Jane Seymour: Redefinindo o mito

Jane Seymour têm sido bastante negligenciada por autores e historiadores, provavelmente porque seu relacionamento com Henrique foi bastante curto, já que Jane morreu por volta de 17 meses após seu casamento com Henrique, e muitos a vêem como uma personagem chata. No entanto, ela é uma personagem interessante e, assim como a maioria das esposas de Henrique, têm sido deturpada e estereotipada, que sempre é retratada como uma mulher quieta, submissa e fraca.

A data de nascimento de Jane é desconhecida, no entanto, no seu funeral 29 mulheres participaram, que em certos casos, era a média de idade do falecido.
Um dos equívocos comuns sobre Jane é que ela era uma mulher sem instrução. Claro que sua educação foi escassa se comparada ao de Ana Bolena (educada nos Países Baixos) e de Catarina de Aragão (que teve uma educação real), mas ela teve uma educação tradicional para uma mulher do século 16, que era o suficiente para uma filha de um cavaleiro. 

Ainda houve especulação de que Jane terminou sua educação na França. A base para isso é um suposto retrato de Louvre, que tem uma semelhança muito vaga se comparada ao seu retrato oficial. Há evidências de que Jane era capaz de ler e escrever, além de entender francês e latim. Ao contrário da crença popular, ela sabia música e tinha uma habilidade especial para bordados, alguns dos quais fora preservados na coleção real.

Polydore Vergil apresentou a opinião elogiosa oficial quando a descreveu como “uma mulher do máximo de encanto, tanto na aparência como no caráter”, e o amigo do rei, Sir John Russel, chamou-a de “a mais bela de todas as esposas” – mas isso, uma vez mais, provavelmente era lealdade à importância dinástica de Jane Seymour. Em outras fontes, parece provável que o encanto de seu caráter sobrepujava, de muito, o de sua aparência: Chapuys, por exemplo, descreveu-a como “de estatuta média e sem nenhuma grande beleza”. Seu aspecto mais destacado era a tez “de um branco puro”, que ficou famosa. Holbein dá a ela um nariz comprido e uma boca firme, com os lábios ligeiramente apertados, embora o rosto tivesse um agradável formato oval com testa larga que era admirada na época (aumentada, ás vezes, por um discreto puxar dos cabelos) e destacada pelas toucas da época.

Mas a impressão predominante transmitida pelo retrato dela – nas mãos de um mestre do realismo artístico – é de uma mulher de tranquilo bom senso. Ela possuía, também, uma índole naturalmente delicada (nada de palavras de irritação ou acessos de raiva) e virtuosa – sua virtude era outro ponto sobre o qual havia uma concordância geral. Havia uma história segundo a qual ela estava afeiçoada por um garoto do interior, mas que fora considerada de classe demasiado modesta para se casar com ele, e ele se casou com outra. Ainda que seja verdadeira, a história não continha nenhum desdouro para a honra da donzela Jane. Ela era contada mais como um conto da Gata Borralheira, onde a jovem injustamente desprezada iria alçar-se em triunfo a alturas muito maiores.

Não se pode negar que o Seymour trabalharam incansavelmente contra Ana. Um dos primeiros exemplos de suas estratégias foi uma mudança no brasão da família. Originalmente, o brasão dos Seymour era uma cabeça de pavão, com suas asas em plenos vôo. Pavões, entretanto, eram representantes do orgulho, coisa que os Seymour não queriam que fosse associado a Jane, já que a idéia era fazer com que Jane parecesse manso e subserviente. O pavão rapidamente foi transformado em uma fênix, o símbolo do sacrifício. O novo brasão foi quase profético, já que Jane morreu no parto do seu filho e herdeiro do rei.

Alguns dizem que Jane foi cuidadosamente treinada por Nicholas Carew (cortesão que mais tarde ganharia o título de Cavaleiro da Ordem de Jarreteira, que pertencia a George Bolena, irmão de Ana Bolena), que a ensinou como se comportar de modo a atrair o rei e manter o seu interesse, além de se mostrar uma alternativa atraente ao rei.

Henrique VIII teve que escrever uma carta à Jane, explicando que o relacionamento dos dois não escapara da atenção popular. “Avisando-a de que existe uma balada, composta há pouco, que zomba muito de nós e que, se for muito divulgada e vista por você, peço-lhe que não dê importância a ela“. Mas ele amenizou o golpe anexando um presente de soberanos de ouro, enquanto prometia que assim que o autor daquela “perniciosa composição” fosse descoberto, o culpado seria “severamente” punido. O rei terminou a carta com um daqueles galantes floreios que Ana Bolena teria reconhecido: “Assim, esperando em breve recebê-las nestes braços, termino pelo presente o seu afetuoso criado e soberano. H.R.”
Mas Jane Seymour recusou-se a receber o presente. Pelo contrário, pô-se de joelhos, beijando a missiva real, pediu ao rei (por intermédio de um mensageiro) que se lembrasse de que era “uma fidalga de linhagem boa e honrada, intocável“. Tendo em vista que “nada possuía no mundo a não ser a honra, que não mancharia por mil mortes“, tinha de dev0olver os soberanos. “Se o rei achasse por bem fazer-lhe um presente em dinheiro, ela rogava que isso pudesse acontecer quando ela fizesse um casamento honrado“. Longe de ficar dissuadido, o rei ficou ainda mais encantado ao ser rejeitado, caindo no mesmo truque pela segunda vez.

Será que Edward Seymour e seus associados treinaram Jane a fazer esse belo discurso virginioso para com seu príncipe de meia-idade? Chapuys diz que ela foi bem treinada, pelas pessoas “com intimidade com o rei, que odiavam a concubina”, a não satisfazer os desejos do rei, “exceto através do casamento”.) Não é necessário acreditar que a jovem estivesse representando um papel que não lhe era característico só porque os resultados de sua evasiva fossem tão bons. Jane Seymour era uma isca perfeita, só porque representava sem artíficio aquela pureza que um homem mais velho e sentimental – e Henrique, sem dúvida, era sentimental no início de seus casos de amor – deveria admirar.

O golpe contra Ana fez com que Jane rapidamente a substituísse, mas Jane não foi tão bem amada pelo povo como alguns historiadores têm sugerido. As pessoas achavam difício acreditar que Henrique tinha uma outra esposa tão convenientemente debaixo de suas asas, enquanto o nome de sua atual esposa estava sendo arrastado pela lama. Embora alguns se alegrassem com a execução de Ana , outros murmuravam contra Jane. Chapuys comenta em uma carta a Nicolas Perrenot de Granvelle “você nunca viu nem príncipe, nem homem, fazer maior exibição de seus chifres”.

Jane pode ter sido publicamente ‘mansa’, mas antes de Ana ser executada ela levantou-se e insistiu para que Henrique restaurasse Maria na sucessão. A conversa não correu tão bem quanto ela esperava. Relatórios de Chapuys dizem que “ouvi dizer que, mesmo antes da prisão da concubina, o rei, falando com sua amante Jane Seymour, de seu futuro casamento, esta sugeriu que a princesa deveria ser substituída em sua posição anterior, e o rei disse-lhe que ela era uma idiota, e que deveria solicitar o avanço de crianças entre eles, e não de quaisquer outros“. Mesmo assim, Jane continuou: “Ela respondeu que em pedir a restauração da princesa, ela estava procurando o descanso e tranquilidade do rei, ela mesma e seus futuros filhos”.

Jane continuou tentando a restauração de Maria, mas sem abordar o rei diretamente. No entanto, ela não podia manter seus sentimentos pessoais para si mesma quando rebeldes lideraram uma peregrinação exigindo que Henrique restaurasse a Igreja Católica. Eles também exigiam que os mosteiros destruídos recentemente fossem re-estabelecidos. Simpatizantes de Jane dizem que ela claramente partilhava do argumento dos rebeldes, e “jogou-se sobre os joelhos do rei e implorou que restaurasse as abadias, sugerindo que Deus, irritado com a destruição, havia enviado as rebeliões como punição”. Se Henrique pensou que havia conseguido uma esposa que não fosse contra ele, estava enganado, e sua resposta não foi nenhuma surpresa. Ele ordenou furiosamente que Jane se levantasse e lembrou-lhe o destino que as outras rainhas que ousaram a se intrometer em seus assuntos tiveram. O francês registrou que o incidente “foi suficiente para assustar a mulher”.

Jane Seymour entrou em trabalho de parto em 9 e outubro de 1537, e durou três dias e três noites. O modo com que o parto foi feito varia muito:

  • Alison Weir escreve que havia rumores que “seus membros foram esticados para facilitar o parto”, e que Henrique foi questionado se queria salvar Jane ou a criança, e que ele escolheu o filho, porque ele poderia facilmente encontrar outra mulher. Uma cesariana então foi realizada.
  • Foi aplicada a operação Lex Caesarea, que era empregada unicamente em mulheres que estivessem morrendo para salvar a criança. A operação está registrada em uma balada, “A morte da Rainha Jane”, encontrada numa coleção de baladas publicada por editores do século XIX que a ouviram “cantada por um jovem cigano”. Nela, a própria rainha exigia um cirurgião depois de estar “nos trabalhos do parto há seis semanas ou mais”. Mas ela já estava morta – ou moribunda – quando a operação foi realizada:

Ele lhe deu uma rica papa,
Mas o sono da morte ela dormia
E então seu lado direito foi aberto
E a criança foi libertada.

A criança foi batizada
E levada e tratada
Enquanto a real rainha Jane
Jazia fria na terra.

Entretanto, não há referência alguma uma operação no nascimento do príncipe. O que deixa perfeitamente claro que nenhuma operação foi realizada é o fato de a rainha Jane, longe de “dormir o sono da morte”, estava viva e suficientemente bem, depois do parto, para receber convidados do batizado da criança, três dias depois.

A rainha, entretanto, caiu doente, com febre puerperal. Essa “febre do parto” logo se transformou em septicemia, que era a grande causa da mortalidade materna. A rainha Jane morreu antes da meia-noite de 24 de outubro, apenas 12 dias depois do nascimento do filho.

De todas as esposas, Jane foi a única que satisfez a necessidade de Henrique em ter um herdeiro. Ela não viveu tempo suficiente para desfrutar de seu grande sucesso, e em vez disso sofreu uma morte lenta. Acredita-se que Henrique não estava com ela quando morreu,

Jane é duramente julgada por usurpar o cargo de Ana, acusada de ter qualquer simpatia ou empatia por qualquer um ao seu redor. Não podemos saber o que ela pode ou não ter sentido, assim como nós não sabemos o que Ana sentiu quando substituiu Catarina de Aragão. Ambas as mulheres tinham ambição e jogaram os seus próprios jogos de sedução, fosse a calma Jane ou a animada Ana. Todos que gostam de Ana Bolena se lembram bem como ela já foi acusada de ser projetista, prostituta e destruidora de lares. É somente nos últimos tempos que está sendo feita uma tentativa de reabilitar sua fama, e agora talvez seja a vez de Jane, que sempre foi conhecida por ser mansa e fraca, ser agora reconhecida como uma mulher que não só tinha ambição e virtude, mas que talvez fosse uma atriz incrivelmente boa.

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6 comentários sobre “Jane Seymour: Redefinindo o mito

  1. Excelente artigo sobre a Jane!
    Sem sombra de duvida, um dos melhores que já vi sobre ela!

    Então, sobre a Jane eu acho que o problema é que ela entrou após o furacão Anne. Mesmo com o desgosto popular sobre Anne, deve ter sido um choque imenso ver que o rei já tinha uma amante, depois de cortar a cabeça de uma rainha.
    A maior diversão do povo sempre foi falar mal de seus governantes e seus casos amorosos, mas ninguem esperava que a cabeça de Anne fose rolar de verdade rsrs

    Além do fato da pouca bagagem para ser uma rainha. Basicamente ele se casou com uma pebleia mesmo. Claro que na época, saber ler e escrever era um status, mas Henry já havia se casado com duas mulheres extremamente inteligentes e bonitas, que falavam linguas e tinham forte presença.

    Ela não era frágil. Foi batante audaciosa por peitar, basicamete a Anne. Mas sua personalidade pasa longe das audacioas Catharina e Anne.

    E eu duvido, de verdade, que sua morte tenha causado tanta tristeza o quanto se diz no povo em geral.
    E em Henry, este com certeza lamentou mais ter perdido uma esposa fértil, já que ela provou ser capaz de gerar homens rsrs

    Um ano depois Heny já estava feliz planejando o proximo casamento.

    As vezes duvido que ele realmente tenha amado alguma delas…

  2. Amei o artigo, me deu uma visão diferente da que eu tinha sobre a Jane, com toda certeza o melhor que eu li sobre ela, o site é incrível.

  3. Parabéns, eu estou escrevendo sobre Jane Saymours e o seu artigo me ajudou bastante!! Foi o melhor discurso e argumento que eu já vi sobre ela.

  4. Artigo impecável, como sempre…

    Certa vez eu li que Jane Seymour também foi prima de Ana Bolena, mas que esta relação de parentesco é pouco falada, se comparada a relação entre Ana Bolena e Caterina Howard, a Kitty! Jane e Ana foram bisnetas de Elizabeth Cheyney, confere?

    • Quase isso Lady! A avó de Ana e Catarina Howard, Elizabeth Tylney, era a meia-irmã da avó de Jane, Anne Say. Assim, os pais de Ana e Catarina eram meio-primos da mãe de Jane. Se não me falha o cálculo, então elas eram ‘meio-primas’ de segundo grau!

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