Diário, 9 de Abril de 1536

or um breve tempo julguei que, mais uma vez, tudo estava bem. O embaixador Chapuys trouxe uma mensagem do Imperador. Nela mostrava interesse em negociar um tratado comigo e com Henrique, agora que a morte de Catarina retirara um enorme obstáculo do nosso caminho para uma possível aliança. Agradou-me que desejasse falar também comigo, pois mostrava o respeito que Carlos tinha por mim como rainha. Este plano espanhol agradou de sobremaneira ao secretário Cromwell, que ultimamente considerava os franceses aliados fracos e de pouca confiança. Ainda para mais,julgo que se preocupava que um dia a Inglaterra pudesse ver-se sozinha contra Espanha e França. Assim, marcou-se uma ronda de conversações e festejos em honra de Chapuys.
Henrique não tomou qualquer medida para me excluir destes planos, de modo que fiz grandes preparativos para um jantar privado, após a missa a que assistiriam os grandes nobres do reino e Chapuys como convidado de honra, na esperança que algumas questões importantes pudessem ser resolvidas à minha mesa. Correu tudo bem durante a missa em que o arcebispo Cranmer pronunciou um sermão de marcado conteúdo político e em que o embaixador correspondeu, complacente, aos meus sorrisos. Porém, quando chegou o momento de Chapuys se dirigir aos meus aposentos, Henrique requereu a sua presença e a dos membros do seu Conselho Privado e deixou-me a presidir a uma festa vazia, cujo prato principal foi a minha humilhação.
Afinal, o rei nunca aceitou os termos de Chapuys, pois este exigia em primeiro lugar que Henrique se submetesse ao Papa e em segundo que legitimasse a sua bastarda Maria. Cromwell, furioso por ver destruídos os seus próprios planos, retirou-se indisposto e há cinco dias que se recolheu ao leito na sua residência. Receio que o seu desconforto seja a minha única consolação em todo este assunto.
Henrique pouco amor demonstra por Elizabeth e nem se incomoda em fingir qualquer consideração por mim. Julgo que os meus dias na corte estejam contados e várias das minhas aias atreveram-se a falar-me de conventos distantes, onde uma rainha deposta pode encontrar abrigo.
Ultimamente pouco há que me console. Apenas a doce música de Mark Smeaton e as graças de Niniane são bálsamo para a minha alma ferida.
Rodeiam-me ainda alguns amigos fiéis: Thomas Wyatt, Henry Norris, Francis Weston. Bem sei que lisonjas e galanteios não têm ardor romântico – já não sou bela – mas são sim a expressão de uma corajosa constância e do amor cortês. Esta bondosa atenção fez-me sentir por eles uma apaixonada e profunda afeição, mais do que a que senti por Percy ou Henrique e mais rara que a que devoto a Elizabeth, pois esta está ligada a mim por um vínculo de sangue. A amizade é a mais bela flor, a dádiva de um coração abnegado a outro. Sempre me sentirei grata por isso.
Pouco afeto sinto pela maioria das mulheres, pois sempre me detestaram e desconfiaram de mim, mas Margaret Lee é mais do que minha irmã Maria. Como me amima! É Dama do Corpo da Rainha e é seu dever cuidar de mim, mas sei que se esmera a escolher as roupas que devo usar por mais me favorecerem – cor, estilo e corte que melhor me fiquem. Arranja-me os vestidos, aquece-me as mãos e os pés, massaja-me as têmporas quando me dói a cabeça, tudo com tal ternura que por vezes me comove.
E o meu doce George. Nenhuma mulher teve alguma vez um irmão melhor. Partilhamos recordações das nossas vidas desde que éramos crianças. Continua a troçar de mim e quando rimos juntos, todos os cuidados e desgostos do presente desaparecem como que por magia. Fecho os olhos e vejo-o, subir a escada de caracol para ir ao meu quarto em Hever Castle onde, em surdina, as nossas vozes infantis planeavam grandes guerras e tolas brincadeiras.
Lembro-me de um Outono que passamos em Edenbridge. Um dia fez uma coroa de flores, colocou-a na cabeça e nomeou-me Rainha das Folhas. “Ajoelhai pois sou a vossa soberana!” exclamava eu, imponente, enquanto, em meu redor, caíam milhares de folhas vermelhas, douradas e alaranjadas. “Poderosa Majestade” exclamava George “vede como vossos súditos se curvam perante vós!” Depois soltávamos enormes gargalhadas até o ventre nos doer. Já fui Rainha de Inglaterra. Agora sou apenas a Rainha das Folhas.

Afetuosamente,
Ana

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4 comentários sobre “Diário, 9 de Abril de 1536

  1. Tão belo e ao mesmo tempo tão triste! Nesse texto, sente-se a frustação, o temor e as lembranças de Ana Bolena. Texto lindo mesmo!

  2. Devo dizer que esse foi um textos mais bonitos do Diário. Super comovente, é como se Ana soubesse o que a esperava porque é como se ela estivesse relembrando suas memórias antes de partir. “Já fui Rainha de Inglaterra. Agora sou apenas a Rainha das Folhas”, frase impactante e dolorosa. Pobre Ana, apenas consigo pensar isso.

  3. Me arrepio de pensar no que vem a seguir… como essa mulher sofreu, lutou, foi forte!
    Como ela influenciou a história!
    Fico boquiaberta quando as vezes debato com alguém sobre ela e a pessoa minimiza Ana…diz que ela não foi tão importante assim na história (tem aquela visão de Ana como a meretriz)… Meus Deus! Pra mim, ela mudou os rumos da Inglaterra de uma forma tão profunda e constante que, não fosse ela, a Históia hoje estaria completamente diferente.

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