A ceia e as tradições de Natal dos Tudor

Muitos dos alimentos que os Tudor comiam no Natal nós ainda comemos hoje, com algumas modificações, é claro. O Natal era uma época de festas e fartura, e todas as pessoas eram encorajadas a compartilhar sua fortuna com os pobres.

Quem festeja com os pobres uma
verdadeira recompensa deve encontrar
Ou ajude o velho, o coxo ou o cego

Thomas Tusser em seu livro ‘Five Hundred Points of Good Husbandry’ enumera uma série de pratos que boas donas de casa deveriam preparar para seus convidados no Natal. Entre eles, estão carne de carneiro, vitela, porco, souse (pé de porco e orelhas em conserva), queijo e maçãs. Todos esses itens eram associados a festas Tudors, não especificamente só no Natal.

Havia o costume de enfeitar as casas, tanto no exterior como no interior, com ramos de loureiro, azevinho e teixo; durante todo o período das festividades eram conservadas as decorações próprias do Natal. As pessoas do povo também iam cantar de porta em porta, na esperança de arranjarem algum dinheiro das esmolas ou receberem qualquer lembrança. As famílias católicas preparavam um bolo para os pobres e gastavam dinheiro em missas para obter o perdão dos pecados de gula que iam cometer durante as festas.

As celebrações de Natal duravam cerca de 12 dias,mas para as pessoas de mais baixa condição as festividades do Natal começavam mais cedo e acabavam mais tarde, pois se prolongavam para além do Dia de Reis. Apesar disso, rei ou plebeu, você começava o dia com fome: na véspera do Natal não era permitido comer carne, queijo ou ovos, e as semanas antes do Natal era de jejum e na véspera de Natal se comia peixe e não carne. Felizmente, a definição de peixe era moderada: você podia comer gaivotas, uma vez que sua dieta era baseada em peixe.

No dia do Natal, depois que três missas foram feitas, a genealogia de Cristo fora cantada e todos os presentes mantinham velas acesas antes de partir para casa e desfrutar ‘sua primeira refeição sem restrições desde o domingo do Advento, que acontecera quatro semanas antes. Os Tudors não trocavam presentes no Natal: isto acontecia em 1 de Janeiro, no ano-novo.

Os perus foram levados para Inglaterra pelos espanhóis em 1500 (alguns dizem que foram os Turcos, em 1523) e Henrique VIII foi um dos primeiros que os comeu como parte da comemoração do Natal. A popularidade da ave cresceu rapidamente, e a cada ano grandes bandos de perus podiam ser vistos caminhando para Londres vindos de Norfolk, Suffolk e Cambridgeshire, lugares onde eles eram criados e engordados. Curiosamente, era uma tradição remover primeiro a pele do peru, cozinhá-lo e por fim colocar o o couro em volta do asssado.

Em 1541, Henrique VIII fez uma lei proibindo qualquer esporte nos dias do Natal, exceto tiro ao arco. Em 1551, outra lei foi aprovada – desta vez por seu filho, Eduardo VI – dizendo que todas as pessoas teriam de andar até a Igreja no dia do Natal (nada de carruagens!) para assistirem á missa. Talvez a mais curiosa de toda, uma lei aprovada em 1550 dizia que Jesus era tão puro que não precisava se banhar, de modo que todas as imagens do menino Jesus tomando banho deveriam ser destruídas.

Durante a celebração dos Doze dias do Natal os nobres e cortesãos ricos se trajavam o mais ricamente possível para desempenhar seus papéis na corte. É-lhes dado a oportunidade de vestir seus trajes melhores e mais fabulosos. Os cortesãos mais pobres tinham que tentar o seu melhor para manter uma imagem glamourosa – obviamente nunca ousaria ofuscar o rei ou a rainha.

No Natal, o monarca usaria a coroa oficial do Estado, uma enorme coroa de ouro e arminho, uma pele usada somente pela realeza. Neste dia o rei também participava da tradicional ‘disposição das mãos’ – esse ritual transferia o poder de ‘cura’ do rei para aqueles que sofriam de doenças de pele o outras enfermidades.

Em 1520, Henrique VIII se apaixonou por Ana Bolena. Ela era uma convidada importante nas várias celebrações de Natal do rei, no entanto, ela ficava ausenta das celebrações formais. Embora Anne se juntasse a ele nas férias em Greenwich, por um período de três anos ela ficou ‘por trás das portas’ no Natal. Para salvar as aparências, a rainha Catarina de Aragão parecia lado a lado de Henrique nas celebrações de Natal. As coisas só mudaram no ano de 1532, quando Ana era rainha em tudo menos no nome. As celebrações de 1532 foram tão luxuosas que cozinhas temporárias foram erguidas nos jardins do palácio.

A Ceia

Na manhã de Natal, as pessoas do povo iam à igreja e aí entoavam canções piedosas. Depois do serviço religioso, os fidalgos dirigiam-se à sala para almoçar. Nesta refeição comia-se cabeça de porco, temperada com mostarda e vinho de malvasia. Neste dia não havia distinções de classes; senhor e camponês reuniam-se na mesma sala do palácio, jogavam juntos e conversavam um com o outro como se fossem iguais.

A hora do jantar, todos reuniam na casa senhorial e aí festejavam o Natal em conjunto. A refeição geralmente era uma enorme cabeça de javali enfeitada com um limão dentro da boca e disposta numa travessa de prata. O prato seguinte era constituído por empada de pavão, mas conservando tanto quanto possível a forma da ave; coziam-no sem o depenar, apresentando-o com a cabeça erguendo-se sobre a crosta do empadão, magnificamente decorado, erguendo o bico dourado e a bela cauda em leque. Terminada a refeição, retiravam-se todos os móveis da casa de jantar e dançava-se até a madrugada.

Temos muitas idéias erradas sobre como os Tudor comiam. Eles não roiam o osso de frango e jogavam os ossos no chão para os cachorros. Em uma casa bem organizada, os cães – com exceção dos spaniels – eram colocados nos canis nas horas de alimentação. As maneiras à mesa eram rigorosas e refinadas.

Também pensamos, por vezes, que a nação Tudor era deficiente das vitaminas provenientes dos vegetais. O fato é que, por causa das pessoas cultivarem seus próprios legumes esses não apareciam nas contas domésticas. Eles eram comidos, na época, com entusiasmo – Henrique adorava alcachofras – e intricadas saladas eram feitas com muitas camadas nas familias mais ricas.

O bolo típico do Natal Tudor era realmente um espetáculo a ser visto, mas seria impossível para um vegetariano nos dias de hoje poder desfrutá-lo. O conteúdo deste prato era: um pombo dentro de um perdiz dentro de uma galinha dentro de um ganso dentro de um peru, que era então colocado em uma massa e servida com coelhos, aves de caça e aves pequenas.

Em 1588, Elizabeth I convidou a todos a comer ganso em seu jantar de Natal. Foi a primeira refeição consumida após a Armada Espanhola e a rainha acreditava que seria uma boa homenagem aos marinheiros. No entanto, ninguém sabe quantas pessoas realmente comeram ganso, porque a galinha ainda era um luxo caro e previlégio de poucos.

Nos bastidores, os homens da cozinha ficavam perto do calor abrasador dos fornos, enquanto os nobres poderiam até apreciar alguns flocos de neve de suas janelas. Para manejar certos objetos de cozinha era necessário força bruta, de modo que grande parte dos cozinheiros eram homens, apesar de Henrique VIII ter empregado uma mulher que fazia ‘requintes’: essas eram figuras coloridas, douradas, feitas de pasta de açúcar: imperadores, santos, animais selvagens, navios, catedrais. Tudo isso era extremamente luxuoso: o açúcar era muito caro. Estes feitos mais para se ter o prazer de olhar do que o de comer.

Durante os Doze Dias, o povo visitaria seus vizinhos e dividiria e aproveitaria uma torta tradicional. Estas eram tortas de carne picada com frutas também, mas ao contrário de nossas tortas, as deles tinham um significado religioso e continha 13 ingredientes que representavam Cristo e seus apóstolos. Os ingredientes tipicamente consistiam em frutas secas, especiarias e carne de carneiro, em memória aos pastores.

Pudim de ameixa era o início do pudim que conhecemos hoje, mas na época era mais como uma sopa grossa, que era servida no início da festa. Era feita a partir de carne cozida e caldo de carneiro, pão ralado, passas, ameixas secas, vinho, cravo e gengibre, além de outras especiarias. Algumas moedas eram adicionadas no prato para dar sorte. No final do período, as carnes começaram a ficar de fora e se tornou uma iguaria doce.

Como acompanhamento, tinha-se uma bebida chamada Wassail. A palavra “Wassail” vêm do anglo-saxão “Waes Hael”, que significa “boa saúde”. A bebia era colocada numa taça, feita de madeira, que continha a bebida, que era cerveja quente misturada com açucar, especiarias e, por último, pedaços de maçãs. Esta bebida era compartilhada com vizinhos e amigos.

As especiarias também eram muito importantes. Elas eram usadas não apenas para dar mais sabor aos alimentos, mas também como medicamentos e perfumes. Especiarias eram muito caras, porque vinham de terras distantes. Você provavelmente têm em casa especiarias como canela, cravo, cardamomo, gengibre, noz-moscada e pimenta. Laranjas e limões eram caros demais e muito populares no Natal. Duas especiarias que tinham muita conexão com o Natal eram incenso e mirra.

Junto dos alimentos, muitas tradições também ocorriam no Natal:

O Menino Bispo (The Boy Bishop)

Esta tradição acontecia em 6 de dezembro, na festa de St. Nicolas ou em 28 de dezembro, no Dia do Santo Inocente. Um garoto do coro era seleciondo para liderar a comunidade por um curto tempo. O bispo menino iria realizar todas as tarefas, exceto celebrar a missa. Essa tradição existe desde o século X e provou ser tão popular que muitas paróquias de Londres forneciam-lhe vestes elaboradas. Grandes catedrais como York, Winchester, Canterbury, Salisbury e Westiminster adotaram o cosatume, que continuou até 1541, quando Henrique VIII probiu os bispos menino. No reinado de Maria I e Elizabeth I a tradição continuou, e ainda é praticado em algumas igrejas, como Hereford e a catedral de Salisbury.

O Senhor do Caos

Também conhecido como “Rei do Natal”, era uma pessoa que supervisionava o entretenimento e o caos geralmente causado pelas festas. Apesar de ser uma tradição de Natal, eles não se limitavam a esse período e também ocorriam durante as festividades do verão. O Senhor do Caos normalmente era um plebeu com reputação de que ‘sabia como se divertir’. Pensa-se que a tradição se originou dos romanos, que permitiam que seus servos fingissem ser o chefe por um tempo.
Os monarcas Tudor muitas vezes nomeavam o seu o seu Senhor do aos. Henrique VIII nomeu tanto um Senhor do Caos quanto um Abade da Irracionalidade. Henrique VIII também nomeou um “Mestre de Pedidos” para Maria I e Eduardo VI.
A diversão supervisionada muitas vezes eram turbulentas e caóticas. Foi o medo da desordem pública e violência que levaram a tradição a ser desencorajada durante o reinado de Elizabeth.

Queimando o Log Yule

Tradicionalmente, um grande tronco é selecionado na véspera do Natal, decorado com fitas, arrastado para casa e colocado em cima da lareira. Tal madeira era trazida da floresta. Colocavam-no primeiramente no meio da sala e junto dele sentavam-se os membros da família para cantar a sua canção do Natal. Só depois de todos terem cumprido o ritual é que a madeira era rolada para a chaminé e bem colocado no seu lugar. Essa madeira deveria ser ateado com um pedaço da madeira ou junto das cinzas do ano anterior, cuidadosamente conservado para a ocasião. Depois, ele queimaria durante os doze dias do Natal.  Pensa-se que a queima do Log Yule deriva de um ritual de inverno dos invasores Vinking, que construiram enormes fogueiras para celebrar a sua festa. “Yule” já era uma palavra do idioma inglês, que por muitos séculos era um termo alternativo para Natal.

Wassailing

Esta tradição era popular no Natal e era praticado em todos os níveis da sociedade. Embora a maioria das descrições de como era realizado o wassailing (ver descrição do wassail acima) datam os tempos pós-Tudor, há uma descrição sobrevivente do reinado de Henrique VII. Nele, um mordomo e tesoureiro estavam presentes, e de repente um homem entra com uma taça de wassail gritando “Wassel, wassel, wassel!” e os presentes respondem com uma canção.
Alison Weir acredita que a maioria dos wassails eram provavelmente mais divertidos do que grandiosos. A pessoa mais importante na casa tomaria a bebida e depois passaria para os demais, e o pão no fundo voltaria para a pessoa mais importante.

Bibliografia:

SOARES-MCCORMICK, Julia. ‘A Tudor Christmas‘. Acesso em 21 de agosto de 2013.
MANTEL, Hilary. ‘It’s a Tudor Christmas‘. Acesso em 25 de dezembro de 2011.
GRUENINGER, Natalie. ‘Tudor Christmas and New Year Celebrations’, Acesso em 25 de dezembro de 2011.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los Tudor y la Navidad: “Alimentos y Banquetes”‘.  Acesso em 25 de dezembro de 2011.
Food & feasts‘. Acesso em 25 de dezembro de 2011.
JOHNSON, Ben. ‘A Tudor Christmas‘. Acesso em 25 de dezembro de 2011.
LEMONNIER, Léon. ‘A vida Quotidiana em Inglaterra no tempo de Isabel I’.  Tradução de Olinda Fernandes Magro. Lisboa: Edição ‘Livros do Brasil’.

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2 comentários sobre “A ceia e as tradições de Natal dos Tudor

  1. Interessante! Desconhecia por completo a maneira com que os Tudor, festejavam o Natal. Fico-lhe grata por mais essa informação.

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