Os Livros de Horas

Livro de Horas de Ana Bolena, Hever Castle.

No final da Idade Média manifestou-se a necessidade de um livro tornando acessível aos leigos certos elementos do breviário utilizado pelos padres. De acordo com este modelo litúrgico desenvolveu-se lentamente, durante o século XIV, um livro de devoções privadas.

Apesar das variações de formato e da abundância de ilustração, todos os Livros de Horas são concebidos segundo um mesmo esquema, que, no entanto, sofre exceções: começam com um calendário elaborado exclusivamente em função das festas religiosas. Seguem-se numerosas preces. Estas, compostas em grande parte de salmos, seguem o ritmo cotidiano — as matinas, laudas, prima, tércia, sexta e nona, as vésperas e as completas escalonam o dia.

O livro de horas foi o best seller da Idade Média, sendo que seu uso sempre ficou limitado à leitura privada, alheia às cerimônias públicas e coletivas. Todos tinham seu Livro de Horas, muitas vezes o único da estante. Mesmo os analfabetos, que decoravam suas orações. Modestos ou suntuosos, exerceram um papel de suma importância social, seja como cartilha para o aprendizado da leitura, seja como símbolo da riqueza de seus possuidores — podiam valer tanto quanto grandes propriedades.

Os livros de horas eram produzidos em vários tamanhos, mas normalmente ele era pequeno na altura e largura, não tão grande como um livro moderno. Eles eram grossos, já que grande parte das páginas era feita a partir de peles de animais. As capas eram feitas de tecido ricamente bordado com jóias caras e, ocasionalmente, tinha pequenas travas semelhante aos diários modernos, a fim de protegê-los e mantê-los fechados enquanto não estivessem em uso. Com a mudança de religião na Inglaterra, o livro de horas deixou de ser usado, mas ainda eram reconhecidos pelo seu valor como obra de arte.

Muitos livros de horas eram feitos para mulheres. Há evidências de que eles eram, por vezes, dado como presente de casamento de um marido para sua noiva. Eles frequentemente eram herdados, conforme registros de testamentos.

O livro de horas mais antigo foi escrito aparentemente para uma leiga, que vivia dentro ou perto de Oxford em cerca de 1240.

Raramente era incluído no livro orações compostas especificamente para os seus proprietários, mas muitas vezes os textos eram adaptados ao seus gostos ou sexo, ainda com a inclusão de seu nome nas orações. Alguns incluíam imagens de seus proprietários. Por volta do século 15, várias lojas de papelaria produziam livros de horas em massa, nos Países Baixos e na França. Até o final do século 15, o avanço da impressão fez com os livros ficassem cada vez mais acessíveis.

Depois de derrotar Ricardo III, Henrique VII deu o livro de horas de Ricardo para sua mãe, que foi modificado para incluir seu nome. As capas de alguns livros sobreviventes incluem notas de contabilidade familiar, registro de nascimento e óbitos, para que a família se lembrasse mais tarde. Alguns proprietários também coletavam autógrafos de visitantes notáveis de sua casa. Os livros de horas comumente era o único livro em casa, e era constantemente usado para ensinar as crianças a lerem, de modo que ás vezes os livros tinham o alfabeto incluso.

Três livros de horas de Ana Bolena sobrevivem até hoje. O mais velho dos três está em exposição no Castelo de Hever, e foi feito em Bruges em aproximadamente 1450. É nele que contém a inscrição “O tempo virá“. Ana escolheu escrever isso abaixo de uma imagem da Ressurreição dos Mortos.

No segundo livro, que também está em exposição no Castelo de Hever foi feito em Paris, em cerca de 1528. Nele, Ana escreveu:

“Lembre de mim quando você rezar,
essa esperança eu levo ao acaso, de dia para dia.
Ana Bolena”.

Ela escreveu isso abaixo de uma representação da coroação da Virgem. Pode-se imaginar que esta era uma referência ao seu desejo de ser rainha.

O terceiro livro de horas de Ana está em exposição na Biblioteca Britânica. Ela foi feita em torno do século 15 e 16, possivelmente em Bruges. Ao contrário do segundo livro, que era uma versão impressa, esse é um item de qualidade e contém cerca de 50 ilustrações. É um livro bem original, porque contém diálogos entre Henrique e Ana. O rei usou o livro para enviar mensagens românticas para sua amada. Acredita-se que as frases foram escritas logo após o nascimento da futura rainha Elizabeth, entre 1533-34*. Henrique escreveu em francês, abaixo de uma figura de Cristo com a coroa de espinhos, normalmente usada como símbolo da monarquia cristã:

“Se você se lembrar do meu amor em suas orações com a mesma devoção que eu amo você, dificilmente serei esquecido, pois eu sou teu.”

Ana escolheu responder abaixo da cena da Anunciação, onde o anjo diz que Maria daria a luz a uma filho em breve:

“Até o dia da provação você vai descobrir que eu sou amorosa e generosa com você”.

Também era muito comum damas andarem com os livros de oração pendurados nos espartilhos. Catarina Parr, sexta mulher de Henrique VIII, escreveu seu primeiro livro, Orações ou Meditações (Prayers or Meditations), e o publicou em 1545 em um formato pequeno especial, igual os dos livros de horas. O livro foi bastante lido e um grande sucesso de público, sendo o primeiro livro escrito e publicado por uma rainha inglesa. Seu segundo livro, A Lamentação de um Pecador (The Lamentation of a Sinner) foi publicado após a morte de Henrique VIII.

* Alguns, entretanto, acham que os diálogos foram escritos durante o tempo em que Henrique estava tentando obter o divórcio de Catarina.

Bibliografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘El libro de las horas de Enrique VIII y Ana Bolena‘. Acesso em 17 de Julho de 2011.
GRUENINGER, Natalie. ‘Anne Boleyn’s Books of Hours‘. Acesso em 17 de Julho de 2011.
As Riquíssimas Horas do Duque de Berry‘. Acesso em 17 de Julho de 2011.

Anúncios

9 comentários sobre “Os Livros de Horas

    • Provavelmente todas tiveram, pois os livros eram ‘herdados’ de rainha para rainha. Mas é pouco provável que elas andassem sempre com eles.

  1. Sora, esse link na parte que você fala do livro de Catarina Parr abre para uma foto de um livrinho pequeno e antigo, essa foto é de um livro aleatório ou é a foto realmente do livro da rainha?

  2. Estou realmente encantada com todas estas riquíssimas e magníficas imformações sobre ‘OS LIVROS DE HORAS’……e fiquei muito atenta aos detalhes das ilustrações dos meses do ano, e principalmente as do zoodiaco na parte superior, o que já era um grande tema da Idade Média, e o quanto eles estavam atentos a este tema. Foi ao consultar as fontes do Escritorio do Livro, que me detive a está fabulosa coleção do ‘Livro de Horas’ do Duque de Berry…..é maravilhoso ter acesso a estes conhecimentos, sou grata…!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s