O Ano Novo Tudor

Os Tudors acrediatavam que o ano novo começava em 25 de março, e neste dia era realizadoa Festa da Anunciação, comemorando o dia em que foi contado a Maria o nascimento de Jesus.

A característica principal do dia 1º de janeiro era dar e receber presentes. Apesar de dar presentes fosse popular nas classes mais altas não há registros de que isso ocorresse na casa de pessoas comuns. Isso não quer dizer que não ocorria, mas que simplesmente não foi registrado.

Nas classes ricas, dar presentes era de grande significado político e era realizado com muita cerimônia, evidência provada no fato de que todos os presentes reais eram registrados em uma lista de Presentes de Ano Novo. A cerimônia de Henrique VIII para dar presentes à Catarina foi registrado:

“O rei terminaria de se vestir na manhã do Ano Novo, e assim que terminava de colocar seus sapatos uma fanfarra soava e um dos servos da rainha viria carregando um presente dela, seguido pelos seus servos e outros cortesões trazendo os presentes. A rainha, por sua vez, também recebia os presentes em sua própria câmara”

'The Tudors', 2013Se o rei aceitasse o seu presente isso significaria que você estava em seu favor. Caso contrário, ele poderia não estar gostando de você ou suas atitudes no momento. Talvez o melhor exemplo disso ocorreu em 1532, quando Henrique VIII aceitou um conjunto exótico e ricamente decorado de lanças como presente de Ano Novo de Ana Bolena, mas recusou a xícara de ouro de Catarina de Aragão. Ana e Henrique casariam-se no ano seguinte.

Em 1571, o Duque de Norfolk, enquanto estava preso na Torre de Londres por seu envolvimento da revolta dos Condes do Norte, mandou para a rainha Elizabeth uma jóia muito generosa como presente de Ano Novo. Apesar de impressionante, Elizabeth rejeitou o presente e o Duque foi executado em 2 de junho de 1572.

O presente de Ano Novo também era uma forma de recuperar o favor real. Em 1580, Sir Philip Sydney irritou a rainha Elizabeth ao escrever implorando-lhe para não se casar com Duque d’Alençon. Mas em 1581, após presentear Elizabeth com um chicote cheio de jóias como meio de mostrar sua submissão a sua vontade, ele recuperou o favor real mais uma vez.

Os mensageiros que apresentavam os presentes em nome de seus mestres também eram recompensados com dinheiro. Uma tabela determinava quanto ele receberia, dependendo da seu título, como um cavaleiro, escudeiro ou um mensageiro comum.

'The Tudors', 2013Depois de ser presenteado, o monarca daria um presente em troca para demonstrar sua generosidade, garantindo que o presente que deu foi de maior valor monetário do que o que recebeu. Em 1532, depois de receber o presente de Ana Bolena, o rei Henrique VIII deu-lhe ‘um conjunto combinando de cortinas para seu quarto e cama, em tecido de ouro e panos de prata ricamente bordados em cetim vermelho‘. Era também costume o rei dar presente às damas de companhia, mas em 1532 Henrique ignorou o costume.

No ano-novo de 1510, todos – do duque de Buckingham, o mais destacado nobre da terra, ao mais humilde ajudante de cozinha- se reuniriam no Grande Salão para a distribuição formal de presentes. Até então não houvera esse costume, mas eu pretendia transformá-lo no ponto culminante dos festejos natalinos. Graças a Wolsey e a seu trabalho incansável, o rei tinha um presente pessoal para cada um: um lenço bordado para o fútil assistente encarregado do guarda-roupa; uma garrafinha de porto espanhol para o cozinheiro, que gostava disso; um rosário bento para o mais novo padre designado para a Capela Real. Para outros, mais próximos de mim, eu mesmo escolhera os presentes. Para Wolsey, um vistoso tapete de lã vindo da Turquia, que custara muito dinheiro e esforço (já sabia o quanto ele era exigente); para Catarina, um livro das Escrituras adornado com pedrarias (já que sabia também o quanto ela era devota, embora isso ainda me parecesse superficial); para Warham, Fox e Ruthal, missais suntuosamente adornados.

(GEORGE, 1993, pág. 166)

Também era esperado da rainha dar presentes a suas damas. Em 1533, Ana deu palafréns e selas a suas damas. Elas, por sua vez, também deveriam dar presentes ao rei, geralmente presentes pessoais, tais como camisas bordadas. Em 1534, Elizabeth Boleyn, mãe de Ana, deu a Henrique VIII um casaco de veludo bordado com as armas reais, contendo seis colares, três de ouro e três de prata. A cunhada de Ana, Lady Rochford, presentou o rei com uma camisa e um colar de prata.

Assim, podemos ver que os presentes eram variados e podiam consistir de qualquer coisa, como jóias, camisetas, lanças ou selas. Outro presente digno de menção é o presente de Ano Novo que Ana Bolena deu para Henrique VIII em 1534. Nesta ocasião, Ana deu ao Rei uma fonte para mesa prata e ouro quase certamente projetada por Holbein. A fonte era um dispositivo de bombeamento que jorrava água de rosas em uma bacia, para que as pessoas que fossem jantar pudessem lavar suas mãos. A Lista de Presentes de Ano Novo a descreve como ‘uma bacia dourada (…) decorada com rubis e pérolas, onde tem-se uma fonte, também tendo um trilho de ouro sobre ela enfeitada com diamantes, fora da água três mulheres nuas jogam água através seus seios sobre o pé da mesma fonte’.

Como forma de agradar o rei no Ano Novo, Ana encomendou o presente mais extravagante. Os ourives o levaram ao salão, Ana à frente, de modo que pudesse abrir as portas e ver nossas caras. Foi uma visão surpreendente: uma fonte de ouro com diamantes e rubis incrustados. Aos pés da fonte, estavam três mulheres nuas, também forjadas em ouro, e de suas tetas esguichavam mais água. (…)
– Mulheres férteis jorrando água – eu disse, olhando para as três estátuas fulgurantes.
Ana sorriu para mim.
– Um augúrio – disse ela. – Um lembrete, um desejo.

(GREGORY, 2009, pág. 464)

Podemos ver então que o costume de trocar presentes na corte sevia como um propósito político. Era um jeito da classe rica ganhar o favor real, de fazer valer o seu status e mostrar sua riqueza dando presentes incrivelmente luxuosos. Era também um jeito da monarquia mostrar seu prazer e desprezo, aceitando ou rejeitando presentes.

Bibliografia:
GREGORY, Philippa. A irmã de Ana Bolena. Tradução de Ana Luiza Borges – 3º Edição – Rio de Janeiro: Record, 2009.
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
GRUENINGER, Nalie. ‘Tudor Christmas and New Year Celebrations‘. Acesso em 31 de Dezembro de 2012.

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