Diário, 6 de Fevereiro de 1536

ue dia tão triste. Morreu o meu querido Ptirkoy. Foi Henrique que me deu a notícia com a mesma indelicadeza com que meu tio Norfolk me participara a morte do rei. Rezava eu com o meu capelão Matthew Parker, quando Henrique entrou de rompante nos meus aposentos para me dizer que ia para Londres festejar a terça-feira de Entrudo e que desejava que eu ficasse em Greenwich. Implorei que me deixasse acompanhá-lo, pois Elizabeth estava alojada em Londres e desejava vê-la. Recusou o meu pedido e também não quis levar uma lista de medidas para várias toucas de seda que desejava que fossem feitas para a princesa. Declarou com toda a crueldade que ela não precisava de toucas tão finas e perguntou-me se eu não tinha mais nada que fazer com o meu tempo do que escrever listas tolas, de coisas que não tinham qualquer utilidade.
Irritei-me ao ouvir tais comentários acerca de nossa filha e deitei-lhe em cara que o seu amor inconsistente dava azo a que outros mostrassem abertamente a sua deslealdade. Até mesmo mestre Cromwell tirava a boina ao ouvir o nome de lady Maria. Henrique não respondeu a isto, pelo menos de modo satisfatório e fez menção de se ir embora. Porém peguei-lhe num braço e disse-lhe algumas verdades da sua nova amante, lady Jane.
– Está a brincar convosco, Henrique, tal como eu fiz. Afinal, imita os meus artifícios. Ouvi dizer que não aceitou a bolsa de soberanos de ouro que lhe haveis oferecido, não foi Henrique? Não é verdade que afirmou que sentiria a sua honra e virtude manchadas se aceitasse um tal presente sem ser vossa legítima esposa? Sereis tão cego que não possais ver que tem dois irmãos inteligentes que, através dela, buscam honrarias para si próprios?
– Contende essa língua viperina, senhora, para não ter de ser eu a remeter-vos ao silêncio.
– E como o faríeis, Henrique? Com o divórcio? Enviando-me para um convento?
– Não abuseis da minha paciência, Ana, que já pouca me resta. – Mesmo assim arranjei coragem para o enfrentar e olhei-o fixamente nos olhos.
– Nunca vos amei, Henrique. Nem uma única vez, nestes últimos dez anos. – A boca dele estremeceu, porém manteve o queixo firme enquanto eu lhe espicaçava o orgulho com um sorriso malicioso. – Haveis pensado que tinha sentido amor por vós? Claro que sim.
A cor subíu-lhe ao rosto gordo quando pronunciei estas falsas palavras, pois como sabeis, Diário, amei-o uma vez, antes de me ter entregado a ele. E em Calais, no Inverno a seguir. Porém, nesse momento não lhe dei a satisfação de falar desse amor.
– Ide ter com a vossa amada de cara de cavalo – gritei. – Possuí-a! Mas podeis retirar dos vossos pensamentos a ideia de que Ana Bolena alguma vez amou Sua Graciosa Majestade. Porque nunca tal aconteceu. Nunca! –
Ele fixou-me com o seu terrível olhar e, nesse momento, pensei que fosse erguer a mão para me matar com pancada.
– O vosso cão morreu – preferiu dizer. Depois sorriu. – Que pena, pois era certamente o vosso súdito mais leal.
Não cheguei a ver Henrique partir pois imediatamente as lágrimas cegaram-me. Lágrimas que teve a satisfação de saber ter sido o causador.

Afetuosamente,
Ana

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