Diário, 10 de Agosto de 1535

ste Verão, Henrique levou consigo nos seus passeios a sua rainha, de ventre cada vez mais arredondado e a quem trata com a maior deferência. Como noutros tempos, fico a seu lado durante as caçadas, vemos os veados correrem, disparamos juntos, bebemos cerveja à tarde e divertimo-nos mais do que em muitos anos.
Nos condados de Winchester e Hampshire recebemos boa e graciosa hospitalidade dos nossos nobres súbditos em diversas mansões, castelos e pavilhões de caça. E embora fortes chuvadas nos tenham roubado dias de falcoaria, não tivemos de enfrentar multidões furiosas a ensombrarem a nossa viagem de prazer. Tenho esperança de que isto seja o prenúncio da aceitação da minha pessoa e da princesinha, porém diz-me o coração que é o medo da mão de Henrique que obriga o povo à submissão e o torna mais cordato.
Mesmo assim, esperavam-nos outro tipo de prazeres. Os mosteiros de Rochester e Dunst abriram perante o rei os seus tesouros de objetos religiosos. Grandes e pesadas cruzes de ouro, finas tapeçarias, mitras cravejadas de pedras preciosas, báculos, cálices para a missa; tudo aquilo, obscenamente rico e desnecessário para adorar a Deus, foi levado para Londres pelos homens do rei, como se fossem despojos de guerra.
Talvez aquelas novas riquezas tivessem dado volta à cabeça de Henrique, pois agora fala abertamente contra essas duas pedras espanholas que, como mós de moinho, tem penduradas ao pescoço.
– Não mais sofrerei atribulações, receios ou ansiedades por causa da antiga rainha ou de lady Maria – ouvi-o dizer a Suffolk. – Vereis como o próximo Parlamento me libertará delas. Não espero mais!
Abstive-me de intervir, pois parece que o rei não precisa de mais nenhum incentivo para as mandar executar. Ah, como seria bom que essas duas feras desaparecessem deste mundo, ficando a minha Elizabeth livre do seu veneno. Rezo para que Henrique não vacile e chegue até ao final, como quando fez de mim rainha! Se assim for, o nosso futuro estará assegurado.
Agora, alojados em Wolfe Hall no condado de Wiltshire, perto de Cales, sentimo-nos perfeitamente em casa na mansão da família Seymour. Thomas e a sua fértil esposa Margaret inspiram-nos com a sua fecundidade, pois têm dez filhos vivos – cinco meninas, cinco varões. Edward foi o Mestre do Corpo de Henrique há alguns anos e sua irmã Jane – vulgar e apagada – dama de companhia de Catarina. O irmão falou por ela, demasiado tímida para nos pedir um lugar na corte. Henrique deixou bem claro que desejava agradar a Edward, de modo que terei de arranjar a este rato um lugar entre as minhas aias.
Não minto se disser que tenho desfrutado deste Verão, mas que prefiro regressar às comodidades de casa e da corte já que tenho de levar esta gravidez a bom termo e garantir o nascimento da criança.

Afetuosamente,
Ana

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4 comentários sobre “Diário, 10 de Agosto de 1535

  1. “esse rato” “vulgar”…. Isso é um sentimento de inveja ou será q a queridinha do rei era assim mesmo? XD

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