Jane Seymour – O verdadeiro amor de Henrique VIII [1º Parte]

1) Dócil ou implacável?

Até hoje o caráter e temperamento de Jane Seymour permanece sendo um enigma para os historiadores. A imagem que a história transmite é de uma santa, uma mulher virtuosa e submissa, um modelo de uma dama Tudor por excelência, o oposto de sua antecessora, a temperamental e brilhante Ana Bolena. Muitos acreditam que foi calma, não opinava nem questionava, que era uma peça chave no tabuleiro de xadrez que fizeram os Seymours e seus simpatizantes alcançarem o cume do poder. Mas talvez fosse mais inteligente do que pensávamos. Na verdade, torna-se bastante irônico pensar que ela se aventurou no mesmo jogo de sedução Ana, rejeitado os avanços de Henrique VIII, seus presentes e propostas, mas ao mesmo tempo não se afastava de sua presença. Basta olhar quando Ana Bolena estava prestes a ser executada por adultério e traição, Jane escolhia seu vestido de casamento, longe dos acontecimentos turbulentos.

Jane agiu defendendo sua honra acima de tudo, recusando-se a aceitar presentes de um homem casado e sabiamente rejeitando a comitiva do rei. Se concordasse em tornar-se sua amante, sua honra ficaria comprometida e seria muito difícil encontrar um casamento honroso e vantajoso posteriormente. Mas é claro que sua conduta era parte de uma manobra: ela poderia ser particularmente atraente aos olhos de Henrique VIII, já que o monarca via com bons olhos uma dama que velasse por sua virtude e se mostrasse contida ante os galanteios de um cavalheiro. Além disso, no jogo do caçador que não quer apanhar totalmente sua presa, ela encorajou Henrique VIII e o ajudou a manter viva a chama do amor.

As pessoas levantam muitas questões: Ela realmente acreditava na culpa de Ana Bolena? Ela estava assustada com o fato de se casar com um homem que havia humilhado sua primeira esposa e estava prestes a matar a segunda? Será que em algum momento pediu a ajuda de sua família, pedindo pelo amor de Deus para livrar-se dessa bagunça? Estas são apenas suposições que podem não chegar a uma conclusão plausível, mas o fascinante da história é tentar se colocar no lugar deles, ver o mundo através de seus olhos, transformar esse personagem que ocupa apenas algumas linhas de um livro de história em alguém de carne e osso que sofreu e padeceu, que regozijou-se e vibrou diante as surpresas da vida.

2) Início:
2.1 Os Seymours de Wolf Hall

Margery Wentworth

Os Seymours eram uma família de ascendência nobre e respeitável, mesmo numa época em que essas coisas eram importantes. Seu sobrenome de origem normanda era um pouco obscuro. No principio pronunciava-se St Maur, isso remontava a séculos atrás, no tempo de William, o Conquistador. Diz-se que cresceram em riqueza e influência através de uma série de casamentos vantajosos com herdeiras de sangue nobre.

Os pais de Jane casaram-se em 22 de outubro de 1494. Eles tiveram dez filhos, o que dá margem para supor que seu relacionamento era bom. A esposa sobreviveu a John por quase 15 anos, mas nunca pensou em casar-se novamente. Foi uma mulher que gostava de observar e contentava-se em ficar em sua casa em Wiltshire, supervisionando a educação de seus filhos.

Os Seymours eram famosos por sua fertilidade, especialmente pelo grande número de filhos varões na família. Os primeiro quatro filhos de John foram varões (John, Edward, Henry e Thomas), por isso deve ter sido motivo de alegria quando finalmente a mudança veio e o quinto nascimento foi de Jane. A data não aparece registrada em nenhum lugar, mas é geralmente estimada entre 1508 e 1509, e Wolfhall é considerado como sendo o lugar mais provável. A casa não sobreviveu, exceto por um prédio de tijolos vermelhos e os restos de um celeiro que queimou, embora sabe-se que foi uma das melhores da região.

Sir John Seymour (1474-1536), o pai de Jane foi nomeado cavaleiro no campo por Henrique VII na Batalha de Blackheath, que terminou em uma rebelião em 1497. A partir desse início promissor, passou a desfrutar de favores reais durante o reinado seguinte. Como Sir Thomas Bolena, ele também acompanhou Henrique VIII em sua campanha francesa em 1513. Esteve igualmente presente no “Campo do tecido de ouro” (1520). Em 1532 foi nomeado fidalgo do Dormitório. Xerife em Wiltshire e em Dorset. Não foi muito notável se o compararmos com Charles Brandon, que chegou a ser duque. Era um Homem amável e cortês. De estirpe fértil com um grande número de filhos varões concebidos (10 no total, seis varões e quatro mulheres).

Edward Seymour

Lady Margery Wentworth (1478-1550): Foi dela que veio a “pitada de sangue real”. Descendia de Ricardo III, até tinha melhor genealogia que Ana Bolena em parte paterna, já que descendia mais remotamente de Eduardo I. Mas é claro que nem os Seymours eram tão grandes quanto à família materna de Ana Bolena, os duques de Norfolk. Isso significaria que Jane e Henrique VIII eram primos em quinto grau. Margery seria sempre lembrada como uma das musas do poeta John Skelton.

Jane tinha quase a mesma idade de seu irmão Thomas e sua irmã caçula Elizabeth, e poderia talvez, ter mantido uma relação próxima deles. Mas com o passar dos anos foi Edward quem a ajudou a entrar na corte, graças a sua posição, além do mais ambos eram muito semelhantes em alguns traços de caráter, em contraste com o carismático e chamativo Thomas.

2.2 Educação:

Não há registros sobre a educação que Jane recebeu, o mais provável é que Jane nunca tenha saído dos limites da Inglaterra. Certamente foi educada em Wolfhall mesmo. Há evidencias de que sabia ler e escrever, e que possuía alguma noção de francês e talvez um pouco de latim. A ela lhe foi dado os conhecimentos que uma típica dama do campo deveria ter; que se centravam mais nas tradicionais tarefas femininas. Sua mãe foi sua grande mentora, assim como de suas irmãs menores, Elizabeth e Dorothy. Ela havia lhes ensinado música, uma habilidade importante que qualquer jovem dama devia saber para poder encontrar um marido. Além disso, Jane era perita nas agulhas e cerca de 100 anos após sua morte, seus bordados se encontravam preservados na coleção real. Ela também gostava de caçar e pescar, Jane caçava sempre que podia.

3. Rumo à corte:
3.1 A amante Seymour:

Jane chegou a corte inglesa como dama de companhia da rainha Catarina de Aragão. No entanto, não muito tempo depois Ana Bolena foi coroada rainha.

Em setembro de 1535, Henrique VIII se alojou na residência da família Seymour em Wiltshire, Inglaterra. É possível que tenha sido lá que o rei a tenha notado pela primeira vez. Porém foi apenas em fevereiro de 1536 que seu interesse por Jane tornou-se mais evidente. E foi então que o monarca não mais ocultou seu desinteresse por Ana, vendo que Jane era a candidata perfeita para substituí-la como rainha.

3.2 Como era Jane?
Que atributos Jane possuia para cativar o rei Henrique?

Jane tinha por volta de 25 anos quando atraiu a atenção do soberano pela primeira vez. Segundo as descrições da época, era “uma mulher de grande encanto tanto em aspecto quanto em caráter”. Porém outras fontes sugerem que seja provável que o encanto de seu caráter superasse consideravelmente o encanto de seu aspecto. Chapuys, o embaixador espanhol, a descrevia como”de estatura mediana e sem grande beleza”. O que chamava mais atenção era sua famosa tez “branca pura”(bastante pálida). Segundo Holbein, o pintor da corte, ela tinha um grande nariz e uma boca firme, lábios apertados e um rosto de formato oval com uma testa grande, que era tão apreciada naquele tempo. A impressão predominante em seus retratos é essencialmente a de uma mulher sensata, bem como virtuosa e possuidora de uma impecável reputação.

3.3 O cortejo do rei:

Henrique VIII começou a cortejá-la e a dar-lhe presentes caros que eram sempre devolvidos, além de promover seus irmãos, Edward e Thomas Seymour, na corte.Edward, por exemplo, havia sido nomeado membro da câmara privada.

Anne Stanhope, mulher de Edward Seymour.

Jane inclinou-se de joelhos e beijando a carta real, disse a seu mensageiro para lembrar-se que ela era “uma gentil dama de linhagem honrada e íntegra”, e que sua honra estava acima de tudo. Se o rei dignava-se a presentear-lhe com dinheiro e objetos caros, que seja depois de terem um casamento honroso. Longe de sentir-se desiludido, o soberano sentiu-se encantado com tal rejeição. Em abril de 1536, Edward Seymour, irmão de Jane, e sua esposa mudaram seus quartos por outros que tinham passagem direta a um dos aposentos do rei, assim Henrique podia visitar Jane de uma forma mais discreta e privada. Chapuys referia-se a ela dizendo que havia sido bem ensinada por aqueles “íntimos do rei que eram inimigos da concubina” para que no satisfaça os desejos do monarca “exceto por vias matrimoniais”.

3.4 Duas rivais frente a frente

Certo dia, o embaixador Chapuys ouviu dizer que Henrique VIII andava presenteando uma tal “senhorita Seymour” e que semelhante conduta havia provocado o aborto de Ana Bolena. Segundo Fraser, havia uma história de uma data posterior em que a rainha Ana encontrou a senhorita Seymour sentada no colo de seu marido; “repreendendo” isso ao rei, a rainha Ana culpou seu aborto a essa descoberta infeliz. Diziam que havia ocorrido “muitos arranhões e golpes entre a rainha e sua dama de companhia”.

3.5 A facção AntiBolena

Entre os personagens da corte que apoiavam a causa de Jane Seymour estavam:

  • Sir Nicholas Carew (1496-1539)Os Pole: Liderados por Henry Pole, primeiro barão de Montagu.
  • Os Exeter: Representados por Henry Courtenay, primeiro marquês de Exeter.
  • Os Carew: Sir Nicholas Carew, Mestre Cavaleiro e sua esposa Lady Elizabeth Carew (solteira: Bryan).
  • Os Bryan:
    Sir Thomas Bryan, antigo vice-chamberlain da rainha Catarina .
    Lady Margaret Bryan, governanta dos filhos do rei.
    Sir Francis Bryan, poeta, amigo íntimo do rei e hábil diplomata.

3.6 Um emaranhado de intrigas:

O desejo do monarca de casar-se com Jane aceleraram as falsas acusações de adultério contra a rainha Ana. A recente morte de Catarina de Aragão também contribuiu para considerar sua decisão. O monarca estava disposto a desfazer-se de sua atual esposa a todo custo, e a presença de Jane foi o estopim para a realização de seus propósitos. Durante o cativeiro de Ana Bolena na Torre, o rei apareceu pouco entre os cortesãos. Não ia além dos jardins do Palácio de York, exceto para curtas excursões no Tâmisa ao cair da noite, nas quais desfrutava de um grande banquete com as damas em sua barca para voltar depois da meia noite. Além disso, Jane Seymour estava vivendo em uma residência perto de Hampton Court, onde Henrique podia visitá-la sem problemas usando sua cômoda barcaça. Comportava-se, segundo Chapuys, “como um homem que havia se livrado de um cavalo magro, velho e feroz na esperança de voltar a ter um bom cavalo para cavalgar”.

Sabe-se que, nos meses anteriores, durante a queda de Ana, Jane havia recebido conselhos contínuos de Carew e também de outros membros do conselho. Jane parecia ter aprendido muito bem a lição e manteve-se muito firme em sua idéia.
Durante a prisão de Ana, Jane foi enviada a Beddington, para a casa de Carew e Carew que também foi trazido de volta a capital em 14 de Maio, para a casa de Thomas More, que era perto do rio.

Jane era rainha em tudo menos no nome. Servida pelos melhores serviçais de Henrique. Ao receber a notícia da morte de Ana, Henrique pegou a barcaça para visitar Jane.

A desgraça de Ana foi ter abortado pela segunda vez, fazendo com que o monarca perdesse todas as esperanças dela dar a luz a seu tão sonhado filho varão. O rei estava convencido que ao livrar-se de Ana e casar-se legitimamente com Jane seria possível gerar seu desejado herdeiro. Ana Bolena foi declarada culpada de todas as acusações de que era alvo e condenada a morte. Foi executada pela espada do carrasco em 19 de maio de 1536.

Bibiografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Jane Seymour, El Gran Amor de Enrique VIII’. Acesso em 23 de Setembro de 2012.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.

Artigo escrito em parceria com a página do facebook Tudor Brasil.

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8 comentários sobre “Jane Seymour – O verdadeiro amor de Henrique VIII [1º Parte]

  1. É encatador estar cada vez mais próxima da história dos Tudors. E é bem isso…..” Você pensa conhecer uma história, mas sabe apenas como ela acaba. Para chegar ao coração da história você precisa voltar ao começo”. É assim que eu me sinto quando leio estes artigos, voltando ao coração da história Tudor, é como se eu estive lá…….. Grata pelas informações…!!

  2. Obrigada, muito obrigada! Eu agradeço muito por tudo que você escreve. Apenas quem realmente adora a história dos Tudors entende o quanto todas as informações que você passa são valiosas. Seus textos são fabulosos, magníficos!

  3. Não gosto da Jane, ela usurpou o lugar da Anne, ela pode ter dado o filho varão que Henrique tanto queria, mas não viveu para colher os louros dessa pequena vitória…bem feito! Digo pequena, porque nem o varaozinho por fim reinou, quem foi a grande e digna sucessora de Henry acabou sendo a herdeira de Anne, Elizabeth….bem feito de novo pra Jane!!!! #Anneforever#

    • Bem, eu acredito na hipótese de que Jane de certo modo fora esperta e usou um pouco de bom senso, não o comportamento mais “ousado” de Ana. Devemos lembrar que Ana Bolena. Gosto dela, mas ela usurpou também o lugar de Catarina de Aragão. Lembra? Jane e Ana apenas usaram diferentes táticas.

  4. Ana era brilhante, uma mulher corajosa, forte, que tinha opinião. Jane era mais ou menos uma mosca morta que deu sorte.

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