Diário, 20 de Maio de 1535

stou grávida e dentro de mim cresce uma nova esperança, com a pujança de uma semente na Primavera. Perdoa-me Elizabeth, mas ultimamente as minhas orações são destinadas a implorar que o bebê seja um varão, o príncipe que Henrique tanto deseja e o nosso salvador.
Esta esperança, unida a uma grande vontade de resistir, de sobreviver a esta vida que escolhi, a este destino, fez surgir no meu pensamento um plano que, se chegar a bom termo, restabelecerá o meu poder e a minha posição no trono. Tenho de fazer com que o rei volte a apaixonar-se por mim. Tenho de reanimar o corpo gasto e o coração infeliz da jovem ousada e arrogante, cujos olhos brilhantes atraíram Henrique a um labirinto de desejo e lá o conseguiram reter durante seis longos anos. Tenho de fingir que me inspira luxúria o corpo que outrora parecia de ferro e que, agora, não é mais que uma massa disforme coberta de pústulas. Todavia, mais importante que a paixão física, será convencê-lo de que todos os sacrifícios e cuidados por que passou para me possuir não foram em vão. Que todos os ardis e planos, o divórcio e o seu casamento comigo deram bons frutos e não unicamente a morte de amigos, a sua excomunhão e o ódio dos seus súditos. Pensarei um pouco mais sobre este assunto, delinearei os pormenores da intriga, pois não posso falhar.
Niniane, a mulher-bobo, graceja com a minha gravidez. Dir-se-ia que tinha tido filhos seus para estar tão bem informada de todos os movimentos interiores, estranhos desejos, dolorosos prazeres que este estado provoca. Uma noite em que eu e ela estávamos sozinhas nos meus aposentos, saltou para o meu leito e enrolando-se numa bola, transformou-se no bebé dentro do meu ventre, soltando vagidos, dando pontapés exigindo mimo que lhe desse maçãs, doces recém feitos e lhe cantasse canções de embalar.
– Sou o pequeno príncipe! – gritava ele (ou ela por ele). – Sou o príncipe e futuro rei de Inglaterra e estou cansado da escuridão. Trazei-me luz! E doces! E jóias, e ouro, pois sou filho de meu pai e desejo, acima de tudo, ser rico!
Mestre Holbein desenhou o meu retrato, sem que lho solicitassem. Embora ninguém me dissesse, percebi que não me tinha favorecido absolutamente nada, antes pelo contrário: o rosto inchado pela gravidez, o cabelo dentro de uma touca. Apenas Niniane ao vê-lo exclamou:
– Quem é esta porca parideira, com tantos queixos? Decerto não se trata de Sua Majestade, que é dona de um pescoço de cisne!
Quando afirmei que, de fato, era eu, agarrou no ofensivo desenho e dançou em volta do aposento entoando uma estranha melodia em que exigia que Holbein fosse punido por aquela traição: deveriam pendurá-lo pelos polegares em Tyburn, completamente nu e enfiarem-lhe o ofensivo retrato pelo traseiro acima. Oh, como me faz rir. Por outro lado, à sua maneira desequilibrada, procura em mim amizade, pois diz a verdade com o seu humor atrevido, rara qualidade, que muito poucos querem partilhar comigo.
Todas as perguntas que faço a Niniane acerca da sua vida passada ficam sem resposta, pois rodeia-as e diz piadas, mantendo intacto o mistério da sua história. Muitas vezes me interrogo acerca desta estranha e invulgar mulher, que mostra também grande inteligência e laivos de bondade. Como chegou a esta vida? Quem será a sua família? A sua classe? Talvez um dia me diga.

Afetuosamente,
Ana

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Um comentário sobre “Diário, 20 de Maio de 1535

  1. Por essa ocasião, Ana já não se encontrava tão segura da sua escolha e, sem o saber, seguia por um caminho sem volta. Lamentável! Mal sabia ela, que seus sonhos não se realizariam e, que no mesmo mês e dia de maio do ano seguinte, não mais haveriam esperanças e sonhos a serem compartilhados. E Niniane, é um personagem fictício? Nada se soube sobre ela, após a execução da rainha Ana.

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