Henrique VIII: Um tirano ou um incompreendido?

Henrique VIII, em 1520. Artista desconhecido. Henrique VIII tem sido considerado pela história como um personagem fascinante, de personalidade forte e extravagante, um monstro e um tirano. Apesar de ter feito coisas boas em seu reinado, o jovem rei demonstrou pouco interesse em governar nas primeiras décadas de seu reinado, deixando tudo para seus conselheiros enquanto caçava ou cavalgava. Depois de casar-se com Ana Bolena, não havia nada nem ninguém para contê-lo. Henrique dilapidou o tesouro nacional em guerras infrutíferas e foi constantemente iludido e enganado pelos outros reis da Europa. Henrique queria o poder absoluto a qualquer custo e usou de muita brutalidade para conseguir esse poder. Antes de darmos a Henrique o rótulo de um tirano, vamos definir o que é um.

Em seu livro “1536: The Year that Changed Henry VIII”, Suzannah Lipscomb cita um italiano não identificado que, após a morte de Henrique VIII em 1547, chamou o rei de “O maior tirano que já esteve na Inglaterra” e, em seguida, o define:

“O símbolo principal de um tirano é a satisfação de um apetite exageradamente ilegal, quando a pessoa, seja por meios certos ou errados, tem o poder para realizar sua vontade”.

Lipscomb também dá uma definição moderna de tirano:

“Um governante que exerce seu poder arbitrário além do escopo permitido pelas leis, costumes e padrões de sua época e da sociedade, e que o faz com o objetivo de manter ou aumentar esse poder”.

Sir Walter Raleigh, escritor e poeta britânico disse: ‘Se todos os desenhos e pinturas de príncipes impiedosos desaparecessem do mundo, eles poderiam ser fielmente retratados por meio da história deste rei’.

‘[Ele é] o pior amigo para se ter no mundo – ora instável, ora obstinado e orgulhoso.. o homem mais estranho do mundo’.

As execuções de Thomas More, Anne Askew e Margaret Pole são as três figuras principais para motrar Henrique VIII como tirano. More foi condenado à morte por rejeitar o novo título de Henrique VIII, Chefe Supremo; Askew, mesmo sendo amiga de sua mulher, Catarina Parr, foi torturada e depois queimada na fogueira; Pole, com 67 anos, foi condenada por traição simplesmente por ter sangue Plantageneta.

Henrique VIII voltou-se contra aqueles que um dia amou e mostrou seu favor, como Thomas More, bispo Fisher, Thomas Cromwell, Ana Bolena, Catarina Howard, isso só para citar alguns.Relatos de embaixadores revelam que Henrique atacava seus conselheiros, chegando a bater na cabeça de Cromwell. O aumento de execuções sem julgamento aumentaram: THomas Cromwell e Catarina Howard não tiveram julgamento, embora Ana BOlena, assim como seu irmão, tiveram julgamento, ele é popularmente considerado como um julgamento comprado. Lipscomb escreve: “A incidência e as circunstâncias de execuções antes e depois de 1536, especialmente a tendência do processo não ter um julgamento comum, fornece evidências que Henrique estava cada vez mais temperamental e selvagem”.

A dissolução dos monastérios é usada para mostrar sua corrupção.  Henrique VIII, por Joos van Cleve, em 1535.Pode-se argumentar que Henrique VIII estava tentando acabar com a corrupção na Igreja, mas ao invés de gastar o dinheiro na dissolução em boas causas – escolas, hospitais, universidades, asilos, etc – todo o dinheiro foi para o cofre real.

A sua crueldade é geralmente retratada quanto a seu comportamento a Catarina de Aragão e Maria Tudor: após a separação da Igreja Católica Romana, Catarina foi despojada de seu título de Rainha e terminou seus dias numa pobreza relativa. Maria foi despojada de seu título e proibida de ver a mãe, além de ter sido obrigada a cuidar de sua meia-irmã Elizabeth.

A obsessão de Henrique VIII em ter um filho do sexo masculino, que, entre outros motivos, o levou a ter tantas esposas, é justificado. Estava enraizado no rei e em todos na Inglaterra a consequência de um rei sem herdeiro: guerras civis. Nas palavras de Henrique VIII para Francisco I em 1535, o rei tinha que ter um filho homem ‘para o calmo repouso e a tranquilidade do nosso reino’. Henrique VIII também não foi o único: homens nobres e outros mais abaixo, proprietários e empregados, queriam filhos para continuar sua verdadeira linhagem. Nessa época, Henrique já tinha duas filhas e, apesar de não existir nenhuma lei impedindo que uma mulher reinasse, havia três séculos que isso não acontecia e um forte preconceito existia contra essa eventualidade. O rei, assim como a maioria esmagadora da população pensavam que, assim que o cetro caísse nas mãos de uma mulher ‘rebentariam tumultos revolucionários’.

Henrique VIII fez o necessário em seu reinado. No prólogo de seu livro, Lipscomb escreve: “A prevalência da crença religiosa significava que o crime era concebido como uma evidência do pecado. Como castigo, ele tinha de ser doloroso e espetacular para persuadir os outros a limpar a sociedade do pecado e da desordem”. Logo, se pode argumentar que suas ações, por mais brutais que fossem, eram necessárias para o bem do reino. Além disso, o povo não o via como um tirano. Mesmo no final da década de 1530, seus contemporâneos o descria como “um nobre talentoso, gentil, brilhante e corajoso”. No reinado de Elizabeth, ela se denominava “filhote do leão”, pois ele tinha sido um rei popular e bem-amado.

Além disso, a transformação de um jovem bom em um velho tirano é errônea. : JJ Scarisbrick diz: “Henrique não foi notavelmente mais cruel do que tinha sido antes”. A idéia é que sua tirania não surgiu do nada, ele sempre a teve consigo. Sobre as punições e execuções, é fácil o motivo: Henrique VIII somente respondeu às ameaças. “Ele ficou convencido da legalidade, sabedoria e benevolência de suas ações”.”Pela própria estimativa de Henrique, ele estava fazendo o que um bom rei faz – era apenas seus súditos rebeldes que o estavam desviando do caminho ortodoxo e adequado”.

O reinado de Henrique VIII se distinguiu sobretudo pelo esplendor sem precedentes que caracterizou a corte inglesa. Ele foi, antes de tudo, um construtor de primeira ordem. Henrique sempre foi preocupado com á encenação de seu poder e encomendava inúmeros quadros estampando sua figura com majestade. Seu reinado não foi crucial somente no plano religioso.

‘Qualquer que seja o ângulo pelo qual se olhe o soberano inglês e seu reinado, a personalidade do monarca sempre aparece como aquilo que explica tanto o alcance das agitações que sacudiram a Inglaterra na primeira metade do século XVI quanto a frequente impressão de inconsequência e produção de escombros, suscitada por sua figura. A personalidade excepcional de Henrique VIII e a desmedida do personagem explicam que os anos de seu reinado tenham correspondido ao apogeu da monarquia pessoal na Inglaterra.’

É preciso termos em mente que Henrique agiu de acordo ao contexto que vivia. Ele cresceu num mundo marcado por ódio, traição e intriga. Por quase 50 anos, a rivalidade das casas de York e Lancaster contribuíram para a Guerra das Rosas, que culminou na criação da Dinastia Tudor. O homem que o Papa alcunhou de ‘Filho da Perdição e de Satã’. pode ser visto hoje como um tirano pelos padrões atuais, mas ele estava simplesmente tetando ser um monarca bem-sucedido e fazendo o necessário para manter a paz.

JJ Scarisbrick conclui em seu livro Henrique VIII:

“Henrique era uma figura enorme, pomposa e majestosa. Pelo menos para alguns, ele era tudo o que um povo poderia desejar que ele fosse – um rei patriota e confiante que foi mestre de seu reino e não tinha medo. Até o final de seu longo reinado, apesar de tudo ele foi, indiscutivelmente, reverenciado e, de forma estranha, até querido. Ele levou a monarquia a quase idolatria. Ele tinha se tornado um foco de orgulho nacional, e nada mais seria o mesmo depois que ele partiu.

No entanto, para todo o seu poder deslumbrante, charme e cordialidade, as quais ele poderia sem dúvida mostras às vezes, para toda a afeição que ele poderia dar e receber, é difícil pensar em qualquer ato verdadeiramente generoso ou desinteressado realizado por ele e é difícil não supor que mesmo aqueles que se agraciaram de sua estima, aparentemente segura, como Jane Seymour ou Thomas Cranmer, não poderiam ter sido colocados de lado, se tivesse sido conveniente fazê-lo,, juntamente com os muitos outros que tiveram sua vida entrelaçada em torno dele, e que lhe deram tanto  e ainda sim foram postos de lado.”

Bibliografia:
DWYER, Frank. ‘Henrique VIII’. Tradução de Edi G. de Oliveira. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
MICHON, Cédric. Um rei sem medidas. História Viva. São Paulo, Ano IX, nº 110, pág. 32,33.

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14 comentários sobre “Henrique VIII: Um tirano ou um incompreendido?

  1. Parabéns!!! Parabéns!!! Parabéns!!!!

    Nunca, dentre os textos que li sobre Henrique VIII, encontrei informações dispostas de uma maneira tão lógica, sintética, humana e acima de tudo imparcial, sobre a personalidade de Henrique VIII, como neste post.

    Pela tamanha admiração pelo trabalho deste site e por conhecimento de causa também, permito-me assim evidenciar que a base de dados disposta neste portal, trata-se da mais rica fonte de informação da era Tudor, especialmente do reinado de Henrique VIII, em língua portuguesa.

    E é com profundo sentimento de admiração, que deixo minhas saudações ao autor que realiza essas compilações, reiterando minha estima pelo trabalho.

    Cordialmente,

    Henrique Trevisan

    • Muito obrigada pelos elogios! Não é sem esforço que estou tentando fazer esse o melhor site sobre a Era Tudor em português, e me sinto muito contente quando vejo que alguém está se deleitando com as informaçõe tanto quanto eu estava quanto as li pela primeira vez.

  2. Sempre que leio algum artigo do site tenho a mesma satisfação que o Henrique, do comentário acima. Sem dúvida, esse site já é e continua caminhando para ser referência sobre a Era Tudor no Brasil.
    Parabéns Sora!

  3. Eu concordo com todos. Esse site é mais que perfeito. Parabéns mesmo. Vc ja pensou em escrever um livro sobre Ana Bolena no futuro? Seria muito bom.

    Beijinhos da Patty!

    • Muito obrigada!

      Eu penso em escrever um livro sobre a Era Tudor (como se fosse um livro de curiosidades da época), Mas tudo o que eu acho que seria interessante eu posto aqui, e eu duvido que alguém pagaria por um livro cujo conteúdo possa ser lido de graça na internet…

  4. Sora! Eu acho que as pessoas pagariam sim!
    Nunca subestime o valor de um livro, algo palpável, organizado em índices, que você pode manusear, grifar etc.
    Para pesquisas e para se ter na estante.
    Seria ótimo!

  5. Tirano ou não, sua forte personalidade marcou a Inglaterra profundamente. O tenho por incompreendido… e é meu preferido!

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