Diário, 7 de Junho de 1535

 minha estrela voltou a reluzir e sou o único amor de Henrique. Propicia-me mais cuidados que nunca, mantém-me perto de si em todas as circunstâncias. Dir-vos-ei como tal aconteceu: primeiro a criança que trago no ventre arredondou-me as faces encovadas e deu-me um ar saudável. Apaguei com várias aplicações de mercúrio as rugas que já me tinham aparecido em redor dos olhos e da boca, pois embora corrosivo e prejudicial para a pele, fez maravilhas e deixa-me o rosto liso. Disfarcei a palidez com uma fina camada de pó de chumbo, depois um toque de alúmen para conseguir um tom rosado nas faces e cochonilha para os lábios. Todos estes cuidados fizeram-me parecer mais jovem e bela do que antes. Pus de lado redes e toucados e soltei o cabelo pelas costas, como usava nos tempos do nosso namoro. Escolhi as suas cores favoritas para os meus vestidos, vermelho vivo, rosa, negro brilhante, verde-esmeralda. Entre as Jóias escolhi aquelas com um valor sentimental, por terem sido presentes seus, quando o nosso amor florescia. Paguei uma fortuna por diversos perfumes franceses, óleos para o banho e cremes e sempre que saía parecia flutuar numa nuvem de fragrâncias.
Foi assim que me apresentei ante o rei, a princípio durante breves instantes ao passar por um aposento cheio de gente, onde ele se encontrava. Não falava, mas lançava-lhe um sorriso sedutor, um olhar de lado, de admiração pela sua pessoa. As celebrações do Dia de Maio ofereceram-me uma bela oportunidade para brilhar. Fui escolhida para rainha dos festejos e levava um vestido coberto de flores de seda. Na representação executei uma dança alegre e uma canção que todos aplaudiram com sinceridade. Satisfez-me ver os olhos do rei fixos, não na sua amante mas, com uma expressão orgulhosa, na sua esposa. Quando agradeci, fiz a reverência na sua direção, olhei-o nos olhos e percebi que me pertencia de novo. Quando o baile começou, atravessou a sala para me pegar na mão e, enquanto dançámos a galharda, saltou de novo como um jovem veado. Percebi que se sentia feliz, de modo que, nessa noite, fiquei a aguardá-lo nos meus aposentos e, conforme supusera, o rei veio procurar-me.
Enquanto lhe servia vinho aromático diante da lareira acesa, reuni toda a minha coragem e mostrei-me ousada com ele, tal como fizera antes que o amor e o casamento me tivessem enfraquecido. Ao mesmo tempo que lhe massajava as têmporas disse-lhe que se pensasse bem descobriria que estava unido à minha pessoa como nenhum outro homem o estava a uma mulher. Que o tinha arrancado a um estado de pecado que era o seu casamento com Catarina e que, sem mim, nunca teria reformado a Igreja. Além do mais, com essa reforma, tinha recebido todas as riquezas dos mosteiros e era agora o príncipe mais rico que alguma vez existira em Inglaterra.
Escutou-me com atenção, refletindo nas minhas palavras e ordenando mesmo que prosseguisse, o que fiz imediatamente. Entreguei-lhe a minha escova para que fizesse como quando éramos jovens e ele escovou-me o cabelo até este parecer um pano de seda negra. Dísse-lhe que a sua virilidade nos concedera uma nova oportunidade de termos o nosso príncipe. E depois, como mestre Holbein, pintei um quadro em que Henrique e eu estávamos de um lado, como aliados, enquanto do outro se encontravam todos os nossos inimigos. O traiçoeiro Imperador, os volúveis franceses, o beligerante Papa, a traiçoeiramente teimosa Catarina e Maria que, por trás das costas do pai, continuava a tentar reunir um exército de revoltosos. Disse-lhe que ele e eu tínhamos sido separados por forças cruéis que nunca compreenderiam a fortaleza da nossa união. A seguir beijei-o, avivando a paixão do rei e do homem que dentro dele existia. Não precisou de mais incentivo, arrancou-me o vestido e levou-me para a cama.
Como havia pouco tempo tinha visto o seu corpo, não foi para mim uma surpresa a sua obesidade, nem as varizes salientes e as chagas purulentas que lhe cobriam as pernas e as coxas. Até então, nunca fingira sentir desejo por ele e limitara-me a voltar a cara e a deixá-lo servir-se de mim o mais rapidamente possível. Contudo, nesse momento, recorri a toda a minha decisão e fiz amor com ele. Foi um teste à minha capacidade de representar pois, honestamente, já não me resta qualquer afeto por este animal a quem chamo esposo.
Uma vez satisfeito, o rei ficou em êxtase, cheio de esperanças pelo nosso futuro, pelo seu filho varão e pela glória de Inglaterra. Pronunciou de novo o meu nome com grande ternura e alegrei-me em silêncio, por ter conseguido, sozinha e mais uma vez, alterar o meu destino. Com a minha filha nos braços, Deus seja louvado, afastei-me do negro abismo que nos atraía. Jesus está certamente connosco.

Afetuosamente,
Ana

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3 comentários sobre “Diário, 7 de Junho de 1535

  1. Excelente! Sempre aguardo ansiosa por esse maravilhoso diário!
    Fico pensando no sacrifício que fazia a pobre Ana, para manter-se como rainha e dar a Henrique VIII, o tão esperado e desejado filho varão.

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