A preparação para a morte de Ana Bolena

"A última caminhada de Ana Bolena".Sempre houve algo que me intrigou sobre as horas finais de Ana Bolena no mundo – sua incrível coragem e serenidade profunda em face de seu esquecimento eminente. É quase impossível imaginar o terror, a desolação e o sentimento de traição absoluta que ela deve ter sentido após ver os chocantes eventos de maio de 1536 se desenrolarem sobre esse clímax dramático.

Nós sabemos a partir dos relatórios das pessoas próximas à Ana que durante seus últimos dias seu humor alterava várias vezes, e quando sua execução estava chegando, ela tinha crises de histeria e dormia pouco. Assim se pode imaginar que, quando finalmente saiu para fazer sua última caminhada para o cadafalso ela deveria parecer frágil e exausta, além de assombrada com o horror do que estava por vir.

No entanto, surpreendentemente, o que sabemos de fontes contemporâneas não sugere que este seja o caso. Um testemunho português diz que “Nunca a rainha esteve tão bela”. Outro relato afirma que “a rainha foi para a sua execução com um semblante imperturbável”. Como isto seria possível? Embora o seu estado de espírito da manhã de 19 de maio tenha sido resultado de sua coragem e profunda religiosidade, recentemente se acredita que há uma explicação mais abrangente e convincente para a sua aparência e comportamento.

Em seu livro “Out of the Darkness”, o psicólogo Steve Taylor dá uma fascinante visão sobre o que ele chama de SITE – Suffering Induced Transformational Experience, ou seja:  o sofrimento induz à experiências transformacionais. Como o nome sugere, se trata de mudanças profundas na consciência que ocorrem geralmente como resultado de uma experiência individual de trauma ou tumulto significativo. Taylor não só descreve o fenômeno e as condições mais frequentes que as causam, mais também o tipo de pessoa mais suscetível a tal mudança.

Há alguns indicadores fascinantes e tentadores que indicam que em algum momento nas suas finais horas na Terra ela teve que enfrentar a inevitabilidade de sua morte, e isso provocou uma alteração em Ana, mudando radicalmente seu estado de espírito.

Ana se despedindo de Elizabeth na Torre.

Quando um indivíduo enfrenta a morte iminente, como Ana fez, o medo se torna elevado ao extremo. Somos obrigados a enfrentar a perda de nossos sonhos, esperança, família, status, amigos, etc. Tudo que é nosso é arrancado. Isso pode levar a um surto psicótico (ou crise nervosa), do tipo que foi registrado no caso de Lady Rochford, que enlouqueceu em face da sua execução em 1542. Ou, talvez, mais raramente, uma pessoa pode enfrentar um “break up”, um tipo de ruptura, como quando um ego se desintegra, e um novo senso surge para preencher o vácuo, um sentimento que em si é corajoso e profundamente pacífico. Diante da morte, a identidade conjunta de Ana teria se arrastado, e neste momento de devastação e desolação você se vê perto de um estado de libertação.

A prova que temos desta transformação na consciência é que, como já foi dito, antes seu humor beirava a histeria e, no dia 18º de maio, quando sua execução foi adiada pela segunda vez, ela disse ao Mestre Kingston, o Capitão da Torre de Londres, que “ela não desejava a morte, mas estava pronta para morrer“. Parece que Ana tinha alcançado um profundo sentimento de aceitação. Um outro relato diz que, ao subir o cadafalso, Ana parecia “muito alegre, como se não fosse morrer”.

Taylor descreve que normalmente pessoas com essas qualidades são mais suscetíveis a sofrer um “SITE”:

  • Normalmente têm qualidades como coragem e realismo. Sabemos que Ana se destacava por sua coragem. Como o embaixador Chapuys observou em 1530, ela era “mais corajosa do que um leão”. Também não é difícil de deduzir isso quando você lê a história de Ana.
  • Têm-se a necessidade de estar no controle. Ana viveu em um mundo controlado pelos homens. No entanto, eu acredito que ela foi, sem dúvida, uma fêmea alfa, que tomou  o seu destino nas próprias mãos e se empenhou com grande tenacidade para conseguir o que ela desejava. Note que em seu emblema há um falcão, que simboliza “uma pessoa que não descansa até que o objetivo seja alcançado”. Além disso, parte da razão de que Henrique se apaixonou por Ana era pela sua personalidade forte, um grande contraste com as submissas rosas inglesas, predominantes na corte.
  • Essas pessoas têm uma forte tendência à criatividade. Sabemos que Ana era uma pessoa criativa, pois gostava de escrever poesias, de dançar, tocar música e cantar. Ela era conhecida por “todos os dias fazer alguma mudança em suas vestes”. Taylor sugere que esses indivíduos têm uma personalidade predominantemente intuitiva e são pessoas altamente emocionais. Isso predispõe uma intensa resposta ao trauma, a uma ponto onde a estrutura do ego é colocado sob uma pressão insuportável.
  • O gênero também desempenha um papel. Por meio de pesquisas, descobriu-se que o sexo feminino é mais suscetível ao site quando são postas a situações de luto, doenças e deficiências. É claro que Ana não estava apenas enfrentando a própria morte, mas como dois dias antes possivelmente presenciou a execução do próprio irmão. Ela também sofreu com a separação da sua filha, Elizabeth.

Parece-me que Ana se encaixa muito bem no tipo de personalidade que a investigação têm mostrado. Naturalmente, esta é uma das teorias que nunca poderão ser comprovadas. No entanto, eu acho digno de consideração de que algo profundo e surpreendente aconteceu com Ana Bolena nos seus últimos dias. No entanto, como o aniversário de sua execução está chegando, eu gostaria de pensar que Ana estava caminhando para a morte como uma mulher plenamente livre para finalmente encontrar uma profunda sensação de paz.

Traduzido do artigo “Long prepared to Die”: The
Transformation of Anne Boleyn” escrito por Sarah Morris.

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11 comentários sobre “A preparação para a morte de Ana Bolena

  1. Sou psicanálista, e esta descrição sobre os últimos dias de Ana Bolena, me faz pesar de que realmente ela diante deste desamparo total, reedita o desemparo original do qual Freud falou, isto é, a ruptura do ego conforme descreve muito bem o psicologo Steve Taylor, e isso sim pode ter desencadeado um surto psicótico, o sujeito fica a deriva. Afinal lidar com o tema da morte de forma tão Real, deste puro Real a morte, não é nada simples……Elenice.

  2. Nunca li relato com tamanha riqueza de detalhes, com tanta descrição e que trata Anne Boleyn como a verdadeira Rainha que era… Fiquei chocado e ao mesmo tempo maravilhado…

  3. Sem contar que pessoas religiosas como a Ana, tem uma certeza, uma fé inabalável sobre Deus na pessoa de Jesus Cristo, e por isso vêem a morte de outra maneira. Com certeza Deus estava ao lado dela nesse momento, por isso também a tranquilidade que ela estava demonstrando.

    • Não, só duas das seis. Ambas foram acusadas de adultério e uma delas de traição por tramar a morte do rei.

  4. Tudo que você escreve, é com tanto sentimento que, antes de’u perceber, já estou com as lágrimas descendo pelos olhos. Obrigada.

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