A educação de Ana Bolena nos Países Baixos

Quadro fictício de Ana Bolena adolescente.

Quadro fictício de Ana Bolena adolescente.

Sabemos muito pouco sobre o início da vida de Ana Bolena. Sobre a questão da data, hora e local de nascimento, os historiadores não conseguiram chegar a um consenso, e até hoje isso está em debate. De acordo com Antonia Fraser e Eric Ives, Ana nasceu por volta de 1500 ou 1507, provavelmente em Blickling Hall, Norfolk, onde sem dúvida passou parte de sua infância.

A primeira vez que Ana deixou as ilhas britânicas foi em 1513, e ficaria longe de sua terra por quase nove longos anos. Seu destino era a corte dos Habsburgos, em Mechelen, atualmente localizada na província de Antuérpia, na região Flandres (Bélgica). Neste local, Margarida da Áustria governava os Países Baixos no lugar do seu sobrinho regente de treze anos, Charles de Borgonha (mais tarde, Imperador Carlos V). O papel de Ana era se juntar à comitiva de damas de honra da arquiduquesa.

A decisão de Thomas Bolena em enviar a sua filha mais nova aos cuidados de Margarida era claramente motivada por seu potencial inquestionável, mas ainda mais por todas as oportunidades por ter uma educação em um local popular. O lugar era muito apropriado, uma vez que o regente não estava criando seus sobrinhos em um lugar isolado. Para a nobreza européia, era o momento ideal para encontrar um lugar para seus descendentes na esplêndida corte e proporcionando-lhes uma ampla gama de conhecimentos, além do privilégio de ser instruídos pelos líderes da futura geração. Em nenhum outro lugar um pai poderia encontrar um melhor começo para uma senhora bem nascida, no entanto, Sir Thomas Bolena aspirava ainda mais.

Margarida de Áustria

Margarida de Áustria

Se sua filha Ana aprendesse boas maneiras e um nível aceitável de francês, ela teria um futuro tão certo quanto Catarina de Aragão, abrindo caminho na política externa européia, onde o francês era a língua diplomática.

O que deu a Thomas a oportunidade de colocar Ana em uma posição tão vantajosa era o seu destino como embaixador na mesma corte dos Habsburgos, em 1512. Como podemos ver, a suas relações com Margarida da Áustria era bem amigáveis, ajudando o governador que aceitou com grande satisfação que ela se tornasse parte de seus dezoitos filles d’honneur. Quando Thomas Bolena regressou à Inglaterra no início do verão de 1513, ele enviou sua filha imediatamente aos Países Baixos.

As primeiras impressões que Margarida teve sobre Ana foram muito boas, e ela decidiu escrever uma carta ao seu pai para informá-lo de sua chegada. Ela contou que a petite boulain era tão educada e agradável para a sua tenra idade “que sou mais grata a você por enviá-la a mim, do que você a mim.”

O casal Anorfini

O casal Anorfini

A corte esplêndida de Mechelen, chamada de “uma escola principesca e um lugar de cultura e civilização avançada” pelo historiador belga Ghislain De Boom, era visitada frequentemente por Erasmo e outros humanistas bem conhecidos. A arquiduquesa possuía uma biblioteca excelente, com grande quantidade de escritos de Christine de Pisano, mulher conhecida por sua escrita desafiadora, além de obras de Boccaccio, Aesop, Ovid, Boécio e Aristóteles; além de livros de poesias e missais. Era um centro humanista, a capital das artes e da literatura do norte da Europa. Lá Ana pode ter conhecido poetas, pintores, escultores, arquitetos e escritores. A regente Margarida mantinha em seu palácio obras de Hieronymus Bosch, Jan Van Eyck, Jacobo de´Barbari e outros artistas de renome. Sabemos que Ana Bolena, no final de sua vida, era defensora de Hans Holbein, o Jovem, e o seu gosto pela arte era provavelmente uma herança transmitida pela regente Margarida da Áustria. Acredita-se que Ana poderia ter visto O Casal Arnolfini.

A arquiduquesa também tinha uma notável biblioteca com muitos livros e manuscritos. Entre os mais excepcionais, temos Très Riches Heures du Duc de Berry, e outros associados com Margarida de York (que era esposa de Carlos, o Temerário e irmã de Eduardo IV da Inglaterra).

Cabe destacar também os livros musicais, que incluíam missas, motetos¹ e canções que influenciaram significavelmente o gosto pela boa música de Ana. Entre os músicos que estavam na corte dos Hasburgos temos Pierre de la Rue, Antoine Brummel, Pierrequin de Therache e Josquin des Prez, o mais popular de todos os compositores. A Arquiduquesa novamente seria um exemplo a seguir, porque sua musica era muito valorizada, principalmente quando ela jogava cravo. Nota-se que Ana desenvolver suas habilidades de forma significativa e tinha grande probabilidade de frequentar as aulas de cravo com Henri Bredemers, tutor do futuro Carlos V e suas irmãs.

As Riquíssimas Horas do Duque de Berry

As Riquíssimas Horas do Duque de Berry

Na corte de Margarida a Áustria, Ana era dama de honra. Ela não tinha obrigações específicas, mas estava sobre o comando da Senhora da Câmara Privada, que comandava o trabalho dos aposentos do soberano. É esperado que estivesse inteiramente a serviço da arquiduquesa, e que iria se integrar ao ambiente cortesão. As damas de honra deveriam ser solteiras e ter mais de 13 anos para agir como “figuras decorativas” nas cerimonias públicas, onde acompanhavam sua senhora. Na verdade, a lei afirmava que as meninas de doze anos eram legalmente capazes de consumar o casamento. É provável que Ana Bolena tivesse treze anos na época (1514), mas isso não justificava sua presença na comitiva do governador. Portanto, acredita-se que seu nascimento ocorreu entre 1500-1501.

Havia um grande excesso de competição entre as famílias nobres. Todos que tinham boa posição queria que a filha obtivesse um marido para satisfazer suas expectativas e ambições. Para que elas estivessem preparadas para isso, as meninas eram instruídas como se vestir na moda, como comportar-se em círculos sociais, tocar instrumentos musicais com alguma habilidade, cantar e falar de modo agradável. Usando essas habilidades, elas entretiam os convidados e também realizavam outras tarefas, como acompanhar as senhoras à igreja ou ajudar nos trabalhos de bordado.

Elizabeth e Robert Dudley dançando

Elizabeth e Robert Dudley dançando

Uma das habilidades altamente valorizadas na corte era saber dançar gloriosamente. Todas as cortes da Europa gostavam de dança, e era uma das tarefas mais importantes em termos de entretenimento cortesão. A principal dança na corte de Margarida era a “Basse danse”, que era muito popular no século XV e XVI. Quando dançava, os casais se moviam de forma graciosa, em um movimento lento deslizando seus pés ao caminhar e subir e descer com seus corpos. Essa dança é considerada o precursor de Pavana².

A regente Margarida era muito exigente com suas alunas. O comportamento e a expressão deveria ser sempre boa em todos os momentos. A regente também observava-as muito de perto e proibia qualquer tipo de fofoca e relações indecentes com os cavalheiros da corte. A arquiduquesa era a favor do jogo do amor cortês, mas sempre respeitando as regras. Essa atitude foi observada em Ana durante seus anos como Rainha da Inglaterra.

Primeira carta conservada de Ana Bolena. Escrita em 1514, quando tinha treze anos, para seu pai.

Primeira carta conservada de Ana Bolena. Escrita em 1514, quando tinha treze anos, para seu pai.

A primeira carta em francês que Ana enviou ao seu pai, dos Países Baixos (as cartas anteriores eram acompanhadas pelos tutores) é preservada na Biblioteca de Corpus Christi College, em Cambridge. Pensa-se que ela foi escrita no verão de 1514, na aldeia de La Vure (agora chamada de Tervueren, perto de Bruxelas), onde a regente Maria da Áustria e sua corte passavam o verão. A carta foi provavelmente uma resposta ao convite feito a ela por seu pai, Thomas Bolena, para ir para a França. É verificado que seu francês era escrito de forma ainda muito pobre, assim como se pode encontrar alguns erros de ortografia bastante significativos. Mas, no entanto, demonstra maturidade na sua escrita e linhas bem definidas. Segue abaixo um pequeno trecho traduzido³:

“Senhor, eu entendo por sua carta que você deseja que eu compareça na corte convertida em uma respeitável senhora e que a rainha têm o prazer de falar comigo. Isso me alegra muito, quando penso que serei uma mulher tão inteligente e virtuosa quanto ela. Portanto, mais me incentiva a continuar a falar e escrever francês, especialmente porque você me disse que aconselha a colocar muito esforço nisso. Senhor, eu peço que me perdoe se essa carta está mal escrita, mas posso garantir-vos que a ortografia vem inteiramente de minha cabeça, enquanto as outras cartas eram o resultado único de minhas mãos; e Semmonet me deixou escrever-lhe sozinha e ninguém mais sabe o que estou escrevendo” […]

¹ O moteto é um gênero musical polifônico surgido no século XIII, onde, inicialmente, usavam-se textos distintos para cada voz. Dessa característica vem a origem do termo, derivado de mot, palavra, em francês.

² De acordo com o Dicionário Aurélio Século XXI: no começo do séc. XVI, denominava-se Pavana uma dança de corte, provavelmente de origem italiana, em compasso binário ou quaternário, andamento lento e majestoso. Depois de 1600, peça instrumental, com as características dessa dança, e geralmente seguida pela galharda. A palavra também é utilizada com o sentido de descompostura e palmatória.

³ Semmonet era o tutor de Ana nos Países Baixos.

Traduzido do artigo ‘La educación de Ana Bolena en los Países Bajos‘ escrito por Caroline Barrio José.

Anúncios

2 comentários sobre “A educação de Ana Bolena nos Países Baixos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s