Diário, 15 de Maio de 1536

 meu destino transformou-se num pesadelo atroz. Vou morrer acusada de enganar Henrique, condenada pelos meus pares, devido a uma abominável mentira. Apenas uma mentira. O meu esposo, meu amigo e amante de dez anos vai assassinar-me publicamente a sangue-frio… e ninguém porá objecções. Como pode ser? Como chegaram as coisas ao ponto de todos os lordes ingleses terem abraçado o mal com tanto fervor que executam uma dama para que o marido se possa casar com outra? É certo que Henrique não é um marido vulgar. É o rei. O sol. Um Deus na terra. Mas eu conheço-o e a verdade é que Henrique não passa de um homem colocado no trono por outros, por meio de guerras, matanças e sede de poder. Esta é a verdade que conhecem e os degrada e o mesmo se passou com seus pais e com os pais de seus pais. Do mesmo modo que um molho picante não pode ocultar o sabor da carne podre, também as armadilhas da corte são incapazes de disfarçar os instintos básicos que governam o coração dos nobres ingleses.
Hoje, todos os que sobreviveram a essas matanças, sentam-se como abutres esfomeados sobre as carcaças dos caídos. Muitos pares de olhos, negros e brilhantes, observam, rapaces, o festim. Os haveres dos que foram condenados comigo – rendimentos e rendas, tapeçarias, roupas, móveis das casas ricas – serão disputados como carniça pelos seus bicos ávidos.
As famílias renegam os condenados, pois é insensato mostrar afecto pelos traidores, ainda que sejam do mesmo sangue. E sei que meu pai não é um homem insensato. Thomas Bolena nunca será confundido com um capitão que se recusa abandonar o navio afundado. Oh, não, nada disso. Dizem-me que no julgamento de Weston, Norris, Breyerton e Smeaton ajudou a condená-los por adultério com a sua própria filha. E diz-se também que se ofereceu para servir de testemunha no meu julgamento e no de George, mas que no fim o pouparam à indignidade. Julgo que se lá se encontrasse nos teria considerado culpados tal como o fizeram vinte e seis dos meus pares. Tudo porque meu pai aprecia demasiado o seu pescoço para poder amar traidores. Também não quero julgar-me melhor do que realmente sou. Meu pai nunca gostou de mim. Nem sequer me via, eu era apenas uma rapariga para utilizar, uma rapariga inteligente, com alguma beleza e ousadia e força de vontade próprias de um homem. Certamente o mortificou que sua filha mais nova se tivesse atrevido a arrebatar-lhe das mãos as rédeas e ousasse cavalgar o rápido alazão da sua vida, em direcção à glória e à desgraça. Nunca me amou.
Tenho de descrever o meu julgamento, pois fará parte da história e embora neste momento, seja perigoso para qualquer ser dar uma versão diferente da imposta por Henrique, um dia saber-se-á da infâmia deste tribunal e da grosseira injustiça por ele cometida. Os meus amigos compareceram perante os seus pares no dia 12 de Maio e foram todos considerados culpados de traição – por terem tido relações carnais com a rainha e por terem conspirado contra a vida do rei. Vão sofrer uma morte horrenda, castigo guardado apenas para os traidores e hereges. Três dias depois desta condenação foi a vez da minha.
Conduziram-me desde os meus aposentos na Torre Verde para o cinzento e antigo edifício onde se situa o salão do rei. Quando entrei, vi que se tratava de um vasto aposento, capaz de albergar as duas mil pessoas que já lá se encontravam para a grande ocasião que era o julgamento de uma rainha acusada de traição. Na sala a abarrotar de gente, encontravam-se, lado a lado, o alcaide de Londres e os seus edis, inúmeros cortesãos, vários embaixadores estrangeiros, com os seus escrivães acocorados ao lado, nobres rurais com as suas esposas, que certamente lhes teriam implorado vir a Londres para não perderem tal espetáculo, e uma chusma de populares para verem fazer justiça à Grande Prostituta que havia tanto tempo odiavam.
Abriram-se alas para me deixar passar. Fingindo um triunfo imaginário, endireitei os ombros e ergui o queixo, mais do que em qualquer outra ocasião. As minhas aias, excepto a senhora Seymour, apropriadamente ausente, mais pareciam pássaros de colorida plumagem. Porém elas, que sempre tinham formado um alegre bando em meu redor, estavam agora separadas, sob a protecção de suas famílias ou entre grupos de novos amigos.
Margaret Lee agarrava-se ao braço de Thomas Wyatt com uma estranha expressão que não era mais que um misto de alegria e desgosto pela recente libertação de seu irmão e pela minha omnipresente desgraça. Wyatt parecia profundamente triste e, em silêncio, agradeci-lhe ter-me oferecido este Diário, o amigo mais leal que tive em toda a minha vida.
Niniane colocou-se à minha vista, quando passei. E talvez influenciada por aquela ridícula ocasião, foi precisamente ela, o meu bobo, a única pessoa a quem falei em toda a multidão.
– Niniane – disse e detive-me junto a ela que, espantada, esboçou um malicioso sorriso e se aproximou mais de mim.
– Creio que querem dar-vos outro nome – murmurou.
– E que nome será? – perguntei.
– Rainha Ana Sem Cabeça, Majestade.
– Será um nome muito bem escolhido – disse eu, retribuindo-lhe o sorriso.
– Adoro-vos, senhora – disse. – O meu coração de bobo sentirá eternamente a vossa falta.
Prossegui o meu caminho. Ali, diante de mim, em duas filas junto à barra, envergando as vestes escarlates, encontravam-se os vinte e seis pares de Inglaterra, de expressão grave no rosto. Entre eles vi Henry Percy de Northumberland, pálido, encolhido e parecendo muito mais velho do que realmente era. À frente de todos eles, num estrado mais alto, sob um real dossel sentava-se, não o rei, pois não tivera estômago para tanto, mas meu tio Norfolk, inclinado ao peso de muitos colares de ouro, empunhando um enorme bastão e acompanhado pelo conde de Surrey e pelo lorde-chanceler AudIey.
Meu tio não perdeu tempo e leu com voz clara e imperturbável as acusações que me eram imputadas: que eu, a rainha, durante mais de três anos desrespeitara o meu casamento, guardando no coração maus sentimentos em relação ao rei e cedendo, todos os dias, aos meus caprichos e desejos carnais. Com falsidade e ânimo traiçoeiro, mediante palavras, beijos, carícias, presentes e vários incentivos inqualificáveis procurava os servidores do rei para com eles exercer actividades de adultério e concubinato.
Afirmou que meu irmão George se deixara seduzir por profundos beijos com a sua língua na minha boca e minha na dele e que conhecera carnalmente a própria irmã numa ligação incestuosa. Afirmou-se também que, com outros, eu teria conspirado para assassinar o rei, já que nunca o amara do fundo do meu coração, chegando a prometer casamento a um dos meus companheiros de cama, após a morte de Henrique. Foram fornecidas as datas e os locais os meus supostos mas terríveis delitos, de índole lasciva. Parece que os meus incontroláveis desejos me conduziam a frequentes e perigosas indiscrições. Recebia vários amantes numa só noite e, menos de um mês após o nascimento de Isabel e até mesmo durante a gravidez. Devo dizer que nem tudo era mentira – de facto, troçara da pessoa do rei, das suas roupas, ridicularizara as baladas que escrevera. Mas calculei que estivessem desesperados quando o consideraram prova de traição.
Depois de lidas as acusações, ergui-me para proferir a minha defesa, mas fui asperamente silenciada por meu tio. Não tinham sido permitidas testemunhas a meu favor. Este processo infame e irregular ofendeu de tal maneira os espectadores que houve uma agitação na sala seguida de gritos de ”Deixem-na falar!” e ”Deixem-na apresentar as provas!” Penso ter sido esse o momento mais doce que vivi como rainha e em que senti ter o apoio do povo. Não posso dizer que me amassem, mas era, sem dúvida, indigno de ver. Se a mulher do rei podia ser tratada daquele modo dentro de um tribunal, ficava demonstrado que qualquer pessoa abaixo dela poderia receber pior tratamento pois a justiça morrera certamente em Inglaterra.
Assim, contendo a voz furiosa com que desejava insultar aqueles vermes, limitei-me a declarar-me inocente de todas as acusações, pedindo a Deus que fosse minha testemunha. A seguir, Norfolk solicitou aos membros do tribunal que dessem o seu veredicto; como não poderia deixar de ser, um a um, declararam-me culpada. Vi como aquela simples palavra lhes saía dos lábios corrompidos, mas pouco me incomodou a sua repetição… excepto quando foi pronunciada por uma certa boca.
Henry Percy hesitou antes de pronunciar as sílabas que levariam à morte a única mulher que amara. Hesitou e, nesse momento desafiei-o olhando-o nos olhos. Porém, foi como uma luva atirada ao chão que, por medo, ninguém recolhe. Recusou o meu olhar, e pronunciou a palavra ”culpada” mais alto que todos os outros.
Norfolk bateu três vezes com o bastão branco no chão, fazendo o eco percorrer o salão, agora tão silencioso que se poderia ouvir o adejar das asas de uma pomba.
– Porque haveis ofendido o nosso rei e soberano, cometendo traição contra a sua pessoa, haveis merecido a morte e sereis queimada aqui, na Torre de Londres, ou decapitada, conforme aprouver ao rei.
Ergueu-se então um burburinho por entre a multidão. ”Não há direito!” ”Onde está o rei e a sua nova amante?” ”Onde está a justiça?” e outros impropérios contra aquele cobarde tribunal. Se os ânimos não se tivessem exaltado, eu poderia ter sido levada da sala sem pronunciar palavra, porém aquilo obrigou lorde duque de Norfolk a pesar a conveniência de me deixar falar ou de me remeter ao silêncio. Por fim concedeu-me a palavra.
Consciente de que, se alguma vez possuí dignidade era esse o momento de apelar para ela, olhei de frente para os meus acusadores e, sem que a voz me falhasse, declarei:
– Senhores! Sei que tendes consciência de me haver condenado por razões que nada têm com as provas que foram hoje trazidas à vossa presença. O meu único pecado contra o rei foi o ciúme e falta de humildade. Mas vós tendes de seguir o rei. Estou preparada para morrer, senhores, e apenas lamento que homens inocentes e leais a Henrique tenham perdido a vida por minha causa. – Depois voltei-me para a multidão, para os meus súbditos que se mantinham imóveis e silenciosos, para que me pudessem olhar o rosto que tantas vezes tinham aviltado, de modo a que vissem a minha inocência e pedi-lhes humildemente que rezassem por mim. Não deixei que ninguém me tocasse quando, com passo majestoso, saí do salão, ainda Rainha de Inglaterra.
Mais tarde, nos meus aposentos da prisão, lady Sommerville veio contar-me tristemente a enorme farsa que fora o julgamento de meu irmão. Disse-me que George se defendera com tanta graça e engenho que todos acreditavam que seria ilibado. Porém, parece que se deixou levar pela raiva e, saboreando aquele momento de desafio, fez a acusação pública de aquilo que o tinham proibido terminantemente de falar – a impotência de Henrique. Dizia-se que eu tinha declarado a minha cunhada, e ela a George, que o rei não tinha vigor nem força para o acto viril. Aquilo provocara tais murmúrios que meu tio tivera de repor a ordem. Mas, disse-me a boa senhora, aquele momento de desrespeito ofendeu de tal forma os lordes que custou a meu irmão a liberdade e a vida. Como castigo final, seremos mantidos isolados, sem o consolo um do outro, até à morte.
Por fim, contou-me como, ao terminar a sessão, lorde Norfolk pediu a todos os pares que se levantassem e todos obedeceram todos excepto um. Henry Percy continuou no seu lugar, prostrado e mortalmente enfermo. Foi levado do salão por quatro guardas, pois os outros lordes não tinham tempo a perder com fracos ou feridos.
Portanto agora, terei de enfrentar as chamas, ou se alguma recordaçãominha comover a generosidade de Henrique, o machado. Estou muito cansada e rezo para poder encontrar alguma paz num sono reconfortante, porém as esperanças desta desgraçada mulher em refugiar-se em doces sonhos, são elas próprias, um sonho impossível.

Afetuosamente,
Ana

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5 comentários sobre “Diário, 15 de Maio de 1536

  1. É realmente horrível ser condenada por uma enorme conspiração. Ana Bolena, foi uma mulher muito corajosa !

  2. Uma mulher corajosa, de forte personalidade que ao traçar seu próprio caminho, em uma época extremamente machista, veio a pagar um preço muito alto para alcançar seus objetivos. Uma mulher que mudou a face da Inglaterra e deixou como herança a grande monarca Elizabeth I.

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