Ana Bolena e seu relacionamento com Maria Tudor

Maria Tudor era a única filha viva do rei Henrique VIII e Catarina de Aragão, nascida em 18 de fevereiro de 1516. Por muitos anos ela foi considerada a herdeira de Henrique, embora fosse uma mulher. O rei estava obcecado por um filho, e ele sabia que não podia mais ter filhos com Catarina, que estivera grávida seis vezes e só Maria sobreviveu. Elizabeth Norton escreveu em seu livro “She Wolves – the Notorius Queens of England”:

“A última gravidez de Catarina de Aragão ocorreu em 1518 e no início dos anos 1520 deve ter sido claro para Henrique e Catarina que eles não teriam mais filhos”

Em 1524 Henrique VIII decidiu se casar com Ana Bolena, a dama de companhia de sua mulher. Isto significava que ele precisava obter uma anulação do casamento de Catarina de Aragão. Depois de quase sete anos, o Papa ainda não havia dado a permissão para o divórcio e Henrique se separou da Igreja Católica. Maria Tudor já não era princesa, e sim lady Maria Tudor. Aos poucos Elizabeth foi substituindo Maria na Lei de Sucessão e no coração de Henrique.

Maria não quis reconhecer o casamento de seu pai com Ana Bolena e nunca quis admitir que ela fosse uma bastarda. Maria estava abertamente indo contra seu pai e sua ‘concubina’. Embora Henrique amasse Maria e muitas vezes provou que gostava dela, agora ele não tinha a intenção de tolerar sua obstinação. Eric Ives afirma que:

“Henrique viu o comportamento de Maria como um caso simples de desobediência e, apesar de sua afeição óbvia para com ela, colocou uma pressão enorme sobre sua filha para que ela se conformasse”

Maria foi forçada a servir na casa de sua meia-irmã em Hatfield. O embaixador imperial Eustace Chapuys escreveu uma carta ao imperador dizendo que “ela só têm uma camareira e ocupa o pior quarto da casa”. Parece que Maria e seus partidários culpavam Ana pelos infortúnios de Ana e Catarina, e até especulam que Ana tinha a intenção de matá-las, mas isso é realmente verdade? É perfeitamente natural que Ana quisesse que Maria a reconhecesse como a verdadeira Rainha, e tivesse Elizabeth no trono inglês. Maria, no entanto, não podia trair sua mãe e reconhecer a amante de seu pai como Rainha. Catarina e Maria eram muito orgulhosas, e Maria sabia que o “orgulhoso sangue espanhol” corria em suas veias. Ana Bolena, entretanto, tentou se reconciliar com Maria. Eustace Chapuys escreve que “a amante do rei, depois de visitar sua filha (Elizabeth), enviou uma mensagem para a princesa (Maria), pedindo para visitá-la e honrá-la como a rainha que ela era”. Na mesma mensagem, Ana dizia a Maria que se ela fosse, “seria tão bem recebida quanto pudesse desejar, e isso seria o meio de recuperar a aprovação e o favor do Rei, seu pai, e de ser tratada tão bem ou talvez até melhor do que jamais havia sido”. Como Maria respondeu a essa mensagem de Ana? Chapuys escreveu que a resposta da princesa foi que “ela não sabia de qualquer outra rainha na Inglaterra do que sua mãe, e que se a amante do rei, como ela chamava Ana de Bolans (Bolena), fizesse-lhe o favor de interceder o rei, seu pai, ela certamente seria muito grata’.

Humilhada, Ana Bolena “voltou para casa muito decepcionada e indignada, totalmente determinada a acabar com o orgulhoso sangue espanhol, como ela dizia, e fazer o pior”.

Parece que Ana Bolena voltou-se contra Maria após tentar se reconciliar com ela. Maria, porém, foi uma adversária difícil e odiava Ana Bolena, culpando-a por todas as piores coisas que aconteceram com ela e sua mãe. Assim, Eric Ives aponta:

“A linguagem de Ana era violenta e ameaçadora, mas isso não nasceu da maldade, mas da auto-defesa”.

Para muitas pessoas, Ana Bolena não era mais que uma “grande prostituta” e concubina, e ela não podia permitir que Maria a insultasse como a “amante do rei”, pois ela era a esposa do rei e mãe do herdeiro do trono. Se Maria aceitasse Ana como rainha, muitos dos simpatizantes de Maria diminuíram de número.

Houve também uma torção no direito canônico, que afirmou que “uma criança nascida de um casal que na época eram, aparentemente, legalmente casados, mantem-se legítima, mesmo se posteriormente descobrir que a união tinha sido inválida”. Assim, Maria tinha um direito ao trono e ela não parecia querer deixá-lo.

Ana e Henrique tentaram mudar a vontade de Maria por muitas ocasiões. Por exemplo, quando Henrique VIII visitou Elizabeth ele perguntou se Maria poderia beijar sua mão e ela recusou. Ana, entretanto, estava com medo de que:

“Considerando a fraqueza do rei ou sua instabilidade (quem ousaria a dizer isso?) e que a grande beleza, virtude e sabedoria da princesa pudesse levar seu pai a esquecer sua ira, poderia ser induzido a tratá-la melhor e até permitir que ela ficasse com o título”.

Ana estava ciente de que, apesar de Henrique estar irritado com Maria, ele ainda a amava e poderia facilmente esquecer sua ira e manter Maria na sucessão. Ana tentou derrubar Maria sozinha. A tia de Ana, Lady Anne Shelton estava servindo na casa de Elizabeth e via Maria todos os dias. Em fevereiro de 1534, Chapuys informou que o irmão de Ana Bolena, George, e seu tio, o Duque de Norfolk, uma vez visitou a casa de Elizabeth e repreendeu Anne Shelton por ” (uma) bondade muito grande e respeito quando ela deve lidar com ela (Maria) como a bastarda que ela é”. Anne Shelton observou que, mesmo se Maria fosse a bastarda de um pobre cavalheiro, ela ainda mereceria respeito, porque “suas virtudes convocam todo o respeito e honra”.

Maria estava com medo e escreveu a Chapuys em 1535, porque “O Rei ama sua concubina agora mais do que nunca”. No entanto, Henrique também amava Maria, pois quando ela ficou doente, ele lhe enviou seu próprio médico, o Dr. Butts, que fora médico de Catarina também. Mas ele se recusou a deixar que Maria ficasse com sua mãe – ele provavelmente temia que ambas conspirassem contra ele.

Além disso, Henrique havia prometido à Ana que, enquanto ele estivesse vivo, Maria não se casaria.

Apesar de Ana ter sido rejeitada por Maria, ela tinha tentando se conciliar sua última vez. Foi depois da morte de Catarina de Aragão, quando Ana estava grávida, que ela escreveu a sua tia, Anne Shelton:

“Não a vire para quaisquer curso intencional, porque ela não pode me fazer bem ou mal, e faça seu dever com ela, de acordo com os comandos do rei, como estou certa de que você faz”.

Ana também tentou convencer Maria de que ela deveria ser uma filha obediente, e que se ela o fosse, Ana se tornaria sua “segunda mãe”. Maria não tinha a intenção de aceitar Ana, assim Ana, decidindo assustá-la, escreveu:

“Eu tenho experiências cotidianas de que a sabedoria do rei é tal que não estima seu arrependimento e rudeza, tal como sua obstinação natural quando ela não têm escolha”.

Não se sabe se Henrique VIII realmente considerou a idéia de punir Maria, mas em novembro de 1535 foi ouvido rumores de que em breve ele tomaria medidas relacionadas a Maria, para que ela fosse um exemplo de que ninguém poderia desobedecer a lei.

Depois da queda de Ana Bolena em 19 de maio de 1536, Lord e Lady Shelton ficaram cuidando de Maria e Elizabeth até o outono do mesmo ano. Eles foram, então, afastados de suas funções e voltaram para sua casa em Shelton Hall, em Norfolk. Apesar de Lady Anne ser retrada como uma mulher cruel para com Maria, isto não é o caso uma vez que, quando Maria se estabeleceu no trono, ela deu pequenos presentes para as filhas de Shelton e estabeleceu uma anuidade quando Lady Anne ficou viúva.

Na minha opinião, o rei não se atreveria a matar sua filha, mas ele estava muito descontente com sua desobediência e obstinação. No entanto, Maria deveria estar assustada e não sabia o que esperar, pois ela viu como Henrique poderia assinar a execução de seus melhores amigos. No entanto, ela não considerou o aviso de Ana e disse que ” sofreria uma centena de mortes antes de mudar sua opinião”.

Acho que Ana Bolena tentou se reconciliar com Maria Tudor, mas devido as diferenças entre eles era impossível. Ana era “a outra mulher na vida do pai de Maria, e ela automaticamente a rejeitou. Ana suplantou a mãe de Maria no coração do rei e no trono, e era fácil para Maria culpar Ana de todos os seus infortúnios. Ana também foi vista por muitos como a causa da Reforma Inglesa , e para Maria, que era uma fervorosa católica, isso era mais um motivo para odiar Ana.

Maria odiou Ana até o fim, e ela sempre a chamou de “concubina”, e sempre se recusou as tentativas de Ana para se reconciliarem. Ela era orgulhosa e teimosa, mas também não podemos chamar Ana de ‘santa’ nesta história, e também não podemos negar que ela realmente tentou fazer as pazes com sua enteada. Eu acho que elas só poderiam ser inimigas, porque Maria nunca poderia aceitar a mulher que – nos seus olhos – destruiu sua família e fé, e Ana nunca poderia aceitar a desobediência de Maria para com ela e sua filha.

Traduzido do artigo 'Relacje pomiędzy Anną Boleyn a Marią Tudor', escrito por Sylwia S. Zupanec.
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9 comentários sobre “Ana Bolena e seu relacionamento com Maria Tudor

  1. Algumas coisas que me chamaram atenção, de acordo com diversos historiadores os primeiros contatos entre Henrique e Ana começaram na primavera/verão de 1526, logo, em 1524 não seria a decisão do rei de se casar com ela.

    Outra coisa, a indícios de que Ana mandava que sua tia, tratasse Maria da pior forma possível, não apenas seu pai, tios e irmão. Mandando que Lady Shelton puxasse “suas orelhas” cada vez que se referisse como princesa.

    existem outros episódios interessantes entre as duas, como o possível encontro na capela em que Maria fez uma longa saudação e Ana acreditou ter sido para ela, agradecendo em bilhete na hora da ceia, mas Maria devolveu como resposta que a saudação era para Deus e não ela.
    O fato de Ana ter pedido para que Lady Kingston se ajoelhasse em frente a a Maria e pedisse perdão por tudo que ela tinha feito contra a enteada. E a carta de junho de 1536 entre Maria e Cromwell, na qual ela dizia que “já que não havia mais ninguém que falaria contra mim na presença do rei, já que a mulher que se foi e eu rezo a Deus que a perdoe”

    Tal como Catarine, Ana e Maria eram bem parecidas, ambas inteligentes, políticas e orgulhosas, mas duas pessoas destinadas a estarem em campos opostos

    • Henrique pode não ter decidido se casar com Ana Bolena em 1524, mas de acordo com alguns historiadores o início dos sentimentos de Henrique para com Ana começaram no Natal e Ano Novo de 1524/1525. De acordo com David Starkey, Ana Bolena chamou a atenção do rei durante o inverno de 1524, porque este se encaixa no relato de George Cavendish sobre a queda do Cardeal Wolsey e como o amor do rei por Ana foi o começo de seu fim.

      Também é altamente improvável que Lady Shelton tenha sido cruel para com Maria, pois quando ela se tornou rainha, deu alguns presentes para as filhas de Shelton e estabeleceu uma mesada para ela quando ficou viúva. Desse modo, Maria parece ter mantido alguma boa vontade com a família, indicando carinho ao invés da raiva que seria guardada pelos maus-tratos.

      Essa cena na capela que você descreveu tem sido descrita mais como um rumor do que um fato. De acordo com essa lenda, Ana e Maria estavam na capela de Eltham Palace ao mesmo tempo. Uma atendente disse que Lady Maria tinha reconhecido Ana como rainha da Inglaterra ao fazer uma reverência a ela. Ana não foi capaz de vê-la no local e ficou constrangida por não ter percebido isso. Ela estava profundamente satisfeita e enviou uma mensagem onde a cumprimentava como rainha e desculpava-se calorosamente por não tê-la visto a reverência em sua direção e que ela desejou que esse bilhete pudesse ser ‘o começo de uma correspondência amigável’ e que gostaria de abraçá-la. Lady Maria respondeu que era impossível ela ter feito uma reverência para a rainha, pois sua mãe não estava lá e ela não reconhecia nenhuma outra rainha, dizendo ainda que a reverência foi para o altar e não ela.

      Eu não consegui achar nenhuma carta de junho de 1536 na qual Maria disse isso.

      A única coisa que li a respeito de Ana ter falado com Lady Kingston sobre Maria foi que Ana pediu, como um favor, se ela transmitiria uma mensagem privada de que ela pedia o perdão de sua enteada por quaisquer atos de crueldade e maldade que tinham afligido ela em tempos passados. Se Maria chegou a ouvir esse pedido de desculpas ela não encontrou o espírito do perdão cristão.

      Também é interessante notar que alguns historiadores acham que as histórias em que Ana ‘perseguia’ Maria eram absurdas, e que qualquer tratamento maldoso que Maria recebeu de 1532 a 1536 foi ordenado pelo Rei e não pela Rainha, enquanto outros argumentam que Maria exagerou nas histórias pela influência de Eustace Chapuys, o embaixador espanhol ferozmente anti-Bolena.

  2. Eu falei sobre 1526, pois sigo a linha de pensamento de Eric Ives, no que diz respeito a Ana. Ele acredita ser nesse ano que Henrique se declara apaixonado por Ana.
    Quanto a Shelton não sei se ela foi pressionada a maltratar Maria ou, se nem chegou a faze-lo. É difícil deduzir. Mas acredito sim que Maria foi maltratada tanto por seu pai, quanto por Ana Bolena, que se referia a ela como sua própria morte.
    Sobre a Carta, é uma carta de pouco tempo depois da morte de Ana:

    “Master Secretary, I would have been a suitor to you before this time to have been a mean for me to the King’s Grace to have obtained his Grace’s blessing and favor; but I perceived that nobody durst speak for me as long as that woman lived, which is now gone; whom I pray our Lord of His great mercy to forgive.” Is now the bolder to write, desiring him for the love of God to be a suitor for her to the King, to have his blessing and leave to write to his Grace. Apologises for her evil writing; “for I have not done so much this two year and more, nor could not have found the means to do it at this time but by my lady Kingston’s being here. Hunsdon, 26 May.”1

    Aqui voce a encontra.

  3. Mary Tudor foi uma das mulheres mais crueis e fanáticas da história, também conhecida como Mary a Sangrenta!

    • Se você ler a história dela é fácil entender o porque ela agia do jeito que agia. Além disso, muitas outras pessoas cometeram atrocidades naquela época e nem por isso ficaram conhecidos como “sanguinários” :)

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