Diário, 5 de Dezembro de 1535

ão posso crer na última traição de Henrique. Transformou o rato em sua amante! Fui substituída pela minha tímida e recatada aia Jane Seymour. Ninguém a acha formosa, apenas uma figura gorducha e apagada, com uma voz que não se consegue ouvir, de tão baixo que fala. Também não parece ser muito inteligente. Mas não importa, seu irmão Edward pensa por ela. Henrique está encantado, de um modo como nunca antes o vi, exceto quando estava apaixonado por mim. Mas como poderá esta mulher pouco interessante despertar tal paixão no rei? Decerto que o romance é obra de Edward, para conseguir um bom lugar junto do rei. Receio que o meu inconstante primo Francis Bryan e também Nicholas Carew façam parte da conspiração. Não haverá um cortesão leal? Julgo que não. Puseram Jane a representar o meu antigo papel amoroso – tentando Henrique com pequenas provocações, tímidos sorrisos, promessas de submissão que levam, não ao leito, mas a castos beijos e promessas de muitos filhos varões.
Tenho de admitir que perdi a paciência com este rei mulherengo e não consigo esconder o meu desagrado. Não deixo de o vituperar em público e em privado. Quando ele diz “sim”, digo “não”, só pelo prazer de o contradizer. Descobri novos modos de o irritar e de troçar daquele pomposo monte de carne, rindo-me dos seus horríveis escarpins e dos seus fatos ofensivamente cobertos de pedrarias, sempre a aumentar de tamanho, que o cobrem como a uma parede. Ordenou a todos os seus homens que rapassem a cabeça e deixassem crescer a barba e assim, utilizando a observação de Niniane, anunciei, em voz bem alta, durante um jantar, que o rei parecia uma bola de bilhar barbuda.
Insulto também Norfolk, há muito meu inimigo, mas que agora me calunia nas costas. Diz-se que se queixou de eu me ter dirigido a ele com um tom que nem se usa para falar com os cães. Porém, Niniane, quando ouviu isto, afirmou que meu tio Norfolk se deveria sentir honrado pois eu tratava os cães melhor que a maior parte das pessoas. Quanto à senhora Seymour que, outro dia, surpreendi a namorar descaradamente o rei, sentada no seu colo, dei-lhe uma sonora bofetada e fiz-lhe um enorme arranhão no rosto.
Henrique tolera as minhas atitudes com uma estranha serenidade que preocupa meu irmão George, pois considera ser esta a calma antes da tempestade. Porém, parece que um estranho demónio me domina e não consigo conter as minhas ousadias. O Deus cruel que decidiu o meu destino, será o juiz que dite outros castigos, pois a luva foi lançada e a batalha começou.

Afetuosamente,
Ana

Anúncios

Um comentário sobre “Diário, 5 de Dezembro de 1535

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s