Qual foi a reação de Henrique e Ana à morte de Catarina?

Catherine of Aragon pleads her case against divorce from Henry VIII. Painting by Henry Nelson O'Neil.No dia 7 de janeiro de 1536, Catarina de Aragão tinha acabado de passar dos 50 anos de idade. Ela morreu nos braços de Maria de Salinas, sua dama de companhia que a acompanhou da Espanha até a Inglaterra para se casar com Artur. O corpo foi colocado na capela de Kimbolton e velado pelas três damas de sua equipe: Blanche e Isabel de Vergas, Elizabeth Darrel e Maria de Salinas.

“A muito cruel, dolorosa e lamentável notícia da morte da muito virtuosa santa rainha”, nas palavras de Chapuys, foi recebida pelo embaixador numa mensagem de Thomas Cromwell. O rei Henrique VIII, segundo lendas populares, não achou a morte tão dolorosa. Existem muitas interpretações sobre a reação do casal real à morte de Catarina:

  • Provavelmente a mais famosa, Ana e Henrique vestiam amarelo e comemoravam com grande alívio a morte de Catarina.
  • Apenas Ana vestia amarelo, e Henrique estava muito angustiado com a notícia e ordenou que a corte ficasse em luto.
  • Alison Weir escreveu em seu livro The Lady in the Tower que Ana e Henrique usavam amarelo pois acreditavam que esta era a cor de luto na Espanha. Depois de ter publicado o livro e feito mais pesquisas, foi descoberto que a cor de luto na Espanha realmente era preto, e que a escolha da cor da vestimenta era “um insulto calculado à memória da mulher que ela tinha suplantado”.

Uma das evidências vem das Crônicas de Edward Hall. Ele era um cronista inglês e advogado, cuja Crônicas começa com a adesão de Henrique IV e termina com a morte de Henrique VIII. Aqui esta a declaração que ele fez no que diz respeito à morte de Catarina:

“No oitavo dia do mês de janeiro a princesa viúva em Kymbalton foi sepultada em Peterborough. A rainha Ana usou amarelo pela manhã.”

Ele não faz nenhuma mensão à Henrique.

Alguns acham que o relato de Ana vestir amarelo não está relacionado com a morte de Catarina, pois em 1534, Ana estava grávida e sua câmara de confinamento tinha sido decorado em amarelo, de modo que alguns acreditam que Ana estava usando amarelo por causa da criança, e não de Catarina. A criança, entretanto, morreu pouco antes da morte de Catarina, o que levanta a questão de porque Ana lamentaria a morte do filho usando a cor amarela. A maioria dos historiadores concorda que amarelo era visto como uma cor alegre nos tempos Tudor, mas não existe nenhuma fonte que confirme isso.

Eusta Chapuys, que serviu como embaixador imperial na Inglaterra em 1525 a 1549, relatou:

“Você não pode imaginar a alegria que o rei e os que defendem a concubina têm mostrado com a morte da boa rainha, especialmente o conde de Wiltshire e seu filho, que dissem que era uma pena a princesa não fazer companhia a ela. O rei, no sábado, ouviu a notícia e exclamou: “Deus seja louvado que estamos livres de qualquer suspeita de guerra”, e que havia chegado a hora em que ele iria tratar a França melhor do que ele tinha feito até então, porque agora eles fariam o que quizessem pois tinham medo de que eles devessem aliar-se novamente com sua Majestade, vendo que a causa que pertubou sua amizade tinha ido embora. No dia seguinte, domingo, o Rei estava vestido todo de amarelo, da cabeça aos pés, exceto pela pena branca que tinha em seu chapéu, e a pequena bastarda foi conduzida com trombetas e outros grandes triunfos. Depois do jantar o Rei entrou no quarto onde as senhoras dançavam, e lá fez várias coisas como um transportador da alegria. Por fim, ele mandou chamar a pequena bastarda, e carregando-a nos braços, ele mostrou- lhe primeiro um e depois outro. Ele têm feito coisas do gênero em outros dias, e têm mudado sua conduta em Greenwich.”

Um relato escrito por Nicholas Sanders em seu livro O Cisma Anglicano (The Anflican Schism) diz que:

“O rei não poderia abster-se de lágrimas quando ele leu a carta, mas Ana Bolena ao invés de se vestir de luto no dia do funeral de Catarina, colocou um vestido amarelo; e ao ser parabenizada pela ida de sua rival, respondeu: “Não, eu sinto muito, não pela sua morte, mas por causa de sua morte ter sido tão honrada”.

É importante notar que Nicholas Sanders  foi quem espalhou os rumores de Ana ter seis dedos e verrugas no rosto. Além disso, ele nasceu em 1530, e era só uma criança durante o reinado de Ana. Alguns acreditam que os relatos que dizem que Henrique ficou triste sobre a morte de Catarina foi simplesmente uma tentativa de mostrar Henrique em uma luz melhor e manchar mais a reputação de Ana, dizendo que ela fora a única que usou amarelo e se alegrou com a morte da rainha. Dizer que Henrique ficou chorou ao ler a última carta de Catarina sugere que ele era compassivo e sentimental – algo que ele provavelmente não foi, uma vez que proibiu Maria de visitar sua mãe no leito de morte e também a ir ao seu funeral.

Essa última carta de Catarina de Aragão se refere a uma (quase certamente fictícia, de acordo com alguns historiadores) que ela ditou para uma de suas damas de companhia. Até o fim, ela estava preocupada com o bem-estar espiritual dele:

Meu caríssimo senhor, rei e marido, a hora de minha morte se aproxima (…) Não tenho escolha a não ser, pelo amor que tenho pelo senhor, adverti-lo sobre a saúde de sua alma, que o senhor deve preferir a quaisquer outras considerações do mundo ou da carne. Pelas quais o senhor me lançou em minhas calamidades e ao senhor mesmo em muitos problemas. Pela minha parte, eu o perdôo por tudo e rogo a Deus para que faça o mesmo. Recomendo-vos a nossa filha Maria, suplicando-lhe para ser um bom pai para ela. (…) Por fim, faço o juramento de que meus olhos o desejam acima de todas as coisas.

Na carta, Catarina também se preocupa com o destino de suas damas que restavam – ‘são apenas três’ – e a necessidade para o dote delas quando se casassem a preocupavam,  e ela queria que todas as suas servidores recebessem o salário de um ano além do que lhes fosse servido. Esses pedidos angustiados eram característicos de Catarina: de acordo com a lei inglesa, por ser uma mulher casada, não podia fazer testamento, mas podia deixar uma lista de ‘súplicas’ para o marido.

A eliminação da rival de Ana Bolena deveria ter dado início ao período mais feliz da vida da rainha Ana, pois a mulher que estivera no seu caminho por muitos anos não era mais problema, e ela era a única rainha da Inglaterra. Em vez disso, provocou sua queda. Sua repetida afirmativa absurda relativa à filha do rei, Maria – ‘ela é minha morte, e eu sou a dela’ – tinha um novo e terrível significado no que se referia à mãe de Maria. Como Chapuys comentou secamente, o casamento ‘da concubina’ não se tornara ‘mais válido e legítimo’ em consequência da morte de Catarina. Henrique VIII era agora, segundo os estritos padrões católicos, um viúvo, já que sua única esposa aos olhos da Igreja havia morrido; ele estava, assim, livre para tornar a se casar com quem escolhesse. Faz sentido que uma vez que a novidade inicial passou, Ana percebeu que sua posição ficara mais precária com a morte de Catarina quando era quando ela estava viva.

Bibliografia:
GRUENINGE, Natalie.’Anne Boleyn’s reaction to Catherine of Aragon’s death‘. Acesso em 7 de janeiro de 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010

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