A Bruxaria na Era Tudor

Bruxas, por Hans Baldung Grien, 1508A preocupação com a bruxaria não era algo recente na Inglaterra Tudor. Ajudados pela invenção da imprensa, a mania de caça às bruxas começou com o notório trabalho de dois inquisidores americanos, o livro ‘Malleus Maleficarum’, publicado em 1487. Uma Bula Papal de 1481 deu apoio oficial a este livro. Em Lorena, na década de 1580, por exemplo, o juiz Nicholas Remy alegou ter queimado 900 bruxas.

A maioria das pessoas na Inglaterra do século 16 e 17 acreditavam, assim como seus antepassados, que o mundo era ordenado por forças ocultas que podiam ser influenciadas ou controladas pelo uso de rituais e cerimônias mágicas. Acreditava-se que a magia era dividida em duas partes: a magia branca era o ofício da cura e era praticada pelos ‘sábios’ populares. Já a magia negra, a bruxaria, era o ofício de prejudicar e machucar os outros, praticados por bruxas.

As atitudes britânicas quanto à bruxaria durante a Era Tudor tendia a ser menos radical do que os outros europeus contemporâneos. De fato, sob certas circunstâncias, a bruxa britânica poderia eventualmente ser um socialmente aceitável, e até mesmo respeitável, membro da sociedade. Isso porque a Inglaterra era repleta dos chamados ‘homens sábios’ e ‘mulheres astutas’, magos brancos que vendiam amuletos para ajudar as pessoas a resolverem seus problemas, afastar o mal, evitar a ruína ou a ganhar dinheiro. Anéis eram vendidos para trazer imunidade nas batalhas, afastar parasitas e até mesmo deixar o usuário invisível. Esses profissionais realizam papéis sociais importantes, proporcionando aconselhamentos, encontrando bens perdidos e fazendo poções do amor. A magia era usada para apagar incêndios, fazer crianças dormir e evitar a embriaguez.

Obviamente, a aceitação dessas pessoas não era universal e aqueles que atraíram a atenção de caçadores de bruxas – ou até mesmo a Inquisição, durante o reinado de Maria I – muitas vezes acabou sendo julgado.

Quem praticava a bruxaria era geralmente mulher. A crença comum é que essas mulheres fariam um pacto diabólico com espíritos do mal e apelar para sua intervenção. Elas iriam rejeitar Jesus e os santos sacramentos, participariam do ‘Sabbath da Bruxa’, uma paródia da missa e dos sacramentos. Ao prestar as homenagens ao ‘Príncipe das Trevas’, por sua vez elas receberiam poderes sobrenaturais. O folclore dizia que, ao se tornar uma bruxa, uma marca apareceria em sua pele. Curiosamente, as razões para uma mulher fazer um pacto com o diabo eram variadas – as pessoas acreditavam que as mulheres, em suas frustrações e lutas, apelariam para o diabo a fim de ganhar poderes para lidar com a infertilidade, o medo, o bem-estar de seus filhos ou para obter uma vingança contra a amante de seu marido. Embora as perseguições de bruxas não entraram realmente em vigor até o ano de 1563, o uso de feitiçaria havia sido considerado heresia pelo Papa Inocêncio e até o ano de 1750 cerca de 200.000 bruxas foram torturadas, queimadas e mortas em toda a Europa Ocidental.

Generalizando, existia três tipos de bruxas:

  • A “bruxa da vizinhança” ou a “Bruxa social” – Esse era o rótulo dado a uma pessoa que amaldiçoava o seu vizinho após uma discussão ou algo assim. A bruxa da vizinhança eram produtos de tensões na vila, e eram normalmente encontradas em lugares onde um habitante dependia do outro. Tais acusações eram seguidas de alguma norma social, tais como a não devolução de algum item emprestado.
  • O “feiticeiro” ou “Bruxa mágica” – Este rótulo cobria curandeiros, videntes, feiticeiros e até mesmo parteiras, ou qualquer pensamento que se tinha sobre alguém que usava a bruxaria para aumentar a sua fortuna em detrimento de sua comunidade.
  • A “bruxa sobrenatural” – Pessoa que aparecia em forma de demônio em visões ou sonhos.

A idéia de animais serem intermediários entre a bruxa e Satã foi tida especificamente na Inglaterra, sem ser mencionada em outros casos europeus. Esse conceito vinha do medieval folclore inglês de Satã, o ‘Senhor das Moscas’, e argumentava que cada mosca tinha em seu espírito uma pequena parte da essência de Satanás e, por isso, ele fazia com que as moscas se comportassem de forma tão odiosa. Dentre deste quadro lógico, era possível argumentar que animais maiores do que moscas poderiam ser muito bem o repositório da essência satânica mas em quantidades maiores, de modo que o animal poderia desempenhar um papel intermediário entre a bruxa e o diabo.

Por exemplo, Elizabeth Francis, esposa de Christopher Francis, foi acusada no verão de 1556 em Chelmsford de enfeitiçar a filha de William Auger. Elizabeth era de Hatfield Peverell e para tentar salvar a si mesma, fez uma confissão que foi prontamente escrita em um livro que virou um bestseller da época. Ela disse que havia aprendido a arte da bruxaria com sua avó, Mãe Eva, com a idade de doze anos, e tinha ganhado um gato chamado Satã para ajudá-la a seduzir um rapaz chamado Andrew Byles. Quando ele se recusou a casar com ela, ela o matou. Então Satã encontrou outro rapaz para ela, Christopher, que viria a ser seu marido. Eles tiveram uma filha, mas quando a criança tinha 18 meses Elizabeth mandou Satã matá-la. Ela também confessou ter ordenado a Satã que Christopher ficasse coxo. Então, depois de ter cuidado do gato por quinze ou dezesseis anos, Elizabeth cansou-se de Satã e o deu para uma vizinha, Agnes Waterhouse, que também foi acusada de bruxaria. Elizabeth alegou ser inocente nas acusações feitas contra Agnes e foi condenada a um ano de prisão. Por enfeitiçar outra mulher, Mary Cocke, Elizabeth ganhou mais um ano de prisão e quatro aparições no pelourinho. Em 1579, Elizabeth foi acusada de enfeitiçar Anne Poole, que morreu em 1 de novembro de 1578. Desta vez, Elizabeth foi considerada culpada e enforcada. A aldeia de Elizabeth, Hatfield Peverel, tinha uma população de 500 pessoas e, durante um período de 25 anos, abrigou 15 suspeitos de bruxaria e 30 pessoas estiveram diretamente envolvidos com bruxas, sendo seus maridos ou vítimas de bruxarias.

A maioria das bruxas eram julgadas pelos seguintes crimes: infligir morte ou doença em animais e seres humanos, azedar o leite, provocar aborto, machucas crianças. Sob tortura, as bruxas da Europa confessaram ter relações sexuais com o diabo e terem amamentado demônios. A bruxa britânica geralmente mantinha um animal – cão, gato ou sapo – que falava com ela e muitas vezes também os amamentava, deixando uma marca distinta em seu seio. Em julho de 1589, três bruxas foram enforcadas em Chelmsford, Essex.  Foi escrito posteriormente que uma delas, Joan Prentice, amamentava dois furões chamados ‘Jack’ e ‘Jil’. A descoberta de uma marca ou um mamilo extra eram, portanto, um fator-chave para determinar se uma mulher era culpada ou não de bruxaria.

Muitas alegações de bruxaria eram feitas para a igreja controlar ou se livrar de pessoas cujas crenças não se encaixam ou não aceitavam as crenças religiosas, assim como para a comunidade se livrar de pessoas que estavam causando conflitos e homens se livrarem de esposas. Tais alegações também poderiam ser feitas pelo medo de desconhecido, e no caso das parteiras e herbalistas, se havia a necessidade de culpar alguém ou algo pelos acidentes e catástrofes.

Entre 1450 e 1600, quando a crença no poder da bruxaria foi difundida na Europa, era dito que as bruxas voavam para ir nas suas reuniões à meia-noite montado não somente em vassouras, mas em cabras, bois, ovelhas, cães e lobos. Curiosamente, a maioria dos relatos conta que somente mulheres voavam em vassouras. Segunda lendas populares, as bruxas geralmente saíam de suas casas pela chaminé. Uma vez no ar, voar supostamente era fácil, com somente duas exceções: uma bruxa iniciante poderia ter problemas para manter o equilibro, pois a vassoura era rápida e instável; bruxas também poderiam ser derrubadas da vassoura ou impedidas de voarem pelo som dos sinos de igreja. No início do século XVII uma cidade na Alemanha ficou com tanto medo de feitiços que algumas cidades tocavam os sinos continuamente do anoitecer até o amanhecer.

Em 1563, o governo de Elizabeth I aprovou uma “Lei contra Conjurações, Encantos e Bruxaria’, que abriram o caminho para um período de perseguição que atingiria a Inglaterra para o resto do século XVI e XVII. Agora, o crime de bruxaria poderia ser processado em tribunais locais. A execução de uma bruxa era um ritual que tinha a aprovação de toda a comunidade ou aldeia. Numa altura em que as velhas instituições de caridade da Igreja Católica Romana tinham sido destruídas e as novas instituições ainda não estavam bem configuradas, as acusações de feitiçaria foram uma forma de lidar com a culpa de não dar caridade às pessoas pobres. George Gifford, um pregador de Essex, disse que: “Se não houvesse bruxas, não haveria pragas”. Isso é um exemplo de que as pessoas da época culpavam as bruxas e a bruxaria por desastres naturais, e eles pensavam que poderiam prevenir tais desastres se se livrassem das bruxas.

Matthew Hopkins, um famoso caçador de bruxas condenou 68 pessoas à morte em Bury St. Edmunbds e 19 pessoas enforcadas em Chelmsford em um único dia. Uma de suas ferramentes para descobrir se a mulher era uma bruxa era cutucar uma verruga ou picada de inseto para descobrir se ela sentia dor. Se não sentia, era uma prova incontestável de que aquilo era uma marca do diabo. Outros testes para bruxa incluíam natação: Mary Sutton de Bedford foi jogada em um rio com seus polegares amarrados em seus dedos do pé. Se ela flutuasse, era culpada; se afundasse, era inocente.

No entanto, houve uma profunda ambivalência em torno da figura do praticante de feitiçaria Tudor. John Dee, que sugeriu a data para a coroação de Elizabeth I, aproveitou de seu patrocínio como astrólogo da corte pela maior parte de sua vida, apesar de evocar abertamente ‘espíritos’ usando rituais. As habilidades de Dee como um astrólogo e suas experiências potencialmente lucrativas com a alquimia manteve-o acima da lei, apesar da punitiva Elizabeth I, em 1563, que impôs a pena de morte para a prática de bruxaria. Todas as bruxas eram iguais perante a lei Tudor mas, ao que podemos ver, alguns eram mais iguais do que outros. Na verdade, foi só depois que James I assumiu o trono, em 1603, com seu medo do sobrenatural, que a caça às bruxas na Inglaterra realmente começou.

Bibliografia:
LAMB, Victoria. ‘Witchcraft in Tudor Times‘. Acesso em 15 de outubro de 2013.
Witchcraft and Magic‘. Acesso em 15 de outubro de 2013.
TRACY, Stephanie. ‘Witchcraft in 16th & 17th Century England‘. Acesso em 15 de outubro de 2013.

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2 comentários sobre “A Bruxaria na Era Tudor

  1. Até hi todos nós gostamos de uma adivinhação,a mim em particular causa medo pela influência que isso possa causar..
    Não é de se estranhar a inocência das pessoas no seculo XVl e até hj vejo cada uma! No nosso seculo tbm está está cheio de “bruxas sociais”…Penso que devia ser mesmo muito dificil a vida de uma mulher, intuição,presentimentos eram tbm considerado bruxaria.
    E o valor dessa moeda com tanto poder ?Possuir uma dessa devia custar muito caro.!

  2. O misticismo em torno da bruxaria e de outras coisas foi sem dúvida uma das coisas mais pitorescas das Idades média e contemporânea!

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