Todos os bobos do Rei

The Family of Henry VIII

Em Hampton Court Palace, há uma bela pintura datada de 1545, que mostra Henrique VIII, com sua esposa favorita, Jane Seymour, e seus filhos Eduardo, Maria e Elizabeth. Também há outras duas figuras, notavelmente enquadrados pelos arcos: um deles é um homem ruivo, com um macaco em seu ombro. Este pode ser identificado como William Sommer, o bobo do rei. A mulher à esquerda, cuja atenção foi tomada por algo distante, provavelmente é Jane, a boba de Ana Bolena, Princesa Maria e Catarina Parr, a sexta esposa de Henrique. A sua inclusão neste retrato sugere que os bobos tinham um papel distinto e privilegiado na corte dos Tudor.

Popularmente, bobos são relacionados com os palhaços atuais que fazem qualquer coisa por um riso. No entanto, uma nova pesquisa de Suzannah Lipscomb sugere que eles fossem naturalmente bobos – ou seja, eles possivelmente tinham dificuldades de aprendizagem.

Em 1616, Nicholas Breton definiu um bobo natural como ‘Um aborto do saber, onde a natureza tem mais poder que a razão’. O termo ‘bobo natural’ caracterizava de pessoas incapazes ou insensíveis a suas ações. Relatórios de um convento em 1535 escrevem sobre uma garota de 13 anos chamado Julian Heron, uma ‘boba natural’. O bispo Chthbert Tunstalll escreveu para Thomas Cronwell, em 1538, que um garoto era ‘um bobo natural inocente, que não se podia garantir’ que ele havia ‘falado palavras más contra o rei’. Uma lei de 1540 estabelece uma prerrogativa real sobre ‘idiotas e bobos naturais’. Até mesmo Shakespeare menciona uma ‘boba inocente’ grávida em uma de suas peças. Esses casos indicam que os bobos naturais eram altamente visíveis na sociedade. Sabemos que muitos nobres tinham bobos, como o Duque de Buckingham, o Marquês de Exeter, Lady Audeley e Lady Kingston. Embora a terminologia seja diferente da nossa, é óbvio que os Tudors estavam tentando categorizar deficiência de aprendizagem.

Muitos historiadores tem discordado sobre o estado de incapacidade de alguns bobos da corte, especialmente Will Somer. Ele era um bobo da corte de Henrique VIII, e permaneceu em serviço para Eduardo VI e Maria I, morrendo no início do reinado de Elizabeth I. Muitas evidências dizem que ele possa ter sido um bobo natural. Na peça de John Hetwood, Wit e Witless, Somer é descrito por ‘Somer sot’. No dicionário Randle Cotgrave de 1611, sot é traduzido do francês como ‘burro, estúpido, tolo e bobo’. Em 1600, Robert Amin descreveu Somer como um ‘bobo natural da corte’. A prova mais convincente de que Somer era um tolo natural é uma autorização legal de 1551 que aprova um pagamento de 40 xelins para William Seyton ‘a quem Sua Majestade tem determinado para cuidar de William Somer’. Isto implica que Somer precisava de um guardião para cuidar dele, tal como hoje se paga cuidadores para pessoas deficientes.

Henrique VIII com seus filhos (e seu bobo, Will Sommers).

Vários comentaristas modernos têm duvidado que os jogos de palavras e comentários inteligentes atribuídos aos bobos da corte por conta de suas deficiências, mas a sugestão feita no Oxford Dictionary of National Biography diz que a reputação de Somer ‘provavelmente se deve mais ao mito póstumo do que da verdade’, não é consistente com relatos contemporâneos, nem com o desempenho moderno de atores com deficiência de aprendizagem.

A carta de Sir William Paget para Henrique VIII de 1545 dá créditos a Somer por ter um hábito de ditos sábios. Essa impressão é agravada pelas múltiplas histórias de inteligência e humor representadas em obras posteriores, como Summer’s Last Will and Testament, de Armin Foole (1600), When You See Me, You Know Me de Samuel Rowyley (1605) A Pleasant History of the Life and Death of Will Summers (1676) de autor desconhecido.

Somer não foi o único a ser elogiado por suas brincadeiras bem-humoradas. Observações semelhantes foram feitas de seu antecessor Sexton, muito provavelmente o mesmo bobo conhecido como Patch, a quem o Cardeal Wolsey deu a Henrique VIII em sua última tentativa de recuperar o favor do rei.

Bobos naturais tem sido tradicionalmente objetos de medo, riso e escárnio, percebidos como monstruosos, pecaminosos e incapazes de conhecer a Deus, como sugeriu o Salmo 52 da Bíblia Vulgata. No livro de horas de Henrique VIII, existe uma pintura do rei e de seu bobo, logo ao lado do Salmo 52. A ilustração mostra um envelhecido Henrique sentado e tocando uma harpa. Seu companheiro, vestindo uma jaqueta verde com capuz e meias azuis, pode ser identificado como seu bobo da corte, com quem Henrique teve uma relação próxima por mais de duas décadas. O ‘D’ perto de sua cabeça é a primeira parte do Salmo em latim ‘Dixit inspiens in corde suo, non est Deus’ (‘Diz o tolo em seu coração: Deus não existe’).

Isso fez com que os bobos naturais fossem suscetíveis a maus tratos e estigmatizarão. No entanto, The Praise of Folly, escrito por Wrasmo, publicado em 1511 e influente na corte Tudor, que derivou muitos dos escritos de São Paulo, trouxe uma outra corrente de pensamentos. Como ‘todos os homens eram tolos diante de Deus, e a loucura de Deus era mais sábia do que a sabedoria dos homens’, tolos poderiam ser considerados santos, possuidores de uma bondade essencial e simplicidade que significava que eles eram incapazes de pecado. Sua loucura era mais sábia do que a sabedoria. Esta foi a razão pela qual os bobos tinham favores reais e roupas caras, assim como tinham a cabeça raspada, igual aos dos religiosos da época.

Bibliografia:
LIPSCOMB, Suzannah. ‘All the King’s Fools‘. Acesso em 23 de Dezembro de 2012.
Inside the Mind of a Tyrant‘. Acesso em 23 de Dezembro de 2012.

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