Filme “Henry VIII” (2003) – Parte II

Continuação de “Henry VIII” (2003), o segundo e último capítulo da série produzida por Andy Harris apresenta-se tão contagiante quanto o primeiro, pela forma como a força e a veemência atuam brilhante e estrategicamente no desenrolar dos acontecimentos. Com personagens marcantes e um enredo desafiador, o longa-metragem consegue exercer um poder de atração sobre o espectador à medida que o dota de um novo olhar para a forma com a qual Henrique VIII conduziu seu reinado após o rompimento com Roma. Nesta segunda parte, não mais veremos um rei suscetível à influência de outros, mas um homem totalmente consciente de sua divindade, alguém que subverteu a ordem das coisas e que está pronto pra provar que é ele o verdadeiro dono de tudo e de todos. “A presença de Henrique nunca foi tão temida como antes”.

Partindo exatamente de onde o antecessor terminara (em 1536), o filme faz um breve anúncio do que acontecera após a morte de Ana Bolena: o rei escolhera Jane Seymour como sua nova rainha e legara a Thomas Cromwell poder suficiente para que este dissolvesse os monastérios e confiscasse todos os bens da igreja no país, espalhando assim uma verdadeira onda de terror, regada por assassinatos, por onde quer que seus enviados passem. Diante de tal crueldade, Robert Aske, um habitante das terras do norte, reúne um levante populacional para criar uma insurreição que retire o rei tirano do trono e restabeleça a Igreja Católica como a única e verdadeira fé local. Enquanto isso, a corte celebrava a beleza e bondade da nova consorte, que incitou seu marido a aceitar de volta sua filha mais velha e que tinha grandes probabilidades de gerar um herdeiro para o país, e assim aconteceria.

Jane Seymour deu a notícia da gravidez ao rei com entusiasmo e moderação. Este, por sua vez, reuniu-se com Aske para firmar um acordo de paz e dessa forma agradar a sua esposa. Mas Henry tinha outros planos, e ordenou que o líder dos revoltosos fosse capturado e torturado em praça pública par morrer lentamente. Assim que Jane soube do ocorrido, lançou-se contra seu marido que, mesmo ignorando o estágio avançado de sua gestação, agrediu-a. A rainha entrou nos trabalhos de parto imediatamente, devido ao impacto que sofrera. Para a alegria geral, a criança que carregava no ventre era um filho, porém, foi tomada pela doença logo em seguida e não resistiu. Sua morte despertou em Henry um sentimento de culpa que o perseguiu por dois longos anos. Após esse período, o monarca havia engordado como nunca e mal agüentava andar devido à perna machucada. Era preciso uma nova esposa, uma mulher que pudesse ajudá-lo a sair daquela depressão.

Thomas Cromwell foi de fundamental importância nesta tarefa, arrumando para o rei uma princesa estrangeira, Ana de Cleves, mas que não agradou aos seus olhos. Percebendo que este era o momento certo para fazer Cromwell cair, o duque de Norfolk foi atrás de uma de suas sobrinhas, a jovem Katherine Howard. Imediatamente, Henry sentiu-se encantado com a beleza daquela criança, mal sabendo que ela possuía uma reputação tão maculada quanto ele jamais imaginara. Ao tomar nota do comportamento e das traições de sua esposa, o rei mandou executá-la e ordenou a prisão do tio da mesma. Este foi o momento perfeito para que os irmãos Seymour arrumassem uma nova consorte para o rei: Catherine Parr, que viveu ao lado de seu marido até o dia em que a morte se aproximava, fazendo com que ele deixasse um último conselho para seu filho: não o de gerar um herdeiro, mas adquirir a sabedoria necessária para lidar com sua futura esposa.

Foi realmente interessante o desfecho do último capítulo do filme, pois o roteirista, Peter Morgan, criou no espectador a ilusão de que Henry faria seu filho com Jane Seymour, Edward, prometer o que outrora ele mesmo havia assegurado a seu pai, à beira da morte. Mas, seu exemplo de vida e os desvios que foi obrigado a cometer para cumprir esta missão o fizeram compreender, em seus últimos instantes, que não basta apenas ter um filho, mas é preciso também saber quem é a mulher ideal para se tê-lo. De acordo com o breve comentário sobre o futuro dos personagens feito ao final da trama, sem dúvida a pessoa certa para Henrique gerar um sucessor foi Ana Bolena, cuja filha, Elizabeth, subiu ao trono em 1558 e reinou por 45 anos.

Assim como na primeira parte, o elenco de atores que compõem o segundo capítulo da trama surpreende aos olhos daqueles mais céticos, pois além de Ray Winstone mais uma vez provando que capturou perfeitamente a essência de Henrique VIII nos últimos anos de vida, temos no papel de Robert Aske, o ator Sean Bean (o Boromir da trilogia, “O Senhor dos Anéis”). Sua performance magistral, em se tratando de filmes medievais onde quase sempre interpreta um guerreiro, intensificou o caráter conspiratório e violento do enredo. Aliado ao seu desempenho está Emily Blunt, famosa por seus trabalhos posteriores como “O Diabo veste Prada” (2006) e “A jovem Rainha Vitória” (2009). Ela incorporou sem problemas o cinismo de Katherine Howard, a maneira dual como ela agia na corte, ora uma jovem e piedosa donzela, ora uma mulher depravada sexualmente. Emilia Fox (Jane Seymour) e Clare Holman (Catherine Parr), também dramatizaram com classe e astúcia seus respectivos personagens, transparecendo com clareza o modo de agir, pensar e falar. Já outros como Ana de Cleves (interpretada por Pia Girard), quase passam despercebidos aos olhos do indivíduo.

O diretor da trama, Pete Travis, também não poupou criatividade para alterar a ordem dos acontecimentos reais nesta sequência de “Henry VIII”. Para quem já conhece a história, poderá não aceitar facilmente as interferências que Travis fez. Mas, em nome da arte, tudo pode sofrer mutação, ainda mais se o indivíduo quiser agradar aqueles menos informados. Eis os equívocos do filme que merecem esclarecimento: Jane Seymour não foi agredida fisicamente por seu marido quando estava grávida. Há registro apenas de que eles tenham tido uma simplória discussão e nada mais; Henrique jamais fez de Robert Aske seu amigo, mesmo que fosse puro fingimento; Thomas Cromwell não foi executado por um carrasco inexperiente e teve seu ombro estraçalhado antes de perder a cabeça. Na verdade, isso aconteceu com Margaret Pole, que não aparece na trama. Henrique não conheceu Katherine Howard depois de Thomas Cromwell morrer e sim enquanto ele encontrava-se em desgraça. Seu casamento com a mesma se deu justamente no dia da execução de seu ex-secretário; Lady Rochford não foi absolvida de sua pena. Ela perdeu a cabeça no mesmo dia que Katherine Howard; O Duque de Norfolk não foi preso em virtude do declínio de sua sobrinha e sim por acusação de traição anos mais tarde; Tanto Edward, quanto Catherine Parr não estava presente no leito de morte do rei.

Por ser uma série televisiva, de dois capítulos, “Henry VIII” não teve tanta atenção da crítica especializada como outros do mesmo gênero, mas recebeu alguns prêmios e nomeações que merecem destaque, principalmente para Helena Bonham Carter, que foi vencedora na categoria de melhor atriz por seu papel como Ana Bolena nas premiações: “Fantasporto” e “Zee Cine Awards”. Além dessas, o filme ganhou o “International Emmy” como Melhor filme de TV / Mini-série (também foi nomeado para outras duas premiações, mas não logrou êxito). Essa não tão grande popularidade pode ser explicada pelos empecilhos que Andy Harris encontrou para produzir este épico sobre a vida do rei Inglês, uma vez que a série foi anunciada em 2001 com Alan Bleasdale como roteirista, mas com um cachê consideravelmente baixo (750.000 libras por hora). Para que o projeto seguisse em frente, foi preciso recorrer à ajuda do capital de outras empresas, como a rede norte-americana CBS. No final, o orçamento para a produção já somava a quantia de 5,2 milhões de libras. Tudo parecia correr bem, até que a ITV, transmissora da série, interrompeu os trabalhos do roteirista, pois este tinha em mente um confronto de Henry com o diabo como cena de abertura. “Não estou pagando para ter o diabo na ITV”, teria dito Nick Elliott, diretor da empresa, a Bleasdale, que foi substituído por Peter Morgan, notório por ter escrito o drama “O Júri”.

Da mesma forma que no primeiro capítulo, o filme merece atenção, pois apesar dos erros de historicidade, de figurino e por não ser tão reconhecido pela crítica, ele faz um relato inacreditável do comportamento das pessoas que atuam na trama e a forma como elas moldaram suas vidas e desencadearam uma fase turbulenta na história inglesa. O espectador deixa-se facilmente levar pelos costumes da época, pela cordialidade com que os cortesãos se comportavam, sempre objetivando o favor do rei. Além do mais, as cenas de violência explícita são incríveis e o mais legal de “Henry VIII” e que nele elas não estão mascaradas. Para quem gosta de filmes assim, não pode deixar de conferi-lo. Outro ponto favorável é a figura da mulher, principalmente das seis esposas, que se apresentam na trama não como indivíduos distintos, mas como fases evolutivas da vida do rei Henrique: Catarina de Aragão, a velha mulher que não serve para dar um filho ao seu marido sedento de jovialidade; a tentadora Ana Bolena, que desperta em Henrique uma constância apaixonada, o apogeu de sua virilidade; Jane Seymour, a mulher querida e amada que fez do rei um homem mais fiel e de comportamento moderado; a desestimulante Ana de Cleves, que despertou no monarca obeso a necessidade de provar que ainda era um indivíduo sexual; a malvada Catarina Howard, que descobriu a impotência do marido e o traiu. Catherine Parr, a pessoa perfeita para cuidar de um homem velho e doente. São essas características que fazem de “Henry VIII” um filme excepcional, digno de admiração e prestígio e responsável por mostrar uma imagem compreensiva da atitude de Henrique, que acima de tudo, queria a tranquilidade de seu reino no cumprimento da promessa que fizera a seu pai, quando ainda era um menino, em 1509.

Artigo escrito por Renato Drummond.   

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9 comentários sobre “Filme “Henry VIII” (2003) – Parte II

    • Não foi lançada no Brasil. Se quiser o filme, só o terá baixando na internet ou comprando o DVD em algum site americano.

  1. Muito bem escrita a crítica, parabéns Renato pelo texto e Sora mais uma vez pelo site. Estou baixando a primeira parte, ansiosa pra assitir essa e já iniciar o download da segunda.

  2. Ora Luíza, muito obrigado pelo elogio. Agradeço a você e a todos que porventura vieram a gostar de minhas críticas de filmes, mas principalmente agradeço à Sora pela oportunidade que ela me dá de compartilhar minhas pesquisas com os leitores do Boullan! Abraço!

    • Eu é que me sinto extremamente feliz de você colaborar com meu site com resenhas tão boas! Espero que continue firme até o final, porque sabes que ainda temos muuuitos filmes para ver =D

  3. Pode ter certeza que, do que depender de mim, continuarei firme e forte na construção crítica dos filmes sobre esse período, que foi o mais intrigante da História européia. Levando, assim, os leitores a tomarem conhecimento do quão vasto é a produção cinematográfica acerca da Dinastia Tudor!

    Abraço!

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