Quem matou Amy Robsart?

Amy Robstar, por William Frederick Yeames no século 19.Em 8 de setembro de 1560, Amy Robsart, esposa de Robert Dudley, cortesão favorito da rainha Elizabeth, foi encontrada morta aos pés de uma escada de sua casa, aos 28 anos. Foi uma morte que escandalizou a Inglaterra Tudor, e até hoje é um dos mais famosos mistérios não resolvidos daquela época. A morte de Amy foi um acidente, suicídio ou assassinato? Vários culpados são sugeridos: um câncer maligno no seio, que explicaria os relatos de dor no peito e poderiam resultar no afinamento dos ossos do pescoço; agentes de Robert Dudley; agentes de Elizabeth; agente de William Cecil; ou suicídio.

Amy Robsart nasceu em 1532, como a única filha e herdeira de Sir John Robsart e sua esposa Elizabeth Scott. Muito pouco ou nada se sabe sobre sua infância. As terras dos Robsart eram do lado das de John Dudley, 1º Duque de Northumberland e sua família. John Dudley tinha vários filhos, sendo um deles Robert Dudley, que viria a se tornar Conde de Leicester. Quando Amy tinha aproximadamente 17 anos, casou-se com Robert. Pouco comum naqueles dias, documentos sobre o casamento levam a crer que ambos concordaram com a união, pois estavam apaixonados um pelo outro. Como ambas as famílias eram ricas, não houve oposição. O casamento ocorreu em 4 de junho de 1550 no Palácio Real de Sheen, em Richmond, no Surrey, com a presença do frágil rei Eduardo VI.

A ascensão da rainha Elizabeth ocorreu pouco tempo depois. Embora isso não deveria ter qualquer envolvimento com o casamento de Amy, Robert Dudley não tinha gosto pela gestão das terras, ele tinha os seus olhos em outro prêmio – a nobreza da Inglaterra. Logo, Robert foi para a corte e os boatos não demoraram a se espalhar sobre Elizabeth e seu novo cortesão, Robert. Ele certamente foi seu favorito e passou muitas horas ao seu lado, o que o tornou muito invejado. Ele não permitia que sua mulher fosse para a corte, ele provavelmente pensava que isso iria lembrar constantemente Elizabeth de que ele era casado.

O embaixador espanhol, Bispo de Quadra, em suas muitas cartas para Filipe da Espanha, registra grande parte da fofoca e opinião sobre Robert Dudley. ‘Ele é pior homem e o jovem mais procrastinador que eu já vi na vida’. De Quadra também afirma que havia múltiplas conspirações para matar Dudley, ‘pois nem um homem no reino pode suportar a idéia de tê-lo como rei’.

O verdadeiro escândalo começou discretamente. As cortes da Europa eventualmente especularam que o motivo real pelo qual Elizabeth era tão vaga em relação a seu casamento era porque ela estava simplesmente esperando que Amy Dudley morresse, de modo que Robert estivesse livre para se casar novamente. Nessa época, Amy foi descrita como ‘uma estranha mulher de espírito’, e sua correspondência reflete sua mágoa em viver longe do marido.

Em 1560, Amy estava morando numa casa onde hoje é chamado o condado de Oxford. Ela não estava lá sozinha, alguns amigos de Dudley estava lá também, pois aconteceu dos amigos de Dudley terem “ganhado” a casa. Houve rumores de que Amy estava sendo mantida lá como uma prisioneira, mas hoje se pensa que ela tinha toda a liberdade que queria.

É triste perceber que a única coisa pela qual Amy Dudley seria lembra foi por causa dos eventos do dia 8 de setembro de 1560. O mistério começa quando Amy ordenou que todos os funcionários fossem embora, dando-lhes permissão para irem à uma feira na cidade. Depois de passarem o dia fora, os empregados voltaram para casa, encontrando Amy morta aos pés da escada. Eram poucos degraus até o quarto de Amy, e certamente não era possível ela morrer ao descê-los. Quando Robert foi informado da morte de sua esposa, ele aparentemente pareceu chocado. O incomum é que ele enviou amigos para a casa de Amy para cuidar de seu enterro, de modo que ele não precisasse comparecer. Na época, isso foi considerado muito desrespeitoso.

Amy Robstar, por Sir William Quiller Orchardson.No momento de sua morte, supunha-se que uma simples queda não poderia ter causado sua morte. Foi descrito que o toucado de Amy estava perfeitamente sob sua cabeça. Em 1956, Ian Aird propôs que Amy sofria de câncer de mama, de modo que seu pescoço poderia estar particularmente frágil e poderia se quebrar facilmente. Esta teoria tornou-se popular nos  tempos modernos. Como ele observou, ‘em uma mulher da idade de Amy, a causa mais provável de uma fratura espontânea da coluna seria um câncer de mama’. De fato, em 1559 o Conde de Feria relatou que Amy Dudley ‘tinha uma doença em um dos seus seios’. Seu argumento de que a morte de Amy resultou de uma queda da escada, a qual foi agravada por causa de sua coluna enfraquecida em razão do câncer de mama, seu ponto de vista é convincente. No entanto, Simon Adams, afirma que ‘esta teoria é explicada por uma série de circunstancias, mas uma doença em 1559 é difícil de conciliar com as extensas viagens que ela fez nos meses seguintes’.

Uma explicação alternativa é o suicídio. Se Amy estava sofrendo de depressão, ainda que com câncer de mama, ela poderia ter tentando cometer suicídio na tentativa de escapar de uma vida que não era mais suportável. Naquela época, acreditava-se que o suicídio era um pecado mortal, o que levava a condenação eterna; será que Amy queria tanto encurtar a sua vida? Talvez a dor e o sofrimento que seu marido lhe deu tenha sido suficiente. Suspeitamente, descreveu-se que Amy ficou muito irritada quando três empregados resistiram ao desejo de Amy que todos saíssem. Alguns historiadores colocam a hipótese de que Amy mandou embora seus funcionários na manhã de 8 de setembro a fim de cometer suicídio em segredo. O próprio Robert Dudley pode ter aludido esta possibilidade. No entanto, Aird ataca essa possibilidade, afirmando que ‘jogar-se por um lance de escadas não acarretaria em suicídio hoje em dia, e teria ocorrido menos ainda num suicídio elisabetano em um tempo em que os degraus das escadas eram largos e baixos, e o ângulo de descida gradual’.

Outros sugerem que a morte de Amy foi acidental. James Gairdner, em 1889, sugeriu que sua morte foi um trágico acidente. O veredicto do médico legista em 1561 foi que Amy Dudley ‘estava sozinha em uma determinada câmara…. acidentalmente caiu vertiginosamente para baixo’, para as escadas ao lado da câmara. Isso causou dois  ferimentos na cabeça e ferimentos em um polegar. Tragicamente, ela quebrou o pescoço na queda. Devido a isso, ela ‘morreu instantaneamente’. No entanto, historiadores tem sugerido que Robert Dudley, como um cortesão influente e poderoso, teria sido capaz de influenciar o legista. Aird argumentou que ‘há várias circunstancias em relação à morte de Amy Robstart que fez com que seus contemporâneos, assim com os historiadores em épocas posteriores, serem um pouco hesitantes em aceitar sem reservas o veredicto’.

Talvez a mais famosa é a teoria de que Amy foi, de fato, assassinada. Após sua morte, havia muita suspeita na corte sobre a morte de Amy e a relação entre a rainha e seu favorito, Dudley. Argumenta-se que William Cecil, que era secretário principal da rainha, sentiu-se ameaçado pela crescente influência de Dudley e informou ao embaixador espanhol que antes da morte de Amy, Elizabeth e Dudley estavam conspirando para envenená-la, contando a todos que ela estava doente, mas que de fato não estava (mas provas contradizem isso, uma vez que ela estava, de fato, doente). Em 1567, o meio-irmão de Amy, John Appleyarde, irritado com Dudley, afirmou que ‘ele não estava satisfeito com o veredicto do júri sobre sua morte; mas pelo amor a Dudley ele tinha encoberto o assassinato de sua irmã’.

A descoberta de correspondências de embaixadores espanhóis no século XIX apoia a teoria do assassinato, relatando que Amy estava doente e que seu marido tinha tentado envenená-la e separar-se dela na primavera de 1559. O relatório de 11 de setembro de 1560, três dias após a morte de Amy, afirma que Cecil acreditava que Dudley havia assassinato por sua esposa. Uma crônica  de 1563, escrita por alguém violentamente hostil aos Dudley, sugere que Sir Richard Verney assassinou Amy a mando de Robert. O historiador vitoriano James Anthony Froude, tendo encontrado a correspondência espanhola, escreveu em 1560 que ‘ela foi assassinada por pessoas que esperavam lucrar com a sua elevação [de Robert Dudley] ao trono’. Alison Weir, em 1999, sugeriu que Cecil, ao invés de Dudley, estava disposto a matar Amy porque queria impedir o casamento de Dudley e Elizabeth, e porque ele também se beneficiaria com o resultado do escândalo. Outra evidência foi apresentada: antes que Amy morresse, tanto Robert quanto a Rainha disseram ao embaixador espanhol que ela morreria logo.

Robert Dudley em 1564, por artista desconhecido.No entanto, muitos historiadores têm desacreditado os rumores de que Amy foi assassinada. A correspondência de Dudley com Thomas Blount e William Cecil nos dias que precederam sua morte foi visto como prova de que ele era inocente, enquanto outros têm observado que tanto ele quanto a rainha ficaram muito chocados quando a notícia da morte de Amy lhes foi dita. Plausivamente, tem sido sugerido que Dudley não iria matar sua esposa por causa do tremendo escândalo que se seguiria. David Loades foi tão longe a ponto de afirmar que ‘podemos estar razoavelmente certos de que Lorde Robert não colocou suas mãos no assassinato de sua esposa’. Aird afirma que ‘não há evidência de que ele [Dudley] tivesse qualquer pensamento sobre assassinar sua esposa’, mesmo que ele desejasse se casar com a rainha. Ele também afirma que ‘uma escada não é uma arma conveniente para um assassinato. Lançar uma pessoa escada abaixo é muito incerto’. Não se pode afirmar que ela foi assassinada e depois lançada escada abaixo. Historiadores também reconhecem que envenenamento era uma acusação clássica do século XVI para desacreditar adversários políticos.

O embaixador espanhol não era o único a achar que o caso era ‘muito vergonhoso e escandaloso’. Dudley, no entanto, era agora um homem solteiro e havia muitas especulações sobre se a rainha deixaria de lado todas suas dúvidas e se casaria com ele. Mas a morte de Amy, em circunstancias tão sombrias deixava uma casamento a curto prazo impossível. E, como nós sabemos, não haveria um casamento a longo prazo.

Nós nunca saberemos o que aconteceu com Amy Dudley. Independente das explicações dadas, não há nenhuma prova absoluta. Portanto, eu sempre irei me perguntar o que aconteceu com Amy Dudley, cuja morte foi seu legado para o futuro.

Bibliografia:
CAREW, Betty. ‘History mysteries: Who killed Amy Dudley?’. Acesso em 29 de maio de 2011.
BYRNE, Conor. ‘A Tudor Mystery: What Happened to Amy Robsart?‘. Acesso em 17 de outubro de 2013.
The Legacy of the Kett Rebellion‘ . Acesso em 17 de outubro de 2013.

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4 comentários sobre “Quem matou Amy Robsart?

  1. Embora esteja curiosa espero que a morte por algum tempo continue sendo um misterio,mas sinto muito por ela,morreu tão jovem.
    As razões pela qual ainda quero que continue um misterio,tambem é um misterio

  2. Realmente é um grande mistério, um dos mais interessantes a história. Provavelmente jamais saberemos a verdade; mas pessoalmente, acredito que possa ter sido um plano de William Cecil, mas não acredito que Robert ou Elizabeth estivessem envolvidos já que ambos nutriam um romance e o desejo de casarem-se era mútuo, eles não iriam se envolver em qualquer coisa que pudesse atrapalhar isso (mesmo que talvez Bess decidisse por fim continuar solteira). A teoria do acidente não pode ser descartada também, mas pode ter sido um acidente causado, não necessariamente planejado.

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