Diário, 13 de Maio de 1536

ecuperei a lucidez, mas o mundo que vejo em meu redor é um local tão aterrador que me sinto tentada a regressar à loucura. Prenderam George, meu irmão, acusando-o de ser meu amante. Nós, incestuosos! Espanta-me tanto empenho da parte de Henrique, apenas para possuir essa mulher vulgar. Francis Weston e William Brereton são também acusados do mesmo delito e reuniram-se a Mark Smeaton e a Henry Norris na Torre. Até mesmo Thomas Wyatt e Richard Page foram presos por essa razão. Meu Deus, não posso permitir que estes bons homens estejam a sofrer pela loucura que foi a minha vida. A toda a hora suplico às minhas carcereiras que me informem sobre o meu destino, mas estas limitam-se a contar os mexericos que sabem me vão fazer sofrer. Dizem-me que, todas as noites, Henrique se desloca de barcaça à residência dos Carews, onde se aloja a senhora Seymour para aí se divertir e aguardar o meu julgamento e condenação à morte.
Roguei a lorde Kingston que leve as minhas cartas ao rei e ao secretário Cromwell, mas o alcaide recusa-se, dizendo que apenas poderá transmitir recados orais a partir da Torre. Sei que é fiel à princesa Maria, como anteriormente o foi a Catarina, de modo que não me conferirá favores que possam reabilitar-me. Tenho de encontrar um modo de comunicação com os meus acusadores, para que saibam que não me considerarei culpada desses delitos, nem de outros, provenientes de mentiras ou de corrupção e dizer-lhes também que nenhum homem honesto poderá declarar contra mim.
Nunca mais recebi uma palavra de meu pai ou tive notícias dele e não sei se foi igualmente acusado de crimes de traição e se encontra detido. Nem imagino se será um dos que me acusam. Com a desgraça que caiu sobre a cabeça da filha e do filho, qualquer homem se sentiria desanimado e morreria de vergonha. Não obstante, suspeito que meu pai, se não está implicado, já arranjou maneira de usar a nossa queda em seu proveito.
O pouco consolo que aqui encontro devo-o à sobrinha de lorde Kingston, a senhora Sommerville que veio integrar o número das minhas carcereiras. Esta senhora já não é muito jovem, nem é bonita, mas tem uns olhos calmos que parecem sossegar tudo em seu redor. Para irritação de seu tio e das outras senhoras trata-me com a delicadeza devida à rainha que ainda sou. Dou por mim a desejar os poucos momentos em que estamos sós, para falar com ela com sinceridade e sem receios e nessas ocasiões posso escrever-vos. Embora não me dê falsas esperanças acerca da minha libertação ou que seja ilibada das acusações que me fazem, oferece-me a esperança da felicidade no paraíso, para o caso de vir a morrer, pois jura não conhecer mulher melhor do que eu. Consola-me ainda de outras formas – lê-me as Escrituras, deixa-me falar da minha Elizabeth e conta-me histórias dos seus filhos. E, Diário, escova-me o cabelo, com todo o prazer. Esta pequena atenção faz-me por vezes chorar, pois fá-lo com toda a ternura, como dantes Henrique costumava pentear-me.
Já pensei em pedir à senhora Sommerville que me ajude a enviar as cartas para fora da Torre, mas não tive coragem. Acredito que não quereria recusar e um tal acto poderia pôr a sua vida em risco, por minha causa. Até os meus pedidos para me confessar ao arcebispo Cranmer têm sido cruelmente ignorados. Por vezes receio não voltar a ver um rosto bondoso e familiar.

Afetuosamente,
Ana

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4 comentários sobre “Diário, 13 de Maio de 1536

  1. Era bastante gentio e generosa, a verdadeira Ana ñ tem nada a ver com essas das séries :-D. Que Rainha Ana possa descansar para sempre no Paraíso. Valeu Maria Helena, Deus lhe abençoe! Você também é autora da página Era Vitoriana?

  2. “Espanta-me tanto empenho da parte de Henrique, apenas para possuir essa mulher vulgar. ” – ora ora….

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