A religião de Ana Bolena

Não há dúvidas da contribuição de Ana Bolena para a Reforma na Inglaterra. Para se casar com Ana, Henrique decidiu romper com a Igreja Católica depois que o papa se recusou a conceder o divórcio dele com Catarina de Aragão. Se o papa tivesse concedido a despensa, teria Henrique VIII se separado de Roma mais tarde? Muitos historiadores dizem que não. Mas Henrique não conseguiu o que queria, e como sabemos, não foi fácil para as pessoas depois que ele rompeu com a Igreja Católica, pois a Inglaterra entrou numa nova era, e a chamada nova religião foi se tornando cada vez mais popular. Ana Bolena foi uma reformadora? Ela era religiosa? Como a religião afetou a sua vida? Procurarei responder essas perguntas neste artigo.

A infância e juventude de Ana Bolena foram gastas na corte da arquiduquesa Margarida da Áustria, depois na corte francesa. De acordo com Eric Ives, não era possível imaginar um lugar melhor para educar os filhos do que naquela corte. Em sua vida, Ana refletiu as características de Margareth – a sua piedade, o amor pelo aprendizado e interesses em manuscritos. Além disso, a corte francesa era um lugar digno de atenção. Apesar da vida desregrada do rei Francisco, sua esposa Cláudia era uma pessoa animada, com elevados padrões morais. Com Ives diz, a jovem Ana Bolena estava em contato com as grandes mentes do Renascimento, e por isso não se admira que eles tenham tido um efeito sobre sua vida mais tarde. Na Corte francesa, Ana se tornou amiga de Margarida d’Angouleme, que tinha fortes opiniões sobre assuntos espirituais e apoiava a tradução da Bíblia para o francês. Ana seguiu o exemplo de Margarida e apoiou a bíblia inglesa, quando se tornou rainha.

Um dos confidentes mais próximos de Ana Bolena era seu irmão George. Ele viajava para o exterior regularmente, de onde trazia obras teológicas proibidas, que os irmãos liam com grande interesse. De acordo com Clare Chrry, autora de um biografia de George Bolena, depois que Ana e George foram executados, uma série de obras evangélicas foram encontradas entre os pertences dos irmãos, incluindo uma tradução, feita pelo próprio George, de um texto luterano sobre a salvação através da fé em Jesus Cristo.

Na época Tudor, as pessoas eram extremamente religiosas. A média de vida era muito menor do que hoje (cerca de 35 anos) e a morte poderia se realizar em qualquer momento, fosse como resultado de uma doença (o suor, por exemplo), duelos ou o parto. O pensamento da morte era tido por todas as pessoas em quase todos os dias, e não é surpresa que eles fossem piedosos.

Na era de Ana Bolena, era comum se ter um Livro de Horas – um pequeno livreto em forma de manuscrito, que continha orações, salmos e outros textos religiosos. As orações eram ricamente decoradas com desenhos retratando as cenas da Bíblia. Claro, Ana Bolena também tinha seu próprio Livro, onde ela escreveu “les temps viendra”, “o tempo virá”. Eric Ives chama a atenção para o fato de que a frase inteira é “o tempo virá e você pagará por tudo”, e Ana a escreveu na parte do Juízo Final. Isso significa que Ana era tão devota que sabia que o tempo virá e todos irão responder a Deus pelos seus atos.

Hoje, escritores têm feito numerosas polêmicas sobre Ana Bolena e sua fé. Quão protestante ou católica ela era? Muitas pessoas só têm um conhecimento superficial de Ana, e a reconhecem como protestante, no sentido verdadeiro da palavra. Mas tenha em mente que na vida de Ana, o protestantismo estava se ampliando aos poucos e nem todos mostraram interesse na nova religião.

Um artigo anônimo afirma que a única razão pela a qual Ana apoiou a nova ordem religiosa de Henrique foi porque, casou contrário, ela nunca seria esposa do rei, o que poderia implicar que suas simpatias e ações eram simplesmente para uma imagem pessoal. Retha Warnicke declara que Ana era uma católica porque uma de suas últimas frases foi de que iria para o céu tendo feito muito boas obras, um trabalho se salvação para qual os católicos seguiriam. Por outro lado, John Foxe, autor de um livro chamado “The Book of Martyrs” (“O Livro dos Mártires”), declara que Ana Bolena fora uma mártir que devotou a sua vida para promover a fé protestante. Eric Ives, que já escreveu vários livros e artigos sobre Ana Bolena, afirma que ela não era nem protestante, nem uma fiel católica romana, mas sim uma comprometida reformadora católica que baseava suas convicções na Bíblia. G.W. Bernard afirma que a devoção de Ana ao protestantismo eram propagandas políticas durante o reinado de sua filha, Elizabeth: Ana Bolena havia sido acuada de incesto e adultério e havia a necessidade de reabilitar sua imagem para apoiar as reformas religiosas da própria Elizabeth.

Há uma história de que Ana foi à uma casa religiosa em Sypm e fez uma pregação às freiras que lá estavam sobre “a enormidade da liberdade delas e sua injustificada incontinência”. Segundo Latymer, depois de repreendê-las por citarem “orações ignorantes de livros em latim (que elas não entendiam), a rainha presenteou-as com livros de oração em inglês. Embora as freiras tivessem a princípio tentado não admitir a nova esposa do rei – com base no fato de que se tratava de uma mulher casada e de que as normas proibiam que elas a deixassem entrar no convento -, ficaram logo “prostradas e rastejando” quando ela insistiu em entrar. E acabaram por ficar devidamente agradecidas.

Ana tinha um amor pela leitura espiritual. Ela gostava de manter uma tradução inglesa da Bíblia em seus aposentos, à qual suas damas (que não sabiam francês nem latim) deviam recorrer com frequência, para se inspirarem. Tais ações já haviam condenado homens e mulheres à fogueira, mas Ana aproveitou de sua posição de Rainha. Havia um grande número de eruditos em Cambridge em torno dela, especialmente de Gonville e do Caius Colege, sobre cuja instituição um clérigo mais antiquado no que se referia a religião, o bispo Nix de Norwich, observou de mau humor: “Nenhum clérigo que tenha vindo ultimamente daquela faculdade deixou de entrar para a panelinha”. Uma mulher inglesa protestante, de uma geração mais jovem, Rose Hickman, lembrava-se que seu pai – um comerciante – contara a ela que, quando era rapaz e ia “além-mar”, cumpria tarefas para a rainha Ana Bolena: ela “mandava que ele conseguisse para ela os evangelhos e as epístolas escritas em pergaminho em francês, juntamente com os salmos”.

William TyndaleAna Bolena é conhecida por três conexões principais com o protestantismo: sua associação com o tradutor William Tyndale, o resgate de vários indivíduos perseguidos e sua influência na elevação de clérigos reformados para a posição de liderança na Igreja da Inglaterra. A primeira apresentação da rainha ao trabalho de William Tyndale foi com o livro chamado ‘A obediência de um homem cristão’. Um dos argumentos principais dos livros é que o rei de cada país deveria ser o chefe da Igreja, ao invés do papa. Acreditando que o livro fosse um excelente trabalho, Ana emprestou-o a Henrique. O rei gostou imensamente do livro. A rainha também obteve uma cópia em inglês do Novo Testamento, que foi roubado por um cortesão. O livro chegou nas mãos do Cardeal Wolsey, que viu sua chance de acabar com Ana por causa de seu conteúdo herético. Ana, já sabendo do perigo, contou ela própria ao Rei. Henrique a perdoou e, em seguida, leu ele próprio o livro.

Ana Bolena também resgatou numerosos reformadores perseguidos. Acredita-se que ela ‘salvou’ Dr. Thomas Forman, Thomas Alway, Thomas Patmore, e Nicholas Bourbon. Forman foi suspenso de seu púlpito pois possuía vários livros luteranos. A rainha pediu ao Cardeal Wolsey para restaurar seu cargo, uma vez que Forman alegou que apenas lia os livros a fim de melhor combater o movimento luterano. Thomas Alway foi preso por possuir livros proscritos, pediu para a rainha obter sua libertação e a conseguiu. Thomas Patmore, cujo crime é desconhecido, estava preso a dois anos quando Ana apelou a Henrique VIII. A proteção da Rainha chegou à França quando resgatou Nicholas Bourbon, um reformador francês.

Ana Bolena fez um infinidade de contribuições para a reforma protestante na Inglaterra. Algumas de suas idéias reformistas incluíam a leitura da Bíblia em língua vernácula, pregando a Bíblia, ao invés dos rituais comuns, e corajosamente questionava as ações da Igreja Católica Romana. Uma vez que a rainha adorava discutir teologia e analisava cada ponto das idéias reformistas, ela apoiava a publicação de muitos livros religiosos. Quando rainha, Ana manteve uma cópia da versão de Coverdale de 1535 em um suporte para que suas damas de companhia lessem, e Henrique VIII finalmente permitiu que a Bíblia fosse impressa e distribuída na Inglaterra.

Vários clérigos deviam suas posições elevadas à Rainha Ana. Eduardo Crome ganhou St. Mary Aldermary, no rico distrito de Londres. A rainha honrou seu velho amigo de família, Thomas Cranmer, ajudando-o a obter o cargo de Arcebispo de Canterbury. A Rainha Ana pagou pessoalmente as despesas de Hugh latimer e Nicholas Saxon às posições de bispos. Ela apadrinhou Eduardo Fox, Thomas Goodrich e William Barlow, convencendo Henrique a conferir bispados para eles. William Betts tornou-se capelão pessoal da rainha.

Alison Weir acredita que, apesar de evidências contemporâneas sugerirem o contrário, Ana não foi uma peça chave na Reforma inglesa porque ‘ela tinha sido criada na fé católica tradicional, e nela seguiria seus ritos fielmente até sua morte’. É certo que Ana seguiu elementos da tradição católica, especialmente por continuar abraçando a presença de Deus na hóstia sagrada. É bem documentado que Ana recebeu comunhão duas vezes antes de sua execução, e se recusou a ser o alvo da dedicatória do livro ‘Farrago Rerum Theologicarum’, de Lambert.

David Starkey, em seu livro “The Six Wives of Henry VIII”, escreve que todo os documentos que lidavam com a questão do divórcio passaram pelas mãos de Ana Bolena. Ana foi cercada de partidários da Reforma, como Cromwell, Cranmer e Latymer, que eram conhecidos por seu zelo em promover o protestantismo. Além disso, Ana ajudou todos aqueles que possuíam literatura relacionada ao luteranismo.

Thomas CranmerEustace Chapuys afirmou que Ana Bolena era ‘mais luterana que o próprio lutero’, e sua declaração é um exemplo típico dos rumores sobre Ana nas cortes católicas. Embora seja impossível de discordar que Ana apoiou a Reforma, ainda existem alguns indícios de que Ana permanecia uma católica no coração. Há sinais de que Ana queria usar a chamada nova religião a fim de melhorar a situação no clero da Inglaterra. Como se sabe, os sacramentos eram usados como negociação, por exemplo, se podia comprar um lugar no céu. Ana não queria acabar com os mosteiros, de modo que todo o dinheiro que a rainha arrecadava era direcionado para a educação, caridade e reformas nas igrejas.

Quando Ana Bolena ficou na prisão na Torre, ela repetidamente manifestou o seu desejo e esperança de que o rei lhe permitisse ficar num convento. Antes de morrer, ela pediu para que as pessoas orassem por ela, sugerindo que ela acreditava na existência de um outro lugar. A morte de Ana foi muito lamentada pelos reformistas, que agora encontravam ‘a Inglaterra cada vez mais quente depois da morte de seu patrono’. Muitos dos que Ana apadrinhou continuaram na Reforma da Inglaterra. Cranmer, em particular, foi fundamental para a Reforma durante o reinado de Eduardo VI.

Na minha opinião, Ana era uma pessoa religiosa. Hoje, infelizmente, não sabemos exatamente se o coração de Ana estava mais perto da fé católica do que da protestante, ou talvez um conjunto de ambas as fés. O fato é que Ana Bolena era uma mulher extremamente religiosa e fiel. Acima de tudo, ela acreditava em Deus e em toda a sua vida provou isso.

Bibliografia:
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
ZUPANEC, Sylwia S. ‘Anna Boleyn: Katoliczka czy Protestantka?‘. Acesso em 8 de agosto de 2012.
Anne Boleyn: The Catholic Queen Who Favored Protestant Reform‘. Acesso em 04 de outubro de 2013.
How fundamental was Anne Boleyn’s role in the English Reformation?‘. Acesso em 04 de outubro de 2013.
MCKENZIE, Eleanor. ‘Anne Boleyn’s Religious Beliefs‘. Acesso em 04 de outubro de 2013.

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13 comentários sobre “A religião de Ana Bolena

  1. Acredito que Ana mantinha algumas doutrinas católicas mesmo que tenha sido uma defensora da Nova Fé, porque ela apenas condenava a corrupção da Igreja Romana e não seus dogmas de fato. Até mesmo o Anglicanismo apesar de protestante manteve durante muito tempo tradições católicas; “o catolicismo sem papa”. Penso também que como mulher inteligente e estudiosa que era, estava sempre querendo “estar por dentro” de novas doutrinas, aquelas as quais julgava mais fiéis ao evangelho e, possuía uma visão aguçada do que julgava certo e errado. Ao meu ver, não importa qual vertente do Cristianismo ela seguia; sua confiança na salvação de sua alma mostra uma pessoa com bastante fé.

  2. Ana Bolena teria forçosamente que ser a favor da reforma, o que possibilitaria e legitimaria o seu casamento. O Papa se recusou a divorciar Henrique VIII de Maria de Aragão e sem o divorcio Ana Bolena seria apenas uma amante do rei e nunca uma rainha.

  3. Com certeza Ana Bolena era protestante, segui os dogmas católicos pois não poderia aparentar se protestante pois assim seria considerada herege e assim seria queimada, como um mulher esperta sabia que na sua posição no poderia bater de frente com rei .

    • Eu vi fotos, mas vi que tinha sido promovida mais com o nome da Suzannah Lipscomb do que com o nome dele rsrs. Mas confesso que não peguei pra assistir. Você viu?

      • Vi sim, mas tem todos os estereótipos conhecidos sobre o reinado de Elizabeth…a atriz escolhida achei muito fraca e achei o Dan Jones mais um entusiasta da rainha do que um historiador

        • Vish… Vou ver. Estou investindo agora na legenda do documentário de Starkey, Wives of Henry VIII, de 2001. Todas as legendas que achei estavam dessincronizadas, mas para mim é um dos melhores. Vou ver se legendo esse depois! Daí aproveito e dou uma olhada. Uma pena que tem sido feitas tantas produções sem utilizar de nenhuma teoria nova…

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