou que tinham uma influência muito forte. O melhor exemplo de um escritor tendencioso foi um dos poucos observadores contemporâneos da situação Ana/Percy/Henrique que escreveu sobre isso. Seu nome era Cavendish, e sua famosa frase sobre Ana: “Aquela garota de pernas tortas da Corte” é frequentemente repetida em romances e filmes de ficção histórica. Eu acho que até mesmo ouvi-a em “The Tudors”. Mas Cavendish foi o fiel servo do Cardeal Wolsey, que era um dos inimigos mais antigos de Ana. Então você tem que saber que a sua perspectiva não era muito lisonjeiro. E, como eu disse, ele era um dos principais escritores daquele período.

Como uma escritora de ficção histórica, eu gosto desses “buracos na história”. Se eu tenho fatos de cada lado desse buraco, então eu dou o que tenho e extrapolo o que provavelmente aconteceu, ou que foi dito pelas personagens envolvidas. O melhor exemplo é o capítulo em Diário Secreto de Ana Bolena, quando Ana já está na Torre de Londres, presa por traição. Ela ainda espera que Henrique a socorra. Ela recebe um visititante, um amigo, Thomas Cranmer, que ela está muito contente de ver, mas que vem com uma tarefa desagradável. Ele trouxe um papel que Henrique quer que ela assine dizendo que Elizabeth é bastarda – a única coisa que Ana trabalhou firmemente pra que não acontecesse – para que Henrique pudesse casar-se com Jane Seymour. Sabemos que Cranmer foi para a sua cela na Torre com o documento, e sabemos que ele saiu com sua assinatura nele. Mas não sabemos o que exatamente se passou entre os dois amigos que haviam conspirado para levar a Nova Religião para a Inglaterra, e que amara um ao outro como pessoas.Assim, na minha imaginação, tudo o que eu sei sobre a psicologia humana e de todos os fatos que eu tinha sobre essas duas pessoas foram colocados para usar o que eu escrevi na cena. Até hoje, essa é uma das minha melhores realizações. Em Signorada Vinci, eu sabia exatamente três fatos sobre a mãe de Leonardo, Caterina ( que era a protagonista) , mas eu sabia muita coisa sobre o caráter de seu filho, sobre o período e outros personagens (como Lorenzo “O magnífico” de Medici), então eu fiz um enorme trabalho de extrapolação nessa. Mais uma vez, o livro é um de meus melhores, e Caterina é uma das minhas favoritas “criações”.

Seu romance, To the Tower Born, é sobre o desaparecimento dos jovens príncipes Yorks¹. O que você acha que realmente aconteceu com eles?
Se você não se importe, eu prefiro não dizer, pois a minha solução é original e, penso eu, muito plausível. Eu prefiro que as pessoas comprem o livro e descubram por si próprios.

“O Bastardo da Rainha”*

Quando eu leio livros bem pesquisados, ricamente detalhados, com personagens complexos e intricados, eu me pergunto, como é que o autor fez isso? Será que começa com uma idéia ou um personagem? Você planeja a história do início ao fim ou simplesmente deixa-a evoluir à medida que você escreve? Você pode compartilhar conosco um pouco sobre o seu processo de escrita?
Ao contrário de alguns escritores que eu conheço que iniciam uma página e deixam que seus narizes guiem-os até o fim, tudo o que eu tramo é feito em detalhes antes. O primeiro método me apavorava, e eu não sei como os outros conseguem fazê-lo. Eu geralmente começo com um conceito: “No primeiro ano de seu reinado, é dado a Elizabeth I o diário secreto de sua mãe que conta a história de Ana Bolena e seu romance fatal com Henrique VIII, e após sua leitura a vida de Elizabeth I mudou para sempre”. Ou “será que Elizabeth I e Robert Dudley realmente tiveram um filho chamado Arthur Dudley, que cresceu para ser um espião inglês, e que foi mais tarde preso por Felipe II da Espanha, um ano antes da Armada Espanhola?” Ou “o que realmente aconteceu com os príncipes de York?” Ou “Quem era a mãe de Leonardo da Vinci, e qual a influência que ela teve na vida de seu filho gênio durante a Idade de Ouro da Renascença italiana?” Ou “Como a vida de Ana e Maria na corte francesa realmente eram, e que lições elas aprenderam?” Ou ” Quem foi Grace O’Malley e como ela virou a rival de Elizabeth I e ‘Mãe da rebelião irlandesa'”?

Então eu faço uma pesquisa e escrevo um longo ensaio – de até 85 páginas – detalhando, capítulo por capitúlo as sinopses. Então, quando eu sento para escrever o manuscrito real, é muito fácil. Eu só preciso refazer os detalhes, os diálogos, e a motivação psicológica, que já é delineada. Embora muitas vezes eu me desvie da proposta original (os personagens muitas vezes assumem vida própria e escrevo um diálogo e ações que surpreendem até a mim). Eu nunca precisei me preocupar sobre como a história vai acabar. Eu sei que o que gira o enredo são os arcos dos personagens, o clímax e resolução, desde o começo. É preciso muita preocupação fora do processo de escrita. A coisa mais difícil para mim é chegar com uma idéia original, ou uma grande virada de uma história que já foi contada várias vezes.

Atualmente você está trabalhando em outros livros Tudor?
Não. No momento eu deixei a ficção histórica, embora seja um gênero fabuloso, e tenho certeza que voltarei a escrever nele algum dia novamente.

“O diário secreto de Ana Bolena”*

Se fosse permitido a você escrever apenas algumas linhas sobre Ana Bolena para sua filha, Elizabeth, o que você escreveria?
“Sua mãe era uma mulher fabulosa, corajosa à frente de seu tempo, totalmente incompreendida, que inspirou inveja em todo o mundo, porque ela era a única pessoa que Henrique VIII ouvia durante seis anos. Quando você nasceu menina, enquanto seu pai ficou furioso, sua mãe não se importou.Ela amou-a e lutou para mantê-la com ela na corte, embora isso não tenha sido permitido (ela e Henrique tiveram uam grande briga sobre isso, e foi num momento em que ela estava com problemas com seu pai por dar à luz a uma menina). Ela amou você e é uma pena que você tenha acreditado em todas as coisas horríveis que disseram sobre ela, e que você só falou o nome dela em voz alta com 26 anos. É uma coisa boa que você tenha mudado de idéia sobre ela e começou a usar um anel dela em miniatura, e começou a tratar seus parentes Bolena com respeito. Sua mãe teria ficado orgulhosa de você no começo de seu reinado, quando você excerceu a tradição de “mulher arrogante”, mas ela teria se encolhido ao ver como você ficou parecida com seu pai, ao matar metade da população da Irlanda ao tentar controlá-los.”

¹ Os Príncipes da Torre, Eduardo V da Inglaterra e seu irmão, Ricardo de Shrewsbury, 1º Duque de York eram filhos de Eduardo IV da Inglaterra e Isabel Woodville. Ambos foram declarados ilegítimos por um ato parlamentar de 1483 conhecido como Titulus Regius. Seu tio, Ricardo III da Inglaterra, trancou-os na Torre de Londres em 1483. O destino dos príncipes permanece um mistério, e não há nenhum relato de que tenham sido vistos após o verão de 1483.Presume-se que tenham morrido de fome ou que tenham sido assassinados na torre. Não há registros de que tenha havido funeral.

* Tradução literal, nenhum dos livros de Robin Maxwell foram traduzidos para o português do Brasil, mas em português de Portugal foram traduzidos os seguintes livros: A Princesa Virgem, O Diário Secreto de Ana Bolena e O Bastardo da Rainha.
A cada semana é postado aqui no Boullan uma parte do livro O Diário Secreto de Ana Bolena, traduzido por mim para o português brasileiro. Clique aqui para lê-lo.

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3 comentários sobre “Entrevista com Robin Maxwell

  1. Obrigada por escrever algumas das verdades sobre Ana Bolena.

    Complementando o texto, Ana Bolena amou apenas um único homem, Henry Percy.

    Atenciosamente,
    Ana Paula

  2. Olá!
    Ainda não tinha lido essa entrevista, muuuuito boa! Adorei como a Robin Maxwell se refere ao pai de Ana (minha opinião é similar), aliás, adorei como ela se refere a várias pessoas e fatos, o modo “cru” =D mas é que verdade.
    Você sabe me dizer se é verdade, realidad,e ou ficção histórica isso:
    “Ana já está na Torre de Londres, presa por traição. Ela ainda espera que Henrique a socorra. Ela recebe um visititante, um amigo, Thomas Cranmer, que ela está muito contente de ver, mas que vem com uma tarefa desagradável. Ele trouxe um papel que Henrique quer que ela assine dizendo que Elizabeth é bastarda – a única coisa que Ana trabalhou firmemente pra que não acontecesse – para que Henrique pudesse casar-se com Jane Seymour. Sabemos que Cranmer foi para a sua cela na Torre com o documento, e sabemos que ele saiu com sua assinatura nele. Mas não sabemos o que exatamente se passou entre os dois amigos que haviam conspirado para levar a Nova Religião para a Inglaterra, e que amara um ao outro como pessoas”
    Cranmer de fato foi levar esse documento e ela assinou? Permitiu que Elizabeth fosse considerada bastarda?
    Fiquei bastante curiosa, não sabia disso.

    • Olha, eu também já li isso em algum lugar, só não me lembro onde. Mas isso não foi mencionado em nenhum livro que eu li sobre ela, e não tenho tanta certeza de que isso é verdade.

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