O nascimento da princesa Elizabeth [2º e última Parte]

‘A amante do rei deu à luz a uma menina, para grande decepção e pesar dele, da própria dama e de outros de seu grupo, e para grande vergonha e confusão de médicos, astrólogos, feiticeiros e bruxas, todos os quais afirmaram que seria um menino’, escreveu o Embaixador Chapuys a Carlos V.

Os imperialistas se alegraram com a decepção de toda a nação, no entanto, ninguém sentiu tanta tristeza quanto Henrique ao ver seus planos se desfazendo.O embaixador Chapuys comentou: “Deus se esqueceu dele”. Mas apesar da decepção inicial de Henrique, ele esperava que em breve sua mulher lhe daria filhos saudáveis. Uma nova lei declarou o casamento de Henrique e Catarina sem efeito jurídico e dissolvido.Também declarou que o casamento de Henrique e Ana ‘deve ser confirmado e tomado como induvidoso, legítimo, sincero e perfeito daqui por diante… E também fica decretado pela autoridade supracitada que a prole presente ou futura entre sua Alteza Real e a sua querida e amada esposa, Rainha Ana, será nossa legítima herdeira’. 

Ana salientou as circunstâncias fortuitas do nascimento do bebê para tentar dar alguma justificação divina para o sexo do bebê. Elizabeth  nascera na véspera do dia santo da própria Virgem Maria, e num aposento com tapeçarias que descreviam as histórias das virgens santas. Também fora criada sabendo que Santa Ana, em homenagem à qual recebera o nome, era mãe da própria Virgem.  Ana Bolena abriu seu coração para Henrique e disse a ele toda a amargura provocada por essa decepção, e Henrique a abraçou dizendo: “Preferia mendigar de porta em porta antes de te deixar”.

Em 10 de setembro, quando Elizabeth tinha 3 dias, foi batizada esplendidamente na Igreja dos Frades Menores, em Greenwich. A cerimônia foi magnífica. A igreja estava toda enfeitada com esplêndidas tapeçarias; a fonte batismal era de prata, coberta com um dossel de cetim vermelho, franjado de ouro. Elizabeth a estava vestindo um casaco de veludo roxo forrado de arminho, com uma longa cauda, e foi levada em procissão pela igreja.Suposto vestido usado por Elizabeth durante sua cerimônia de batismo.

A Duquesa Viúva de Norfolk levava a princesa infanta, enquanto o Conde de Essex carregava a bacia de ouro, o Marques de Exeter o círio de cêra virgem, e o Marquês de Dorsert o sal. O avô da criança, Wiltshire, e seu filho Rochford, e seu tio-avô Norfolk, estavam entre os nobres que caminharam em procissão, sendo o Arcebispo da Cantuária o padrinho, do mesmo jeito que o Cardeal Wolsey havia sido de Maria Tudor. A madrinha de batismo foi a matriarca da família Howard, Agnes, viúva Duquesa de Norfolk. Gertrude, Marquesa de Exeter, fiel amiga da rainha Catarina, foi forçada a ser madrinha e dar à princesa três tigelas de ouro e prata. John Stokesley, Bispo de Londres, disse: “Que Deus, em Sua infinita bondade, dê longa vida próspera a Sua Alteza, a Princesa da Inglaterra!”.

O bispo de Londres, assistido por quatro abades, batizou a criança com o nome de Elizabeth, que após a cerimônia foi levada para a câmara da Rainha, onde recebeu as bênçãos de sua mãe que, por tradição, ficava em isolamento até ‘que lhe fosse concedido o serviço religioso de ação de graças’. Como era parte da tradição, Henrique VIII não estava presente, mas ordenou que Norfolk e Suffolk dessem graças ao Senhor. Para alegria do povo, o caso foi tão notório que fogueiras foram acesas e foram feitas várias fontes de vinho na cidade.

Com o nascimento da princesa Elizabeth, Maria, a única filha sobrevivente de Catarina de Aragão, em 01 de outubro de 1533 foi oficialmente destituída de seu título e considerada bastarda. A partir daí, seria conhecida como “Lady Maria”. Em novembro do mesmo ano, Maria foi destituída de seu próprio lar e enviada para tornar-se dama de companhia da nova herdeira. A mansão da qual recebera ordem de sair fora concedida ao irmão da rainha, George, e a nova governanta a quem fora submetida, Lady Anne Shelton, era tia da nova rainha.

Naquela época, Elizabeth era a única filha legítima e herdeira de Henrique, um lugar que ocupou até vir ao mundo um príncipe desejado. Portanto, ela deveria ser tratada com todo o respeito que seu posto merecia.

Lady Maria

Em dezembro, quando ela tinha três meses de idade, Princesa Elizabeth foi designada para ir para sua própria residência e enviado para viver em Hatfield, Hertfordshire. Lady Bryan foi nomeada governante para a criança, cargo que ocupou também na casa de Lady Maria. Lady Margareth Douglas, também uma ex-membro da casa de Maria, foi a primeira dama de honra, enquanto Blanche Parry estaria ao seu lado por cinquenta e sete anos como sua assistente pessoal e confidente. O rei e a rainha foram pais distantes, e Senhora Bryan informava a rainha sobre a evolução da criança.

Pouco se sabe sobre a relação de Ana com sua filha. Sem dúvida, a rainha não ligava para o bebê no sentido moderno, pois pensava-se que era essencial para o posto de princesa que ela tivesse sua própria casa. Isso não significava que você não deveria amar sua filha, um pouco de vida familiar não necessariamente excluía a afeição materna. Há história comoventes de um período mais difícil de vida da Rainha Ana, quando, por exemplo, foi vista pedindo Elizabeth a Henrique em tom de súplica. Também tem-se provas de que Ana frequentemente visitava a mansão de Elizabeth e comprava tecidos caros para fazer suas roupas.

Ana e Henrique VIII.

Em suma, a ascensão de Ana foi rápida e furiosa, 12 meses foram o suficiente para ela ser tida como Marquesa de Pembroke, depois esposa do Rei, pouco depois Rainha. O nascimento de Elizabeth, sem dúvida, enfraqueceu a posição de Ana aos olhos da corte inglesa e as nações estrangeiras. Nela foram frustradas todas as esperanças de ter um herdeiro masculino saudável, o próximo monarca da grande dinastia Tudor. A filha, entretanto, ainda havia muito a realizar.

Em 7 de setembro de 1533, quando Henrique teve uma filha com Ana, tudo mudou drasticamente. Mesmo parte da corte tendo apoiado incondicionalmente a rainha Catarina e sua filha Maria, tiveram de reconhecer a hegemonia do poder de Ana Bolena.

A chegada de Elizabeth reavivou novamente a instabilidade da casa Tudor. Ana e sua barriga eram os únicos que podiam trazer paz de volta na Inglaterra, e por sua vez, Ana deveria lutar diariamente contra seus inimigos, a hostilidade das cortes estrangeiras e, é claro, a ira do Rei.

Bibliografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘El Nacimiento de la Reina Elizabeth Tudor: 2ª y Última Parte‘. Acess: 4 de agos de 2011.
ANTHONY, Evelyn. Ana Bolena. Tradução de Nair Lacerda. São Paulo: Editora Cultrix, 1961.
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

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18 comentários sobre “O nascimento da princesa Elizabeth [2º e última Parte]

  1. A história de Ana Bolena e Elizabeth, me lembra um velho ditado; “Que deus escreve torto por linhas retas”. Quem diria que seria Elizabeth que permaneceria fiel ao desejo de seu pai Henrique, governando a Inglaterra como uma Tudor por quase quarenta anos. É magnifico ver como esta história se desenlaçou.

      • Nossa, então a Ana não era pouca coisa. Pelo meu pouco conhecimento sobre essa época, os Howards surgiram junto, ou um pouco depois, da dinastia Plantageneta. Ana era de uma nobreza quatrocentona he he…

        • Todas as esposas de Henrique vieram de famílias importantes, não é como se ele tivesse se casado com simples mulheres inglesas. Obviamente, Catarina de Aragão era a que tinha sangue real mais “puro”, uma vez que seus pais eram reis, mas todas as esposas de Henrique VIII tinham algum resquício de sangue real. Sobre Ana Bolena, além de vir das famílias Howard e Bolena, que por sua vez eram descendentes da família real (com exceção dos Bolena, eu acho), Ana também foi feita Marquesa em 1532.

            • De onde você tirou essa informação Fernanda? Catarina Howard era filha legítima de Lorde Edmund Howard e Joyce Culpepper. Thomas Howard, 3º Duque de Suffolk, era irmão de Edmund, e tio de Catarina Howard (e de Ana Bolena).

  2. Eu sempre vi Ana como o verdadeiro amor do Hnerique. Não que ele não tenha amado suas outras esposas, mas foi por ela que o sentimento foi mais forte. Por ela mudou o reino, enfrentou o Papa, inventou uma nova igreja. O que ele fez pelas outras foi mais por já saber que podia tudo e não se importar muito com as consequencias, afinal, era o rei. Mas com Ana o buraco foi mais embaixo…

    • Faz sentido. Acho que ele nunca amou Catarina de Aragão. Ele sempre teve ciumes de Arthur e queria ter tudo o que o irmão mais velho tinha. Acho que era mais paixonite que outra coisa. Realmente, foi com Ana que ele se encontrou, mas ai a pergunta: por que ele a matou? E o que será que sentiu dps disso?

      • Acredito que ele tenha resolvido matar Ana, primeiro pelos supostos problemas emocionais e mentais que ele sofreria devido ao acidente na justa. Depois pela pressão social que ele deveria enfrentar para ter um herdeiro, depois de ter movido céus e terras, para obter o casamento com Ana. Creio que o sinal deve ter sido o aborto. Ele deve ter tido medo de Ana se tornar uma nova Catarina de Aragão.

        • Faiza, acho muito estranho dizer que Henrique “resolveu” matar Ana, uma vez que não foi ele que pegou a espada e decepou a cabeça dela num dia qualquer. O fato é que houve um processo, um julgamento, e há vários motivos que contribuíram para Henrique querer se divorciar de Ana, além do problema do herdeiro. Além disso, é muito fácil colocar todos os problemas em Henrique, pois a própria Ana era uma esposa problemática. Eu li em algum lugar que Ana era o tipo de mulher para se cortejar, mas não para se ter como esposa.

          • ele poderia simplesmente ter se divorciado e exilado Ana, como fez com Cataria, mas por que colocá-la na posição de bruxa, incestuosa, traidora e condená-la á morte?Isso me parece muito estranho e injusto. Sei lá, será que havia mais caroço no meio desse angu e a história não revelou ainda?

            No caso da justa, acho que ele ficou mal, por que ficou desacordado, mas não sou especialista para dizer se realmente ter ficado horas desmaiado possa ter afetado o cérebro!

            Sobre a úlcera dele, já li em alguns lugares que ela não cicatrizava por causa do diabetes dele, é verdade?

            • Ana tinha uma personalidade forte, não era do tipo que fazia vista grossa pras puladinhas de cerca dele. Eles brigavam muito e isso, aliado com a propria doença dele, além do ego enorme, ajudaram a desgastar o relacionamento. Os abortos dela foram, ao meu ver, as desculpas perfeitas pra que ele questionasse a validade do casamento, mas não foram o motivo principal dele querer o divorcio ou anulação do casamento.

              • Então, é impossível dizer as doenças que Henrique tinha porque nunca houve uma exumação do corpo dele. Há quem diga que ele tinha diabetes, sífilis e outras doenças. Eu também não acredito que ficar desacordado possa ter danificado seu cérebro, mas a queda de um cavalo usando uma armadura de aço em cima dele com certeza deve tê-lo afetado de alguma forma. Então, na verdade, Ana não foi acusada de bruxaria, isso é algo a se sublinhar. Henrique não poderia se separar de Ana porque isso criaria uma situação idêntica com a de Catarina de Aragão, tornando seus casamentos posteriores ilegais de acordo com a lei inglesa. Além disso, nessa época Catarina ainda estava viva, então haveria uma pressão enorme para ele voltar para ela.

                Acho que talvez vocês possam se interessar por esse artigo, que trata de todas as questões e possibilidades referentes ao por quê Ana foi executada: http://www.boullan.wordpress.com/2014/05/19/um-estudo-da-queda-por-que-ana-bolena-foi-executada/

  3. Tem uma história de que numa disputa ele caiu do cavalo e a lança de madeira entrou em sua cabeça ( atingindo o cérebro, na parte responsável pela personalidade), a partir daí ele começou a mudar, ficou mais agressivo e inconstante. Pode ser daí que vem os problemas em lidar com as esposas.

    • Melissa, realmente há várias teorias que seu comportamento mudou por causa do acidente na justa que aconteceu em Janeiro de 1536, mas o fato é que não teve nada a ver com madeira entrando nele: ele e o cavalo estavam com armaduras, ambos caíram durante a corrida, mas o cavalo caiu em cima dele, deixando-o desacordado durante algumas horas. Mas na minha opinião o que contribuiu mais para o seu comportamento foi a úlcera na perna, que não deixava com que ele pudesse fazer exercícios e nem andar direito, além do cheiro horrível e os tratamentos horrorosos que ele tinha que sofrer (uma linhas de ouro puxavam cada uma um pedaço de pele, deixando a ferida aberta, onde eram introduzidas sanguessugas).

  4. Bom, eu não li o artigo mas no livro as seis mulheres de henrique III diz que um dos motivos para Ana ter sido executada foi para que o proximo Casamento e filhos do rei fossem considerados legítimos, a aquela altura Catarina já tinha morrido a com a execução da Ana também ele ficaria livre para se casar e gerar herdeiros legítimos.

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