Diário, 17 de Maio de 1536

 rei foi mais uma vez misericordioso. Dispensou os meus amigos e o meu irmão do sofrimento de uma lenta agonia. Não obstante, estão todos mortos, com as cabeças separadas dos corpos, o sangue a inundar as botas do carrasco. Não me era possível ver o cadafalso da janela da minha prisão, de modo que solicitei a lady Kingston que me levasse a ver o tão monstruoso acontecimento provocado pela minha loucura.
juntou-se uma enorme multidão para assistir ao evento do dia – famílias inteiras com o cesto da merenda, funcionários do governo de alta e baixa condição, dignitários estrangeiros, comerciantes que tinham fechado as suas lojas como se se tratasse de um dia festivo. O cadafalso fora erguido bem alto para que todos pudessem testemunhar a brutalidade e, assim, um por um, Norris, Weston, Breyertone Smeaton tomaram os seus lugares. Do meu parapeito não me foi possível escutar as últimas palavras pronunciadas por homens tão corajosos, mas soube depois que nenhum deles me traíra, tendo apenas pedido que a misericórdia divina lhes permitisse morrer sem sofrimento.
Quando meu irmão George chegou ao cadafalso fez-se um profundo silêncio. As mulheres puxavam os filhos para que não vissem um condenado por incesto. Um homem gordo olhou-o com um sorriso malicioso, recordando-se talvez de como sua irmã ou filha se retorciam debaixo do seu repulsivo peso. Vi um jovem nobre que, na sua inexperiência sonhava chegar à corte, olhar aquele espectáculo, imóvel como uma pedra. Decerto sentia o medo correr-lhe nas veias, ao aperceber-se claramente do perigo mortal que representava a sua ansiada profissão.
Desejei desesperadamente atrair o olhar de meu irmão antes que inclinasse a cabeça, para lhe poder enviar todo o meu amor e receber o seu, para assim iluminarmos as nossas escuras viagens. Mas tinha os olhos fixos num ponto distante, os movimentos cheios de dignidade e escolhia cuidadosamente as suas últimas palavras, para que aquele acto final fosse recordado como belo e corajoso. Depois de se despedir, fez uma pausa e ergueu a cabeça para o céu azul, onde passavam grandes nuvens brancas. Recordei-me do dia ventoso em que fui a Dover despedir-me dele, antes da sua partida para França. De novo vi o gesto gracioso dos seus dedos a agarrar a boina que o vento queria arrebatar. Ah, como esse dia fora feliz e que esperanças tínhamos ainda diante de nós.
Olhei também para o céu para não o ver ajoelhar diante do carrasco. Escutei apenas a pancada surda e ouvi as aclamações daquela rude assistência. Voltei as costas, pois não desejava ver a fonte de sangue brotar do corpo de meu irmão por sobre o relvado de Tower Green.
Lady Kingston observava-me da porta da prisão, com os olhos impiedosos, a boca apertada sob o nariz bolboso e o queixo gordo. Vencida pela crueldade a que assistira e receando que a minha Isabel possa sofrer o mesmo destino, por minha culpa, falei-lhe em tom implorante. Humilhei-me e declarei-me arrependida pelo tratamento que dera a lady Maria, na esperança que este se apiedasse da sua irmãzinha, uma inocente sem outros amigos nesta vida. A minha carcereira, embora fria como uma pedra, concordou em transmitir os meus protestos à mulher a quem chamou princesa Maria. Senti que a garra que me oprimia o coração se alargava um pouco e respirei com mais facilidade.
Tenho agora de me preparar para a minha morte que terá lugar amanhã de manhã. Dai-me forças, meu Jesus.

Afetuosamente,
Ana

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3 comentários sobre “Diário, 17 de Maio de 1536

  1. Um dos textos mais fortes e tristes. O que realmente Ana não pensara praticamente vendo o irmão perder a cabeça e perceber que em breve isso aconteceria a ela?

  2. Penso, que Ana não mais se importa com sua própria vida, após presenciar as execuções de seus amigos e irmão. Está consciente de que é apenas uma das tantas peças desse tabuleiro de intrigas, entre nobres famílias que se degladiam em busca de ascensão social e a Corte de Henrique VIII. Tem consciência de que outra mulher, desta vez, da família Seymour, em breve estará ocupando seu lugar, como o fêz com sua antecessora. Talvez, sua única preocupação seja em relação ao destino da princesa Elizabeth, que com sua morte, poderá ser considerada bastarda. O relato é verdadeiramente emocionante!

  3. Leio cada capitulo de uma historia que todos sabem o final. Mas sempre fico com pena. Não importa o que ela tenha feito. Sempre fico chatiada com a pena capital que foi imposta a eles. “misericordia” é não ser esquartejado vivo, e ser apenas decapitado isso é um favorzão!! Fácil se livrar de problemas quando se tem poder!!! ‪#‎crueldade‬!!

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