Filme Henry VIII (2003) – Parte I

Produzido por Andy Harris, “Henry VIII” (2003) é um drama televisivo dividido em duas partes que têm como base a turbulenta trajetória do monarca mais controverso da história da Inglaterra e sua busca desesperada por um filho varão para sucedê-lo ao trono. Com um roteiro inteligente e uma trama intrigante, o longa-metragem se distingue de seus similares pela maneira contrastante de amor e violência com que aborda os fatos, o que, por sua vez, atinge os contemporâneos com tal força de entusiasmo que é quase impossível desprender a atenção para a vivacidade da atuação dos personagens, suas paixões, vitórias e sofrimentos. “Uma vigem maravilhosa à Inglaterra do século XVI”.

Inicialmente ambientado no palácio de Richmond (1509), o telespectador pode contemplar o jovem Henry Tudor, príncipe de Gales, dirigindo-se ao leito de morte de seu pai para lhe fazer uma última promessa: gerar um herdeiro para a Inglaterra. Quinze anos se passaram, o jovem príncipe era agora conhecido com Henry VIII, um dos reis mais bonitos da Europa, e casado com Catherine, princesa de Espanha, viúva de seu irmão, só que infelizmente não conseguira cumprir o juramento que prestara ao seu enfermo pai, até então. Enquanto isso, no castelo de Hever, residência da família Bolena, a jovem filha do patriarca, Ana, deleitava-se com o sonho de casar-se com o filho do maior dono de terras do país, Percy de Northumberland e ter um destino diferente do de sua irmã, tornando-se uma duquesa. E assim seria, mas não do jeito que ela imaginou.

Para o seu enfado, o Rei tomara-se de desejo pela sua figura na primeira vez em que a viu, não permitindo seu casamento com Percy. Deu-lhe um lugar de prestígio na corte e fazia de tudo para impressioná-la. Suas investidas, porém fracassadas. De repente, a peste assola a nação, com Ana e Henry sendo obrigados a se separarem. Em seu desespero, o rei mandou diversas cartas de amor para sua donzela. As respostas nem sempre eram encorajadoras. Vendo que não poderia mais escapar, Ana Bolena acolhe o amor do rei, mas com um preço: ser a sua esposa. Cego de desejo, Henry não vê outra solução a não ser o divórcio de Catherine. O país precisava de um sucessor ao trono ou tudo estaria perdido, já que a rainha não sangrava mais e os bastardos do rei não poderiam ascender ao poder.

O Cardeal Wolsey, não conseguindo atender aos desejos de seu senhor, caíra em desgraça devido à insistência de Ana Bolena, diante do decreto papal que validava o casamento com a filha dos reis católicos. A solução foi romper com Roma, criar uma igreja da Inglaterra e conquistar a autoridade necessária para conseguir o que queria. Pobre Henrique! Teve de ser excomungando para gerar um herdeiro. Mas a criança que a bela Ana Bolena carregava em seu ventre era uma menina e então ele percebeu que chegara o momento de enfrentar mais uma provação: arrumar uma nova rainha. Com Wolsey fora de jogo, ele fez de Cromwell o seu secretário, com o objetivo de arrumar provas contra sua nova esposa. A moça foi condenada e decapitada e Henrique então partira para mais uma etapa na empreitada de cumprir o desejo de seu pai.

O conjunto de atores que compõem o elenco não poderia ser melhor, tendo na pele de Henrique VIII, Ray Winstone, famoso por interpretar um dos cavaleiros do filme “Rei Arthur” (2004). A escolha dele foi simplesmente fabulosa, pois nunca um ator tão característico esteve à frente de um papel que exige certo esforço para dramatizar. Winstone corresponde a todas as semelhanças físicas do modelo original: cabelos ruivos, olhos e boca pequenos, o rosto redondo e, digamos, a corpulência e virilidade. Soube muito bem interpretar os momentos de felicidade do rei, assim como seus ataques de luxúria, tristeza e raiva. Não muito obstante ao seu desempenho, está Helena Bonham Carter, como a tentadora Ana Bolena. O mais interessante na presença de Helena é que ela não atente a todos os requisitos superficiais da segunda esposa, mas sua atuação foi uma das melhores já vistas, pois incorporou e transpareceu a mente sagaz da rainha Ana, sua língua ferina, seus desejos, ambições, desespero e acima de tudo, a dignidade da mulher. Catarina de Aragão foi interpretada por Assumpta Serna, que, assim como Carter, soube muito bem viver a rainha traída e seu destemor. Interessante também foi o seu inglês com forte sotaque espanhol que a verdadeira Catarina provavelmente também tinha. Afora o trio de atores principais, os demais dão conta do recado sem a menor dificuldade, como Charles Dance (Duque de Buckingham) e David Suchet (Cardeal Wolsey). Outros, como Mark Strong (Duque de Norfolk), apresenta-se muito mais jovens do que deveriam ser, mas sem dificultar a interpretação da trama.

Entretanto, divergindo com a criativa escolha do elenco, as roupas e acessórios do filme “Henry VIII” não se qualificam entre as mais notórias. Quem tiver a oportunidade de assistir sentirá falta dos capelos franceses usados por Ana Bolena e do mais importante: seu colar com o pingente “B” de “Bolena”. Além disso, tanto Ana quanto Catarina de Aragão aparecem de cabelos soltos e visíveis aos olhos dos demais cortesãos. Isso é um equívoco, uma vez que para a mulher era uma falta de vergonha expor um detalhe que deveria ser íntimo. Afinal, os cabelos eram um símbolo de sensualidade, utilizados para atiçar o desejo dos maridos. Os vestidos também não atendem aos pré-requisitos, pois àquela época as damas davam preferência a saias que alargavam os quadris, moldadas por anáguas que pendiam com bambolês ou osso de baleia na região dos pés (tudo feito para dar volume às peças) e nenhum dos vestidos de “Henry VIII” se enquadram nesse perfil. Quanto aos homens, seus trajes estão mais configurados à moda da era Elizabetana do que da Henriquina. A única exceção, talvez, sejam as roupas do próprio Henrique.

Aliado ao não tão promissor conjunto de peças do figurino, estão os erros de imprecisão histórica, que já se tornaram comum em filmes de gênero épico, com diretores alterando alguns acontecimentos verídicos para o enredo ficar mais atrativo aos olhos do grande público. Na primeira parte de “Henry VIII”, eles configuram à trama uma mescla de amor, ação e violência bastante instigadora. Entretanto, é sempre bom, e necessário, apontá-los para que o estudo visual do telespectador não fique prejudicado: o Duque Buckingham não organizou uma marcha para tomar a coroa e foi impedido em campo pelo rei. Na verdade, ele foi acusado apenas de conspirar contra a autoridade real e até hoje se põem em dúvida essa questão; Catarina de Aragão apresenta uma deformidade na pele dos ombros, observada por Henrique enquanto os dois se preparavam para fazer amor, mas não há qualquer registro de que a rainha sofria de tal incômodo; Thomas Bolena é retratado como Conde Essex, quando na verdade o condado que lhe foi entregue era o de Wiltshire; o romance entre Ana Bolena e Henry Percy não era algo público e os dois jamais pediram a benção do rei em seu matrimônio; a relação de Ana e Henrique não foi consumada apenas depois do casamento dos mesmos. É consenso entre os pesquisadores de que eles haviam se rendido aos desejos da carne enquanto estavam em Calais para firmar uma aliança com o rei Francisco I da França. Sendo assim, Ana já estaria grávida quando se casou; Elizabeth não visitou sua mãe na Torre de Londres momentos antes da execução desta. A jovem princesa estava sob os cuidados de Lady Bryan em sua casa em Hatfield.

Em meio aos erros historiográficos, seria lamentável não fazer uma referência às curiosidades que marcam o longa-metragem, que, se analisadas, tornam a obra ainda mais interessante. Como, por exemplo, o fato de que muitas das falas foram retiradas da biografia de Henrique VIII, escrita em atos, pelo poeta William Shakespeare. Os traços da obra se tornam evidentes nas seguintes cenas: quando Ana e Catarina se encontram momentos antes de o legado papal, em Blackfriars Hall, avaliar a validade do casamento com o rei; a defesa de Catarina, quando ela apela da decisão para o papa; e quando Ana é julgada por traição e adultério. Além disso, é interessante ressaltar que esse foi o primeiro papel de Ray Winstone em um drama épico. Destarte, o filme se enquadra perfeitamente aos gostos mais variados, principalmente pelas diversas abordagens que faz do mesmo assunto. Todavia, para aqueles que não curtem violência explícita, fica a advertência, já que esta também é uma produção que engloba crueldade e matança. Mas, se parar para analisar, todo o reinado de Henrique VIII esteve marcado por medo e mortes, ou seja, tanto na leitura quanto nas telas, o indivíduo terá que se deparar com situações como esta. É um excelente filme, feito com muito bom gosto e com o melhor da atuação hollywoodiana. Vale à pena conferir.

Artigo escrito por Renato Drummond.   

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6 comentários sobre “Filme Henry VIII (2003) – Parte I

    • É ótimo. Tão bom quanto The Other Boleyn Girl!
      Você e todos que assistirem vão adorar!
      Super recomendado!

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