“Para o Rei, da Dama na Torre”

A carta abaixo foi publicada por Lord Herbert em seu livro “The Life and Raigne of King Henry the Eighth” em 1679 e depois pelo Bispo Burnet in 1679. Burnet alega ter encontrado a carta junto com cartas de William Kingston e “outros papéis de Cromwelll”. A carta é datada 6 de maio de 1536, na Torre de Londres. Sua autenticidade não é confirmada, uma vez que existe apenas uma cópia.

Senhor,
O descontentamento de Sua Graça e o meu aprisionamento são coisas que me são tão estranhas que não tenho qualquer idéia a respeito de que devo desculpar-me.
Jamais um príncipe teve esposa mais leal e justa, e mais plena de afeto verdadeiro, que aquela que Vossa Graça conheceu em Ana Bolena – com cujo nome e posição eu poderia ter-me contentado se Deus e Sua Graça não tivessem preferido ascender-me. Tampouco em qualquer tempo, inebriada com minha posição de rainha, esqueci meu berço humilde. Minha satisfação sempre residiu em agradar a Sua Graça, mas nunca procurei agradá-lo por temor de cair numa situação como a que me encontro agora.
Sua Graça ascendeu-me de uma condição inferior para sua rainha e companheira, algo muito acima do meu merecimento ou desejo. Mas se Sua Graça considerou-me merecedora dessa honra, não deixe qualquer perfídia de meus inimigos lançar uma sombra sobre sua apreciação por mim, nem por sua filha, a pequena princesa Elizabeth.
Ponha-me à provação, meu rei, mas permita-me desfrutar de um julgamento justo e não ter meus inimigos como querelantes e juízes. Permita-me receber um julgamento aberto, visto que minha verdade não teme vergonhas expostas. Então Sua Graça verá ou minha inocência provada – assim aplacando suas suspeitas e satisfazendo sua consciência – ou minha culpa declarada abertamente. Lembro a Sua Graça que, num julgamento justo, qualquer que seja o julgamento de Deus e de meu rei, sua Graça estará isenta de uma censura aberta, e Sua Graça está livre, diante de Deus e dos homens, não apenas para executar punições justas contra mim, como uma esposa infiel, mas para seguir seus intentos de substituir-me por aquela cujo nome poderia ter apontado há algum tempo, caso isso tivesse me parecido pertinente.
Mas se Sua Graça já selou o meu destino, decidindo que apenas a minha morte e desonra será capaz de conceder-lhe a felicidade à qual almeja, então eu desejo de Deus que ele venha a perdoar seu grande pecado e, da mesma forma, o pecado de meus inimigos, os instrumentos usados por Sua Graça. Rogo a Deus que ele não lhe apresente um preço justo pelo uso cruel e desumano que será feito de minha pessoa nesse julgamento no qual eu e Sua Graça iremos ver-nos em breve. Não duvido (a despeito de que o mundo possa pensar a meu respeito) que minha inocência virá a ser reconhecida abertamente, e justamente vingada.
Meu último e único pedido será que eu, e apenas eu, carregue o fardo do descontentamento de Sua Graça, que ele não toque as almas inocentes desses pobres gentis-homens que, pelo que deduzo, encontram-se confinados por minha causa.
Se algum dia Sua Graça já tenha me guardado em seu coração – se algum dia o nome Ana Bolena tiver sido agradável aos seu ouvidos -, permita-me obter este pedido. Agraciando-me com ele, eu não mais importunarei Sua Majestade; partirei desse mundo rezando para a Santíssima Trindade pelo bem-estar de Sua Graça.
De minha lastimosa prisão na Torre, 6 de maio.
Sua real e sempre fiel esposa,
Anne Bulen

No quarto dia de sua prisão, diz a lenda que Ana Bolena escreveu essa carta para o rei Henrique VIII, em que ela pedia um julgamento justo, a misericórdia para os seus companheiros de prisão e sugeriria que Jane Seymour era a razão de sua queda. Esta carta foi supostamente encontrado entre os papéis de Thomas Cromwell, depois que ele foi executado por traição em 1540 – o que implica que, se a carta é de de fato verdadeiro, ela foi interceptada por Cromwell e nunca chegou ao Rei. Rabiscado na parte superior, no que parece ser escrita de Cromwell: “Para o Rei, da Dama na Torre” .

No seu livro ‘The Reformation in England ‘ , JH Merle d’Aubigny escreveu com admiração sobre a carta, “Nós vemos Ana através desta carta, uma das mais tocantes que já foi escrita. Ferido em sua honra, ela fala sem medo, como se no limiar da eternidade. Se não houvesse outras provas de sua inocência, este documento por si só seria suficiente para ganhar a sua causa aos olhos de uma posteridade imparcial e inteligente. ”

Entre os maiores pontos em que se diferenciam de outras cartas, pode-se destacar: a assinatura “Anne Bullen” ao invés de “Anne Boleyn” ou “Anne the Queen”. Os Bolena não tinham usado a escrita “Bullen” desde antes do nascimento de Ana, e parece improvável que ela quisesse reverter a situação na carta.

Outra inconsistência psicológica seria a afirmação “Sua Graça ascendeu-me de uma condição inferior para sua rainha e companheira”. Embora alguns historiadores caracterizam Ana e os Bolenas como classe média antes de sua ascensão ao poder, seria insensato escrever “condição inferior”. O pai de Ana era Conde de Ormonde, título de maior prestígio da nobreza anglo-irlandesa, e a mãe de Ana, Elizabeth Howard, era filha do Duque de Norfolk, meia irmã de uma filha do rei Eduardo IV. No entanto, é possível que ela estivesse simplesmente sendo exageradamente auto-depreciativa.

A declaração logo em seguida ‘algo muito acima do meu merecimento ou desejo‘ também é contraditória. Já em 1530, o embaixador veneziano escreveu que Ana acreditava apaixonadamente que Deus a havia escolhido para ser Rainha da Inglaterra, assim como nos tempos bíblicos “Ele escolheu Esther para substituir a rainha Vashti“. Novamente, ao escrever essa carta Ana Bolena poderia estar tentando inflar o ego de Henrique.

A autenticidade da carta tem sido objeto de debate, portanto, desde os primórdios da historiografia Tudor. Na sua biografia sobre Henrique VIII em 1649, Lord Edward Herbert acreditava que era provavelmente uma falsificação, talvez escrito por um devoto piedoso de Ana no reinado de Elizabeth. Por outro lado, Gilbert, Bispo de Salisbury, ao escrever o sétimo volume de ‘History of the Reformation of the Church of England’, trinta anos depois, estava convencido de que a carta era genuína.

Depois de ter passado uma vida compilando cartas originais do reinado de Henrique VIII, em meados do século 19, o arquivista Henry Ellis jorrou positivismo ao apontar que sempre houve algumas alterações nas cartas de Ana Bolena, dependendo do seu humor. Há, por exemplo, diferenças consideráveis entre a carta que ela escreveu ao pai em 1514, a que escreveu ao Cardeal Wolsey após a epidemia de 1528 e a que ela enviou para a amiga, Lady Wingfield, no verão de 1532. Já Froude em seu livro ‘The Divorce of Catherine of Aragon and History of England’ aceita os argumentos de Ellis e acredita que todas as provas documentais claramente apontavam para que a carta seja autêntica.

Talvez o argumento mais convincente para a autenticidade da carta vem do escritor Jasper Ridley. Tendo rejeitado a carta como “uma falsificação, escrita no reinado de sua filha, Elizabeth” em sua biografia ‘Henry VIII’ (1984), mais tarde ele mudou de idéia em ‘The Love Letters of Henry VIII’ (1987), na qual ele afirma que cada elemento da letra se encaixa com o que sabemos da psicologia de Ana nesta fase da sua prisão. Em termos de discrepâncias de caligrafia, Ridley argumentou que a carta que temos agora não é o original – é uma cópia, datada de no final do século 16. Esta sugestão pode explicar o erro de ortografia sobre “Boleyn / Bulen.” Uma teoria alternativa em uma mesma linha é que a rainha estava tão agitada que ela ditou a carta para uma das suas damas de companhia na Torre, que mais uma vez explica a anomalias de ortografia e caligrafia.

A maioria dos historiadores, no entanto, continuam céticos. James Gairdner no seu artigo ‘Mary and Anne Boleyn’, Paul Friedmann em ‘Anne Boleyn’ (1884) e Agnes Strickland em seu livro de oito volumes ‘Lives of the Queens of England’ argumentam que nem a caligrafia nem o tom da carta são compatíveis com Ana. No seu livro ‘Anne Boleyn’ (1972), Marie Louise Bruce deu um passo adiante e simplesmente se recusou a discutir a carta, exceto em suas notas de rodapé, onde ela escreveu:

“Tão dramática era a vida de Ana Bolena, que inspirou uma grande quantidade de apócrifos coloridos, fundada em nada mais substancial do que a imaginação dos nossos predecessores… Tal também, quase certamente, é a carta supostamente escrito por Ana na Torre para Henrique. Nenhuma dessas terá encontrado um lugar nesta biografia”.

David Starkey em ‘Six Wives’ (2003), Antonia Fraser, em ‘The Six Wives of Henry VIII’ (1992), Loades David em ‘The Politics of Marriage: Henry VIII and his Queens'(1994) e Karen Lindsey em ‘Divorced Beheaded Survived: A Feminist Reinterpretation of the wives of Henry VIII’ (1995) falham em discutir a carta, sentindo que o debate sobre ela ser uma falsificação já foi concluido e provado sem qualquer dúvida razoável. Professor Eric W. Ives em suas duas biografias, Anne Boleyn (1986) e ‘The Life and Death of Anne Boleyn: The Most Happy’ (2004) e RM Warnicke em ‘The Rise and Fall of Anne Boleyn: Family politics at the court of Henry VIII ‘(1989) não lhe dão nem uma frase, descartando-a como uma falsificação emocional. Alison Weir ‘The Lady in the Tower: The Fall of Anne Boleyn’ (2009), aceita os argumentos de Ridley em favor da carta ser real e que ela é digna de consideração, mas que, no final, todas as inconsistências “sugerem fortemente que de fato era uma falsificação. “

Minha opinião pessoal é que a carta de 06 de maio de 1536, é provavelmente falsa – baseada na estranha “Bulen” e a crença do escritor em sua ‘condição inferior’. Por outro lado, eu não acredito que seja necessariamente uma falsificação completa ou que a rainha nunca tentou entrar em contato com seu marido no momento em estava presa. Um historaidor inglês chamado John Strype diz que viu todos os registros sobre a prisão de Ana Bolena na Cottonian Library, antes desta ter pegado fogo em 1731. Strype afirma em seu livro ‘Annals of the Reformation in England’ que leu uma carta escrita por Ana para Henrique VIII poucos dias depois de 6 de Maio, e que a rainha estava ainda mais emocionada do que na cópia e recusava o pedido de barganha que lhe exigia admitir a culpa em pelo menos alguma das acusaçõe. Nessa carta, agora desaparecida, Ana supostamente prometia a verdade de sua inocência até a morte.

Tanto quanto podemos dizer, acho que a carta que temos foi talvez escrita com base em uma epístola genuína escrita pela rainha durante a sua prisão e que contém algumas frases autênticas ou notas que Ana realmente tenha feito – mas eu não acredito que esta seja inteiramente verdadeira ou que foi escrita pela mão de Ana Bolena. A carta real – pois eu acredito que houve uma – provavelmente foi destruída pelo incêndio de 1731 ou está para ser descoberta em algum lugar.

Bibliografia:
May 6th, 1536: The Mystery of the Queen’s Letter‘. Acesso em 22 de maio de 2012.
Letter from Anne Boleyn to Henry VIII‘. Acesso em 22 de maio de 2012.

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7 comentários sobre ““Para o Rei, da Dama na Torre”

  1. Estas informações são verdadeiras pérolas. Me move a pensar o que de tão especial teve na existência da rainha Ana Bolena, que até os dias de hoje provoca tantas inquietações, curiosidades e motivos de pesquisas…..? Afinal, o que tinha Ana Bolena de tão enigmático que provoca este mais além de sua existência….???

  2. Seria maravilhoso se descobrissem mais sobre Ana, qualquer documento ou vestígio para aclarar essa pessoa tão fascinante.

  3. Imagino quantos documentos foram perdidos neste incêndio… Uma pena… Coisas que nunca saberemos e que, por todo mistério que cerca sua vida e sua morte, nos fascina estranha e maravilhosamente.

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