Ana Bolena era realmente uma bruxa?

“No brilho da devoção do rei, ela foi uma força em seu próprio direito, contra qual ninguém se atrevia a falar”.

Relatos contemporâneos descrevem que Ana e Henrique se comportavam como um casal mesmo antes de terem dormidos juntos. No entanto, ao se casarem, as birras de Ana e sua língua afiada havia feito Henrique buscar refúgio em outras camas.

Se Ana houvesse dado a Henrique um herdeiro do sexo masculino – um príncipe, em vez de uma princesa – ela poderia ter permanecido intocável. Mas apenas uma de suas três ou quatro gestações produziu um bebê vivo – a sua filha de cabelos ruivos, Elizabeth. Mas numa época em que se acreditava que apenas um homem no trono poderia ter uma nação unida e assegurada contra seus inimigos, isso simplesmente não era bom o suficiente.

No tribunal, Ana se defendeu de modo calmo e digno, negando as acusações de adultério, traição e incesto. Mesmo com uma evidência escassa, ela foi considerada culpada. Dois dias após seu irmão ser decapitado, Ana ajoelhou para tomar o golpe do carrasco e pediu para os espectadores que “julgassem o melhor”.

Após sua morte, Henrique a esqueceu com uma crueldade típica dos Tudor. Nenhuma pedra marcou sua sepultura, nenhum caixão foi encomendado e todos os seus retratos foram destruídas, assim como os bordados de “H&A” entrelaçados que adornavam as paredes do palácio.

Ana Bolena é, provavelmente, a mais famosa das seis esposas de Henrique VIII. Ela foi de uma das muitas mulheres da corte para uma rainha. Mas ela é uma figura trágica na história, e das muitas acusações feitas contra ela, a de feitiçaria é, provavelmente, a mais ridícula. Algumas pessoas diziam que ela era uma mulher de rosto pequeno, com pescoço desproporcional e seis dedos na mão esquerda. Também é dito que ela tinha uma pinta no pescoço que não era exatamente discreta. Há também quem diga que ela tinha três seios. Contrariamente à opinião popular, a infortunada rainha não tinha um sexto dedo, nem qualquer tipo de marcação demôniaca, e certamente não era uma bruxa.

Tais lendas, incluindo a do seis dedos, parecem ter sido geradas pelos católicos romanos após a execução de Ana Bolena. Escrevendo em meados de 1580, Nicholas Sanders dizia que sua pele mostrava resquício de icterícia, que ela tinha um dente saliente sob o lábio superior, um sexto dedo na mão direita e uma grande marca no pescoço, que ela usava vários colares e fitas no pescoço para disfarçar. Ele acrescenta também que, embora tenha tudo isso, seu rosto era bonito aos olhos. Diz-se que, para esconder seu dedo extra, Ana usava mangas compridas e elaboradas que logo se tornaram moda na Corte.

Sexto dedo, machas no rosto, bócio que desfigurava seu pescoço, dente sobressaído. O rei da Inglaterra realmente deixaria de notar esses tipos de características? Henrique VIII só iria escolher uma mulher atraente, que o deslumbrasse desde o início com sua sagacidade, inteligência e, principalmente, beleza.

A idéia de que Ana Bolena era uma bruxa foi um mito espalhado e popularizado por seus adversários e por pessoas como Nicholas Sander, que provavelmente nunca sequer conheceu a rainha. Sanders também escreveu que Thomas Bolena, pai de Ana Bolena, só a mandou para a França porque ela havia cometido atos sexuais, quando criança, com seu capelão e mordomo.

Henrique VIII aparentemente admitiu aos seus “principais cortesões” que ele tinha sido “seduzido e forçado em seu segundo casamento por meio de sortilégios e feitiços”. Sortilégio não significa necessariamente que ele acreditava que Ana fosse uma bruxa. Ele pode significar encantamento, e como Eric Ives diz, pode ser atribuído à arrogância de parte de Henrique, uma vez que ele era conhecido por seus exageros. Afinal, ele também disse que Ana havia dormido com uma centena de homens. Além disso, o termo sortilégio no inglês da época poderia significar ‘adivinhação’ e desde que Henrique falou sobre herdeiros do sexo masculino, o rei poderia estar se referindo às previsões antes do casamento de que Ana iria produzir herdeiros do sexo masculino.

O rei acusou Ana de enfeitiçá-lo, e, como sabemos, a bruxaria não era algo para se fazer piadas ou acusações levianas no século 16. Quase todos os europeus daquela época acreditavam que bruxaria era um problema real e muito sério. Eles alegavam que as bruxas faziam pactos com o diabo, que por sua vez, lhe davam poderes sobrenaturais.

Entre seus poderes estava a capacidade de preparar magias e venenos de todos os tipos, que podiam afetar tanto indivíduos quanto a natureza. Henrique VIII disse uma vez que temia que Ana pudesse matar sua filha Maria com veneno – uma acusação comum contra as bruxas.

Elas também seriam capazes de voar (em varas, animais ou demônios) e de se transformarem em lobos, atacando vítimas inocentes na floresta. Nem todos os teólogos da época acreditavam que as bruxas podiam voar e se transformar: alguns atribuíam isso a ilusões e fantasias impulsionadas pelo diabo.  Acredita-se que Ana praticou incesto com seu irmão no Palácio de Westminster, mas na realidade ela estava com o rei em Windsor na data. Bom, isso prova que bruxas podem voar…

Além disso, as bruxas eram conhecidas por usar afrodisíacos e sensualidade excessiva. Na Inglaterra medieval, várias senhoras da nobreza foram acusadas de usar feitiçaria para atrair homens para se casarem. O caso mais famoso por o da rainha Elizabeth Woodville, que seduziu o jovem Eduardo IV. As bruxas também eram supostamente envolvidas no sexo ilícito, que era considerado um comportamento desviante e anormal dos seus contemporâneos. Os especialistas argumentam que o resultado de sua união com o diabo resultava em bebês deformados, que elas sacrificavam as crianças (incluindo seus próprios filhos) e incesto. Elas também eram acusadas de atormentar os homens e mulheres provocando impotência. Após se casar com Ana, Henrique VIII começou a sofrer de impotência sexual. Esse caso veio à tona no julgamento de George Bolena, acusado de discutir esse assunto com Ana.

Nicholas Sander escreveu que em 1536, Ana deu à luz a um feto deformado, que ele descreveu como “uma massa informa de carne”, e que isso era sinal de que Ana havia usado bruxaria e que ela havia cometido algum tipo de pecado sexual. O nascimento de crianças deformadas era visto como um castigo enviado por Deus por causa dos pecados cometido por seus pais. Os clérigos interpretavam o aparecimento destes bebês como mau agouro e ao mesmo tempo como um excelente exemplo de justiça divina. Qualquer irregularidade em bebês era descrito como monstruoso: cabelos na barriga, dobras nas costas e, especialmente, gêmeos siameses.

Gatos pretos nas fotos promocionais de Ana Bolena, na série The Tudors.

Gatos pretos nas fotos promocionais de Ana Bolena, na série The Tudors.

De acordo com Eric Ives, nenhum feto deformado foi mencionado em 1536, ou mesmo depois da morte de Ana, e que isso não foi ressaltado em seu julgamento e nem sequer mencionado durante o reinado de Maria I, quando ela poderia ter usado isso como forma de denegrir a reputação de Ana. O único comentário que Henrique VIII fez sobre abortos de Ana foi que “Eu vejo que Deus não me dará crianças do sexo masculino”. Isso sugere que ele culpava a Deus, e não Ana.

Sodomia e bruxaria eram associadas com incesto. Apesar de este último ter sido banido, o ato não chocava os cidadãos da era Tudor como hoje no século XXI. Desconhecendo as regras da genética e hereditariedade, as dispensas papais permitiam casamentos incestuosos entre a nobreza, que não era visto como algo estranho. Por exemplo, quando Henrique estava para se casar com Ana Bolena, surgiram rumores de que, para resolver o problema de sucessão, Henrique Fitzroy se casaria com Maria Tudor, sendo ambos meio-irmãos.

Ana Bolena na parede de Hogwarts.

Ana Bolena na parede de Hogwarts.

A biografia de Ana escrita por George Wyatt (neto de Thomas Wyatt) também alega que em uma das mãos ela tinha algo com “com a aparência de um” em um lado de um de seus dedos. Na reconstrução da Capela São Pedro ad. Vincula realizado em 1876, onde Ana foi enterrada, seu esqueleto foi descoberto e não foram encontradas características significativas. Os médicos descreveram seu esqueleto como pequeno, suas mãos eram perfeitamente formados e, seus dedos (cinco em cada mão) longos – algo que ela, obviamente, repassou a sua filha Elizabeth, que era conhecida por se gabar de seus dedos longos.

Como já vimos, Ana não era considerada a beleza ideal, ela era morena com pele cor de oliva. Ela foi descrita como tendo estatura média, elegante, com um rosto bonito e olhos negros penetrantes. Ela não foi considerada bonita, ela foi mais considerada agradável. No século XVI, cabelo escuro e pele morena eram considerados sinais de malignidade, e nas décadas após sua morte, ela foi descrita de forma a incentivar a opinião pública entre os simpatizantes da igreja Católica.

Bibliografia:
‘¿Ana Bolena era realmente una bruja?‘. Acesso em 15 de junho de 2011.
Anne Boleyn and Her Six Fingers‘. Acesso em 15 de junho de 2011.

10 comentários sobre “Ana Bolena era realmente uma bruxa?

  1. Mesmo depois te tantos anos e tanto esclarecimento, ainda há pessoas atualmente que acreditam que Ana era maligna e fazem questão de espalhar isso.
    As pessoas simplesmente não dão o braço a torcer e não enxergam que ela conquistou o rei por méritos próprios: beleza, mistério, sagacidade, espírito e inteligência.
    Ela foi uma mulher a frente de seu tempo. Mal compreendida.

  2. Ana não é a minha favorita, mas é uma mulher que também admiro muito por sua inteligência e coragem. Quem fala mal são pessoas desinformadas e despeitadas.

  3. Num dos filmes de Harry Potter, aparece um retrato dela em Hogwarts. Naquele universo, ela foi uma bruxa abortada (que não desenvolveu os poderes da forma adequada). Sempre imaginei que ela teria manifestado seu dom inesperadamente numa explosão de raiva com Henrique VIII (coisas voando do nada ou algo assim) e, bem… a pena por bruxaria na Inglaterra daquele período era a morte (y)

    • SSm, esse retrato dela na parede de Hogwarts é bem famoso. Mas aonde você leu a informação de que ela foi uma bruxa abortada? Porque nunca li nada relacionando ela oficialmente ao universo de Harry Potter.

  4. Não gosto da ideia de vitimização histórica. Creio que os sujeitos são portadores de virtudes e defeitos, não importando a época em que se viveu. Mas sem dúvida, os comportamentos de Ana, considerados moralmente condenáveis, contribuíram largamente para a construção e afirmação destes esteriótipos femininos, que perpassaram os séculos e perseguem nós mulheres até hoje.

  5. Tem um filme, agora não me lembro o nome, em que Ana Bolena tem um sinal no pescoço e usa gargantilhas para escondê-lo! Legal saber sobre isto agora, pois explica sobre isto no filme – porque eu não vi em outros.

    • Sim! Nesse filme ela foi interpretada por Charlotte Rampling: foi o filme Henry VIII and His Six Wives, de 1972. É curioso que esse filme foi feito por conta do sucesso de uma série chamada The Six Wives of Henry VIII, no entanto, a série quase não tinha erros históricos, diferentemente do filme, onde até foi feito um dos retratos mais grotescos de Ana de Cleves.

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