O nascimento da princesa Elizabeth [1º Parte]

 Elizabeth, atribuído a William Scrots, cerca de 1546-1547.No início de agosto de 1533, Ana Bolena começou a fazer os preparativos para o nascimento de seu bebê no Palácio de Greenwich, a residência favorita do rei e o lugar onde ele nasceu. Ana exigiu que Catarina de Aragão lhe enviasse a camisola de batismo de Maria, mas alguns dias depois chegou uma carta furiosa de Catarina, recusando-se a ceder a camisola, pois esta era sua propriedade que havia vindo junto com ela da Espanha.

Não havia dúvidas que o filho de Henrique e Ana seria do sexo masculino. Ninguém disse o contrário. Todos os astrólogos e médicos previram isso. Em 3 de setembro, ambos os profissionais da área se reuniram para dizer ao rei que a rainha daria à luz ao ansioso herdeiro.

Henrique planejou banquetes, justas e bailes para comemorar o nascimento iminente de seu filho. O rei continuava tendo dúvidas sobre o nome de seu filho, ainda não sabendo se o batizava de Eduardo ou Henrique.

Para ter um novo filho, foi comprado uma “das camas mais magníficas e esplêndidas que você poderia imaginar“, vinda da França, como parte do resgate de um nobre capturado em 1515, conhecido como Duque de Longueville. No quarto, Ana ficava ao lado de um cama de dossel carmesim que ficaria o seu bebê. Na sala de audiências, foi construído um canteiro cerimonial onde as pessoas esperariam para ouvir as boas novas.

Fogueiras tinham sido armadas através de toda a Inglaterra, esperando pela tocha que iria acendê-las quando viesse a notícia do nascimento de um herdeiro para o trono. Os canhões da Torre estavam prontos para disparar a salva que contaria às multidões que o rei, finalmente, tivera um filho.

Segundo a tradição que prevaleceu na realeza, Ana retirou-se para sua câmara para esperar o nascimento de seu bebê. A cerimônia que antecedeu esse evento foi de grande importância, embora tenha tido uma mudança na rainha.

A data escolhida para a “retirada” foi 26 de agosto, ou seja, duas semanas antes do nascimento. Primeiramente, a rainha e seu séquio foram para a missa na capela real. Em seguida, foram para seu quarto, onde  Ana bebeu um copo de vinho com especiarias antes de comer com todas as pessoas. Lord Chamberlain pediu a todos presentes para orar para que Deus desse um bom parto sem problemas. Outra procissão acompanhou Ana até a porta de sua câmara. Tinha um limite, onde os homens se retiravam, dando lugar apenas para as senhoras.

Parte das damas de honra eram membros da família de Ana Bolena, entre elas sua irmã Maria Bolena, suas primas Maria Howard e Madge Shelton, e sua tia Isabel, esposa de James Bolena. Também estavam lá as sobrinhas do rei, Douglas Margareth, filha de Margareth da Escócia, Elizabeth, Condessa de Worcester e sua sucessora na cama real, Jane Seymour, que já havia servido à Catarina de Aragão. Margareth Lee, irmã de Thomas Wyatt, também estava lá.

Nota-se que a quantidade de tempo de espera para os partos das rainhas eram variáveis, uma vez que a data da chegada dos bebês não era muito confiável. Elizabeth de York, em 1503, por exemplo, só se retirou uma semana antes do nascimento de seu filho.

Mountjoy, um veterano de confinamentos da rainha Catarina, aconselhou Lord Cobham, camareiro da rainha Ana, o procedimento correto. As últimas regras foram criadas por Margareth Beaufort, a mãe de Henrique VII, mas as cerimônias eram bastante antigas. “Todas as janelas, exceto uma, eram cobertas com tapeçarias ricamente bordadas“. A rainha podia pedir que suas damas abrissem as janelas de tempos em tempos para entrar um pouco de luz e ar, mas isso era uma conduta desencorajada. Além disso, “nenhum homem deverá entrar na câmara“. Como dito pelo historiador David Starkey, a câmara da rainha parecia mais um “cruzamento entre uma capela e uma cela acolchoada”.

As tapeçarias também tinham suas restrições. Curiosamente, aquelas que tinham pessoas e animais eram descartados. Eles temiam que essas imagens pudessem criar alucinações ou fantasias na mente da rainha, resultando numa criança deformada.

Ana Bolena tinha preparado com antecedência uma carta anunciando o nascimento de seu filho para ser enviado aos municípios ingleses e cortes estrangeiras. De acordo com o costume da época, essa era uma tradição para as rainhas. Esse documento, endereçado ao seu camareiro, Cobhan, estava escrito:

“E onde têm agradado a bondade de Deus Todo-Poderoso, em Sua infinita misericórdia e graça, para enviarmos, neste momento, com grande rapidez no momento do parto e do nascimento de um príncipe” […]

Ela terminava num estilo similar: “Deus Todo-Poderoso, muito obrigada, louvor e glória, rezo para uma boa saúde, prosperidade e preservação permanente do príncipe”. Ela era selada com um carimbo com o nome de ‘Ana, a Rainha”.

Carta anunciando o nascimento do herdeiro do trono.

Na carta que anunciava a boa notícia tinha um pequeno espaço para escreverem o nome, a data e a hora do nascimento. No entanto, em vez de um herdeiro do sexo masculino, a rainha deu à luz a uma menina às 15hs00min em 7 de setembro de 1533. O nascimento de Elizabeth não foi fácil. Era o primeiro bebê de Ana, e o trabalho de parto, segundo o mais antigo biógrafo de Ana, foi particularmente doloroso. Mas a mãe e a filha estavam bem. A menina tinha pele perfeita, longo nariz branco e profundos olhos escuros da mãe.

O rei não podia deixar de demonstrar o seu desagrado, porque a notícia fora uma grande decepção para ele. Suas esperanças foram frustradas.  A criança foi nomeada Elizabeth, aparentemente em homenagem a uma ou ambas das mães dos pais, Elizabeth Howard, mãe de Ana, e Elizabeth de York, mãe de Henrique.

As cartas com a comunicação do nascimento de um príncipe foram corrigidas para uma princesa, para comunicar ao rei da França, e ao Imperador da Espanha que o rei da Inglaterra tinha mais uma filha. O quadro vivo e o torneio de justa organizados para comemorar o nascimento de um filho foram cancelados, embora o elaborado batismo e crisma prosseguissem como planejado para três dias depois.

Bibliografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘El Nacimiento de la Reina Elizabeth Tudor: 1ª Parte‘. Acess: 4 de agos de 2011.
ABBOT, KATELYN. ‘Oncoming Birth of Princess Elizabeth Tudor‘. Acess: 08 de agos de 2013.
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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10 comentários sobre “O nascimento da princesa Elizabeth [1º Parte]

  1. Caramba a rainha tinha preparado até a carta!! Deve ter sido… chocante!! Espero ansiosmente pela parte II

  2. Nossa, imagino como a Ana ficou, vendo a cara do rei quando foi dito que ela teve menina, quando na verdade era pra ser menino. Mas tenho certeza que ela amava a filha…

  3. Podre Ana…
    Mas queria que Henrique tivesse visto Elizabeth governar a Inglaterra.Ele não tinha tanto medo de morrer sem herdeiro varão para continuar sua linhagem?
    Ana Bolena morreu por algo injusto,não falo das acsações de traição,mas sim de não dar ao rei um herdeiro que continuasse a dinastia Tudor.

  4. Grande foi a descepção do rei ao ver que não era um principe, mas sim uma princesa que tinha nascido…….mas sem sombra de dúvida foi Elizebeth quem realizou o sonho de seu pai, independente da questão de genero, foi na época o maior governante que a Inglaterra teve. Penso também que Elizabeth trazia inconscientemente consigo o desejo de Ana e Enrique quase como um oráculo, e assim foi cumprido.

  5. Minha solidariedade para com a Rainha Ana… eu não queria estar no lugar dela =/ ~ mas no fundo ela conseguiu algo que as demais nem chegaram perto =)

  6. Aqui se faz, aqui se paga, Ana Bolena por ter destruido um casamento, recebeu uma menina mas em compensação e para dar uma lição ao orgulho machista de Henrique, foi essa menina que governou e prosperou na Inglaterra por anos! Eu falo que Elizabeth é o fruto perfeito do amor (eu acredito que havia amor sim) entre Henrique e Ana Bolena!

  7. No final das contas ela deu a Inglaterra a sua melhor rainha – Pra quem foi declarada posteriormente bastarda, ela superou e muito sua irma Mary em atitudes e articulacoes politicas…

  8. Deus escreve certo por linhas tortas! Adoro a monarca Elizabeth I, acredito que sua irmã Maria I foi uma boa governante também, mas sua imagem foi enegrecida pela propaganda protestante e pela execução da Rainha de Nove Dias, quanto ao jovem Eduardo, sem dúvidas ele também teria sido um grande rei, se o seu tempo não tivesse sido curto.

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