Catarina de Aragão, a rainha virtuosa

A maioria das pessoas considera Catarina de Aragão uma mulher muito mais velha que Henrique VIII, piedosa e religiosa e que tinha uma aparênca típica espanhola. Assim como todas as esposas, alguns rumores também a cercam: que ela mentiu ao dizer que era virgem ao se casar com Henrique, que ela morreu envenanda por Ana Bolena, que ela era uma mulher deselegante e tediosa. Neste artigo, irei olhar para algumas destas questões e tentar desvender o que Catarina de Aragão era realmente.

Embora Catarina fosse filha de reis católicos espanhóis, ela tinha cabelos longos loiros, pele clara e olhos azuis, como se pode ver nos retratos dela jovem. Sua figura pode ter se tornado mais robusta com o passar dos anos, mas qual corpo não muda após pelo menos seis gravidezes? Ela certamente não era feia nem deselegante quando Henrique se casou com ela em 1509. 

Os pais de Catarina expulsaram os judeus de Granada em 1492, e ela tinha visto seus pais lutarem contra os mouros. Logo, ela era uma católica fervorosa, que acreditava na luta contra a heresia, e sustentava uma política de perseguição agressiva. Assim como Thomas More, ela acreditava que as sanções de heresia deveriam ser graves e apropriadas. Em nossa tolerância num mundo com inúmeras culturas e diferentes tipos de fé, vemos Catarina e Thomas como intolerantes e fanáticos. Entretetanto, ambos eram produtos de seu tempo, pessoas de fé que estavam fazendo o que a Igreja ensinava.

A fé de Catarina a sustentou quando o seu marido decidiu abandoná-la para ficar com Ana Bolena. Não podemos critíca-la por se apoiar em Deus em um momento tão sombrio, principalmente quando o rei a proibiu de ver sua filha.

Todo preceito religioso da Igreja recomendava obras caridosas, todos os testamentos mencionavam caridade para com os pobres. Para Catarina de Aragão, a piedade, como a caridade, era um dom natural e lhe trouxe, como o tempo iria demonstrar, grande popularidade entre os beneficiários. Este era o ideal de uma boa rainha – aquela que fizesse doações espontâneas e com frequência aos pobres, e cuja caridade “não fosse pequena”.

Existem várias histórias tradicionais que dizem que Catarina introduziu a manufatura de rendas nos condados do centro, melhorou o jeito inglês de cuidar dos jardins, introduziu uma salada excelente. O que é muito mais forte em termos da imagem ideal de uma rainha é a história da intervenção dela em favor de aprenzies que estavam fazendo arruaças, no dia 1º de maio de 1517. O embaixador veneziano escreveu, em 19 de maio de 1517 que quatrocentos prisioneiros estavam destinados à forca, “mas que nossa sereníssima e compassivíssima rainha, com lágrimas nos olhos e de joelhos, obteve de Sua Majestade o perdão para com eles, com o ato de graça sendo realizado com grande pompa”.

Não se pode saber ao certo se Catarina consumou ou não o casamento com Artur. Sir Anthony Willoughby, um servo de Artur, afirmou que, na manhã após o casamento, Artur lhe disse: “Willoughby, traga-me um copo de cerveja, pois nesta noite estive no meio da Espanha!” e disse, mais tarde, a seu assistentes: “Mestres, é um bom passatempo ter uma mulher”. Mas e se esses comentários fossem simplesmente fingimento? Nunca saberemos, mas na época foi dado como certo que Catarina e Artur haviam consumado o casamento.No entanto, Dona Elvira, primeira-dama de Catarina, escreveu para os pais de Catarina após a morte de Artur, dizendo que ela ainda era virgem.

A consumação ou não consumação do primeiro casamento de Cataruna não foi um problema quando ela se casou com Herique VIII, em 1509, pois foi dada uma dispensa papal ao casal. O tópico, entretanto, ferveu na cabeça de Henrique quando ele queria seu casamento com Catarina anulado. Henrique argumentou que a dispensa papal era inválida pois se casar com a viúva de um irmão era bíblico. Catarina argumentou que ela nunca tinha dormido com Artur, de modo que o casamento nunca foi totalmente legal.

Catarina testemunhou sob juramento que ela não tinha dormido com Artur, dizendo que quando se casou com Henrique era “uma verdadeira donzela, sem o toque de nenhum homem”. Alison Weir argumenta que Catarina “era uma mulher religiosa de princípios sólidos, e que é muito pouco provável, portanto, que ela fosse culpada de fraude”.

Catarina de Aragão nasceu em 16 de dezembro de 1485, sendo apenas cinco anos e meio mais velha que seu segundo marido, Henrique VIII. Ela tinha apenas 23 anos quando eles se casaram em 1509, mas em 1528, quando Henrique começou a querer a anulação, Catarina tinha 43, enquanto Henrique tinha 37. Catarina era velha para os tempos Tudor, e também estava na menopausa. Henrique, por outro lado, sentia-se jovem e estava apaixonado por Ana Bolena, uma jovem de 20 anos que era capaz de procriar. Embora Catarina não fosse muito mais velha que seu marido, ela tinha perdido sua beleza, fascínio e fertilidade.

Catarina frequentemente é retrada nos filmes e séries como uma mulher de aparência velha cujo único interesse era rezar. Ela, no entanto, era uma mulher inteligente, que gostava de caçar com falcões, ouvir música (e não tocar), dançar, jogar baralho, entre outros entretenimentos da época. Embora ela não fosse uma mulher da moda, como Ana Bolena, é claro que ela adorava, assim como praticamente todas as mulheres da época, jóias e roupas finas.

Catarina de Aragão também foi uma rainha ativa, não apenas um acessório de seu marido. Em 1513, quando Henrique foi lutar na França, ele deixou sua esposa como regente. No dia 22 de agosto, James IV, aproveitando a ausência de Henrique VIII, levou 80 mil soldados ao longo da fronteira da Escócia com a Inglaterra. Os ingleses, liderados pelo Conde de Surrey, viajaram para o norte em 9 de setembro e derrotaram os escoses, matando o seu rei. Catarina mandou que levassem o casaco sangrento de James IV como prova de que ela havia sido vitoriosa e tinha defendido com sucesso a Inglaterra na ausência de seu marido.

Eustace Chapuys, o embaixador imperial amigo de Catarina de Aragão, havia advertido “Nem a rainha nem a princesa estarão seguras enquanto a concubina (Ana Bolena) tiver poder, ela está desesperada por se livrar delas”. Quando Catarina morreu em janeiro de 1536, o médico que a examinou disse que o coração “havia aumentado de tamanho e tinha manchas pretas horríveis de se ver”, e que a cor preta não mudava quando se lavado com água. Embora a maioria dos historiadores hoje acredita que Catarina morreu de câncer, na época, acreditou-e que as manchas escuras eram evidências de que a ex-rainha tinha sido envenenada, provavelmente por Ana Bolena.

Aos nossos olhos modernos, Catarina parece uma fanática religiosa, uma vítima, uma mulher que se envolveu em miséria, e muitos a culpam pela sua filha, Maria, ter se tornado uma rainha intolerante e cruel. As pessoas dizem que ela deveria ter aceitado o fracasso de seu casamento e ido para um convento, e que isso teria salvad oa ela e sua filha de muita dor. Estamos também analisando os fatos com os nossos olhos do século 21 e não levando em conta que Catarina viveu no tempo em que o casamento era um contrato vinculativo para toda a vida, algo que não podia e não deveria ser quebrado. Catarina não arriscaria sua alma ao aceitar a anulação e orava para que Henrique voltasse para ela, para que sua alma pudesse ser salva. Catarina também acreditava que sua filha era a herdeira legítima do trono, e por isso lutou para sua reinvidicação: aceitar a anulção seria aceitar a ilegitimidade e sua retirada na sucessão, coisa que Catarina não podia simplesmente fazer

Nascida de sangue real, inteligente, piedosa e graciosa, a rainha Catarina manteve suas crenças mesmo quando seu marido tomou seu título, suas jóias, separou-a da filha e a mandou para um castelo frio e escuro. Ela estava preparada para aguentar tudo, com sua força e coragem.

Ela era popular e amada pelo povo inglês, e merece ser lembrada hoje. É simplesmente ridículos pessoas que gostam de Ana discutindo com as que gostam de Catarina. Podemos estar obcecadas com Ana Bolena, mas inda admiramos as outras esposas de Henrique e recordamos delas de uma maneira correta e adequada.

Fonte: Livro As Seis mulheres de Henrique VIII 

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11 comentários sobre “Catarina de Aragão, a rainha virtuosa

    • Provavelmente sim. Além disso, algumas vezes eles a retratam mais gorda e com sombrancelhas grossas e um cabelo preto muito mais preto do que o normal (daqueles que dá pra ver que foi pintado). Acho que fazem isso de maneira exagerada para mostrar Ana Bolena muito mais bonita do que Catarina, quando na verdade, todas as mulheres do rei Henrique eram muito bonitas.

  1. Catarina de Aragão era a verdadeira mulher de Henrique VIII e Ana Bolena era uma usurpadora que teve um triste fim, talvez pior do que Catarina de Aragão.

    • Acho que bem pior, pois Ana viu o amor que o Rei tinha por ela simplesmente desmoronar, em pouco tempo após o casamento e percebeu que ela, no final, era a esperança do Rei de ter um filho homem. A impressão que eu tenho, ao ver filmes e séries, é que Ana estava muito segura de que aquele amor duraria para sempre, que o Rei deixaria de ser mulherengo e só teria olhos para ela, mas não foi o que aconteceu. Eu, que não consigo gostar dela nem um pouquinho, acho ótimo, rs… Não o fato dela ter sido decapitada, acho que ninguém merece isso, mas o fato dela ter sido desprezada pelo Rei, acho sensacional, rs. Teria sido melhor ela ter ficado viva e ter visto o Rei amar várias outras mulheres…

  2. De todas as esposas do Henrique VIII, Catarina sempre foi minha favorita, ela lembra muito minha mãe e minha avó (claro, sem o toque espiritual fervoroso) que são mulheres que admiro muito

    E embora eu não consiga realmente gostar da Ana Bolena justamente por adorar a Catarina, eu entendo que ela foi uma mulher forte e fascinante a sua maneira naquela época, senão não seria a mais lembrada esposa, acho ridículo discutirem quem era a “melhor” depois de tanto tempo. Deixem as duas (e todas as outras) descansarem em paz.

    Geralmente quase todas as representações são exatamente como vc disse, bem estereotipadas pra exaltar a Ana Bolena,talvez,ou o fato dela ser espanhola. Mas tem uma, de 1971, que quem faz a Catarina é a Annetie Crosbie.É de longe a melhor Catarina que eu vi.

    E eu fico me perguntando se essa mania de estereotipar ela é exclusivamente do lado de cá do continente ou se os próprios ingleses fazem o mesmo

  3. Sobre Catarina:

    O cinema a mostra como feia,gorda,velha,e carola para ridicularizá-la,tudo que venha
    do catolicismo tem que ser mostrado assim.O mesmo fazem com Carlota Joaquina,
    D.João VI,e toda família Real.Sabem por que? Porque os iluministas do século 18
    ASSIM QUISERAM! tanto que na Revolução francesa eles espalharam panfletos
    pornográficos,e vários mentiras contra a rainha católica Maria Antonieta e Luiz VI,
    pra ridicularizá-los e demonizá-los.Essa visão anticatólica e antimonarquista foi passa
    da para livros de escola,cinema,filmes,séries,novelas,etc.O pensamento iluminista
    anticatólico impera ainda,e é por isso que as rainhas católicas são estereotipadas.

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