A coroação de Henrique VIII e Catarina de Aragão

Xilogravura do séc. 16 mostra a coroação de Henrique VIII e Catarina de Aragão. Acima de suas cabeças é possível ver seus emblemas, a Rosa Tudor e a Romã.

Em 24 de junho de 1509, Henrique, Príncipe de Gales, segundo filho de Henrique VII, seria coroado com sua esposa, Catarina de Aragão. Uma nova era estava surgindo. Um charmoso, extrovertido, jovem e bonito estava substituindo um tirânico, velho, paranóico e avarento rei da Inglaterra. A princesa espanhola preencheria um trono desocupado há muito tempo por uma rainha muito amada.

Na véspera do grande evento em 23 de Junho, Londres estava cheia de alegria quando o rei e a rainha atravessaram em procissão Cheapside, Temple Bar e Strand para o palácio de Westminster. Londres ainda era uma cidade medieval murada, mas seus subúrbios foram espalhando-se muito rapidamente para além dos muros: na Strand, por exemplo, ficavam as grandes casas da nobreza, com jardins que levavam até o rio. A silhueta da cidade parecia dominada pelos pináculos da catedral gótica de São Paulo e outras oitenta igrejas. Era uma cidade que progredia , cheia de vida e muito congestionada, pois as ruas eram estreitas e os edifícios lotados ocupavam as vezes parte da rua; a maioria dos seus cidadãos portanto usavam o Tâmisa como principal via pública.

Henrique VIII, em 1520. Artista desconhecido.Em honra a sua coroação, as edificações que ladeavam a procissão foram decoradas com tapeçarias e tubos que emanavam vinho para que as pessoas pudessem beber sem ter que pagar nada. Por toda a parte, os emblemas pessoais de Catarina, a romã – não apenas se referindo à sua criação em Granada, mas também um símbolo de fertilidade – e o feixe de flechas, eram exibidos ao lado das exuberantes rosas dos Tudor. O jovem Henrique, que dentro de cinco dias faria dezoito anos, cavalgava embaixo de um dossel que carregava os barões dos Cinco portos, precedidos por seus arautos. Ele estava vestido com um gibão de ouro deslumbrante com pedras preciosas sob um manto de veludo carmesim, forrado de arminho e os com uma faixa de rubis aos ombros.

É necessário afastarmo-nos do popular estereótipo do rei Henrique VIII, o inchado monarca da fase posterior da vida – ao analisar o homem com quem Catarina de Aragão se casou em 1509. Em 1519, por exemplo, quando Henrique estava com 28 anos, o embaixador veneziano Giustinian achou-o ‘extremamente bonito; a natureza não poderia ter feito mais em seu favor’. Tinha uma barba ‘que parecia ouro’ e uma tez delicada e clara como a de uma mulher. Henrique VIII tinha a vantagem de parecer um rei: ou pelo menos o ideal popular de um rei. Além de sua cor – os cabelos dourados, com um brilho vermelho, os olhos azuis e a pele clara que recebia elogios universais – seu físico era de um herói. O rei media 1,90 metros de altura, tinha ombros largos e belas pernas compridas e musculosas. Aquela era uma época em que a presença física do soberano formava o foco principal de sua corte, que por sua vez, era o foco de seu país: era uma época, também, em que soberanos ainda lideravam o povo nas guerras. Henrique VIII teve a felicidade de, desde a infância, ter provocado admiração por ter a aparência e o porte perfeitos de um príncipe.

Apesar de pequenina, Catarina, com 23 continuava belamente rechonchuda, e não gorda. Seus dois principais atrativos eram os cabelos e a tez, ambos importantes de acordo com o padrão de beleza da época: os cabelos dourados com tons de castanho-avermelhado (mais escuros dos que o de Henrique) eram excepcionalmente grossos e ‘de comprimento muito grande’, enquanto caíam pelas suas costas por baixo do diadema; tez rosa e branca continuavam a extasiar os observadores. Na coroação, estava recatada e modesta em seu vestido de cetim branco com bordado e pele de arminho, deixou cair sobre seus ombros seu longo e belo cabelo louro avermelhado para demonstrar pureza. Acompanhou o marido em uma liteira adornada com fitas de seda branca e ouro. Suas damas vestidas de veludo azul foram montadas a cavalo não menos vislumbrantes.

O povo ao contemplar este grande evento não pôde conter seu entusiasmo. Havia muitas esperanças postas naquele jovem soberano, Henrique inspirava confiança, com ele não faltariam boas estradas para viajar, tranquilidade para viver e ocasiões de aproximar-se do monarca para ser ouvido, para obter a sua vontade. Este rei iria conduzir a Inglaterra para fora da escuridão e se juntaria ao novo movimento Renascentista que triunfava na Europa. Seria um modelo para os cortesões, promoveria a arte e a cultura de seu país e apoiaria os comerciantes.

A tarde, o rei e a rainha chegaram ao Palácio de Westminster, que havia sido sede do governo real e principal residencia do monarca em Londres desde o século XI.

Henrique e Catarina vigiava toda a noite antes da coroação na capela de St. Stephen, fundada pelo rei homônimo no século XIII. O dia de São João, domingo – 24 de junho, os jovens soberanos trajando vestes reais de carmesim e precedidos pela nobreza, que estava vestida de vermelho com guarnições de pele, foram até a Abadia de Westminster em um tapete de pano forrado com ervas e flores espalhadas sobre ele. No momento em que o rei entrou na abadia e sumiu de vista, a multidão rasgou o tapete em pedaços para guarda-lo como lembrança.

Thomas More escreveu maravilhado essas palavras: “… Este dia consagra um jovem que será a glória eterna de nossa era. Este dia marca o fim de nossa escravidão, a fonte de nossa liberdade, o princípio de nossa alegria. Agora o povo então liberto, corre diante de seu rei com seus rostos iluminados.”

Depois de ser aclamado, Henrique prestou o juramento de coroação e foi ungido com óleo santo. Depois o Arcebispo Warham passou a consagrá-lo com a coroa de Santo Eduardo o Confessor. O coro começou a cantar “Te Deum Laudamus”, enquanto trinta e oito bispos levaram o monarca recém-consagrado ao trono para receber as homenagens de seus súditos principais.

Em uma cerimônia muito mais curta, a rainha foi coroada com uma pesada coroa de ouro adornada com safiras, rubis e pérolas. Quando o casal deixou a abadia, o rei usou a coroa “imperial” ou coroa em arco que era mais leve e um manto de veludo púrpura forrado de arminho. Enquanto a multidão proferia gritos de ‘’viva o rei’’, o órgão as trombetas os tambores e sinos soaram para sinalizar que Henrique VIII havia sido gloriosamente coroado para o bem de todo o país.

Após a coroação, o rei e a rainha encabeçaram a grande procissão de volta a Westminster Hall para o banquete. Além disso justas e torneios foram realizados no palácio, que durariam até meia-noite. A festa perduraria por vários dias.

Tal alegria só seria interrompida pela morte da avó de Henrique, Margaret Beaufort em 29 de junho, um dia após o rei alcançar a maioridade.

A partir de então, uma nova era seria traçada para a Inglaterra, um reinado tumultuado que iria deixar uma impressão duradoura sobre os anais da história desse país. Até então, ninguém imaginou que esse culto, galante e belo príncipe da Renascença se transformaria em um governante temido e implacável, que seria lembrado por seus conturbados casamentos e suas façanhas no trono.

Bibliografia:
BARRIO, Caroline José. ‘La Coronación de Enrique VIII’.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

Artigo feito em parceria com a página do facebook Tudor Brasil.

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5 comentários sobre “A coroação de Henrique VIII e Catarina de Aragão

  1. Admiro mto a Catarina de Aragão e acho q foi de mta nobreza diante de tudo q passou…uma pena! Sofreu dmais!!!

  2. Estou começando a conhecer sobre os Tudors, simpatizo muito com Ana Bolena e sua filha. A história dessa família é fascinante.

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