Diário, 28 de Janeiro de 1536

assou-se aquilo que eu mais temia. Abortei o meu salvador, pois a carne ensanguentada que expeli do meu ventre, era certamente um varão.
A grande celebração pela morte de Catarina durara semanas. Henrique não permitiu o luto na corte, nem em público. Festas, bailes, representações, até missas foram ditas em sinal de alegria e os que amavam a rainha tiveram de lamentar em segredo a sua morte. Realizou-se uma justa, porém procurei sossego longe da ruidosa multidão e recolhi aos meus aposentos com Margaret Lee e Niniane, que nos divertiu cantando versos e canções de Chaucer.
De repente, ouvimos um ruído como se os soldados se tivessem aproximado da minha porta e, assustadas vimos meu tio Norfolk irromper pela calma da tarde com desagradáveis notícias. O rei jazia como morto no pátio, caído da montada durante a justa e esmagado pelo pesado corpo do cavalo! Senti a mão fria do medo apoderar-se dos meus membros, cabeça, ventre e toda a energia se escoou das minhas veias. Margaret afirma que fiquei com uma palidez de morte e tentou consolar-me. Porém Norfolk, como uma víbora maligna picou-me o coração com as suas duras palavras. Se Henrique morresse eu estaria perdida com toda a certeza, pois não havia ninguem leal a Elizabeth que apoiasse a sua sucessão ao trono. Se eu lutasse por ela e me declarasse regente, decerto se seguiriam grandes discórdias e uma guerra civil. Entretanto, já eu lamentava a súbita perda de Henrique, ao mesmo tempo que sentia um grande alívio com a morte do animal que tinha por marido. Logo a seguir Norfolk retirou-se sem se dar ao trabalho de fazer a devida reverência, pois já não me considerava sua rainha.
Aturdida, mortificada, atormentada por terríveis presságios comecei a tremer descontroladamente. Margaret e Niniane tentaram animar-me, para deter os tremores, consolar-me com palavras bondosas, mas tudo o que eu desejava era ter Elizabeth nos braços, pois o perigo rondava-nos como uma trupe sombria de macabros saltimbancos. Margaret retirou-se, prometendo que Elizabeth me seria entregue e que mandaria também vir alguns homens que me fossem leais.
Contudo, quando chegaram – Wyatt, Norris, Weston – trouxeram-me a notícia de que o rei estava vivo! De fato tinha estado inconsciente durante duas horas, mas voltara a montar o cavalo e desejava continuar a justa. Pois bem, recolhi-me ao leito por pura exaustão de espírito. Embora Niniane tenha conseguido provocar algumas gargalhadas apesar de tão perversas ocorrências, de novo empalideci e senti que as forças me faltavam. No dia em que o corpo de Catarina foi sepultado, o sangue correu entre as minhas coxas e o bebê morreu dentro do meu ventre. A parteira examinou o feto e declarou que parecia ser um varão. Disseram-no a Henrique que surgiu nos meus aposentos feito uma fúria ainda maior do que no dia em que Elizabeth nasceu.
– Vejo claramente que Deus não deseja dar-me filhos varões – afirmou num tom extremamente frio, mas sem erguer a voz. Respondi-lhe que não fora obra de Deus e que o nascimento prematuro tinha ocorrido depois de eu ter recebido a notícia da sua morte, brutalmente dada por Norfolk; porém nada o comoveu. Não levou em conta o meu estado de fraqueza, nem a minha perda, só a sua. Retirou-se do aposento sem se dignar olhar para trás, dizendo que falaria comigo quando me encontrasse recuperada.
Margaret Lee mantivera-se fielmente junto a mim e rompeu a chorar quando o rei saiu. Desejei poder acalmá-la dizendo-lhe que haveria de ter outros filhos, mas ela mostrou-se inconsolável e contou-me os seus receios. Toda a corte murmurava que Henrique afirmava agora ter sido seduzido por meio de feitiçaria praticada por mim e que o nosso casamento não tinha validade. Dizia que Deus lhe mostrara a verdade impedindo-o de ter filhos e que desejava desposar a virtuosa Jane Seymour. Feitiçaria! Como se eu fosse bruxa! As poções que usei para lhe mitigar as dores, a magia dos meus dedos que lhe aliviavam as dores de cabeça… Tudo isso acabaria por se voltar contra mim. Vi que o meu destino não era melhor que o de Catarina e o de Elizabeth seria igual ao de Maria. Vi-me repudiada, com uma filha bastarda, enviada para um lugar triste e distante, onde nem poderia receber o consolo e a visita de outras pessoas.
Senti as pernas fracas, o coração pesado. Recolhi ao leito, sem vontade de o abandonar. Que nos irá acontecer?

Afetuosamente,
Ana

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3 comentários sobre “Diário, 28 de Janeiro de 1536

  1. Muitas vezes chego a pensar que o destino foi totalmente ingrato com Ana Bolena.
    A princípio parecia lhe prometer verdadeiramente uma vida de rainha, mas logo tudo não passou de um grande equivoco.

  2. Talvez Ana tivesse Eritroblastose fetal. Acontece quando a mãe, por exemplo, é de sangue A+ e o bebê é de A- por influencia paterna. Apesar do bebe produzir seu próprio sangue os dois tem contato com o sangue um do outro, e A+ e A- não são compatíveis,porém nada interfere nesta gravidez. Mas o sangue da mãe para uma próxima gravidez terá produzido um anticorpo contra aquele sangue, que o fará expelir a criança.

  3. Pobre Ana, como o destino foi injusta com você, tinha tudo para ter sido diferente para todos!

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