Os Escândalos na adolescência da rainha Elizabeth I

Miniatura de Elizabeth I, atribuído a Levina Teerlinc, cerca de 1560-1565.A infância de Elizabeth I foi repleta de mudanças. Em um minuto era a amada filha do rei e sua rainha, uma princesa adorada e mimada por todos e no seguinte sua mãe é decapitada e ela é declarada uma bastarda. Ela vê seu pai se casar com Jane Seymour e dar à luz a um príncipe. Jane em seguida morre e é substituída por outra madrasta – Ana de Cleves, que mantém a sua vida, mas não sua posição como esposa do Rei, pois o casamento é anulado. No mesmo ano, seu velho pai com 49 anos casa-se novamente, dessa vez com Catarina Howard de apenas 17 anos anos de idade. Pobre e tragicamente, segue o mesmo destino de sua prima Ana Bolena e é decapitada. A infância de Elizabeth foi preenchida com esses acontecimentos terríveis e sangrentos. Seu pai casou-se novamente em 1543 quando Elizabeth tinha apenas 10 anos de idade. Desta vez ele se casa com uma viúva chamada Catarina Parr, que une os filhos de Henrique e garante seu retorno à corte e trata Elizabeth como se fosse sua própria filha. O casamento entre os dois dura até 1547, quando Henrique VIII, pai de Elizabeth morre e Catarina Parr torna-se guardiã de Elizabeth.

Catarina Parr, artista desconhecido, em 1546.Juntas, elas passaram a viver em Whitehall. Catarina sempre casou-se com homens velhos, porém ela se apaixonara por um homem mais jovem e bonito. Ele também passa a ser um dos homens mais ambiciosos na corte – Thomas Seymour, irmão de Edward Seymour, duque de Somerset, Lorde Protetor do jovem rei Eduardo VI – irmão de Elizabeth. Thomas Seymour foi um almirante inglês, e irmão da falecida Jane Seymour. Ele procurou ganhar influência sobre o jovem rei para se casar com uma herdeira. Seymour cortejou Catarina em segredo e casou-se rapidamente com ela em maio de 1547 – apenas quatro meses após a morte de Henrique VIII. Ele casou-se sem a permissão de seu irmão ou do Conselho Privado – porque tais permissões não teriam sido concedidas pois, teoricamente, Catarina poderia estar grávida do rei Henrique.

Thomas Seymour era bonito, corajoso, enérgico, charmoso e inteligente. Conseguiu ganhar a aprovação do jovem rei Eduardo e foi perdoado pelo casamento secreto com a rica rainha viúva, Catarina Parr. A princesa Elizabeth com seus 14 anos, vivia com o casal na mesma casa, propriedade do Almirante, no castelo de Sudeley. Pela primeira vez em sua jovem vida estava vivendo em uma família feliz. Era tratada como filha por Catarina que engravidou em novembro de 1547.

Thomas SeymourThomas Seymour, impetuoso por natureza, consciente do efeito de seus encantos sobre as mulheres – ele ainda tinha o ‘apetite’ que o rei elogiara como devendo agradar a uma mulher se a ‘juventude’ tivesse ido embora -, para Seymour deve ter parecido natural dedicar-se a brincadeiras sexuais com a jovem protegida de sua mulher. Na festa de Pentecostes de 1548 (meados de maio), quando a situação ficou crítica, a rainha Catarina estaria grávida havia quase seis meses; devido à sua condição, Seymour também deve ter achado natural procurar diversão em outras partes. Mas se aqueles eram os instintos naturais de Seymour, seu bom senso deveria tê-lo refreado; o bom senso de um homem que estava na corte fazia muito tempo, familiarizado com os corredores dourados do poder dos Tudor. Para um homem solteiro, já era bem perigoso aproximar-se daquela maneira da herdeira do trono que vinha em segundo lugar da fila; para um homem casado, era não só perigoso, mas constituía uma fonte para escândalo.

Aparentemente, Seymour criara o hábito de entrar no quarto da jovem antes que ela estivesse totalmente vestida, dando-lhe uma palmadinha “nas costas ou nas nádegas, com intimidade”, roubando-lhe beijos e até guardando a chave do quarto para que ela não pudesse fugir. E também aparecia de pernas de fora e vestindo apenas uma curta camisa de dormir. A criada de Elizabeth, Katherine Ashley, contaria histórias do lorde Almirante abrindo as cortinas da cama de Elizabeth para desejar-lhe “bom dia”, enquanto a jovem se encolhia toda (se por recato ou êxtase, Elizabeth nunca revelou).

ElizabethEm certa ocasião, em Hanworth, Catarina, com “o gáudio e a boa diversão”, pelos quais se destacara durante o casamento com o rei Henrique VIII, tomou parte na brincadeira. Ela segurou a jovem Elizabeth enquanto Seymour cortava sua camisola preta numa centena de pedaços. É difícil entender o comportamento de Catarina. O que ela estava pensando? Catarina era uma mulher inteligente, sem dúvida ela sabia que isso não era certo. Será que ela estava com medo de perder Seymour? Independente do que achamos, Catarina mandou Elizabeth para Cheshunt. Katherine Ashley deu como motivo o desalento da rainha por ter encontrado Elizabeth nos braços de Seymour, mas depois se retratou. Como Catarina e Elizabeth continuaram em termos afetuosos depois disso, é provável que a rainha tivesse sido movida tanto pela preocupação com a reputação de sua protegida como pelo ciúme.

Elizabeth escreveu a Catarina carinhosamente depois por tê-la deixado em sua casa. Catarina deu à luz uma menina chamada Maria no castelo de Sudeley em Gloucestershire em 30 de agosto.Pouco tempo depois de 5 de Setembro morreu de febre puerperal. Quase imediatamente, Seymour retomou as ambições de casar-se com ela. A ciumenta politicagem de Seymour contra o irmão, o lorde protetor de Somerset, alertara o Conselho Privado para seus esquemas imprudentes. Thomas foi preso e mandado para a Torre de Londres em janeiro de 1549. A primeira informação que Elizabeth teve de como a situação se tornara séria para ela foi quando a governanta Catherine Ashley e o tesoureiro Parry foram presos, em 21 de janeiro e interrogados na Torre sobre a relação entre Seymour e Elizabeth.

Elizabeth fora pega desprevenida  O lorde protetor e o Conselho tinham suspeitas que ela própria, ajudada e incentivada pelos criados, foram cúmplice em alguns dos planos de Seymour, ao menos no de casar-se em segredo. Despreparada no interrogatório, ela não pôde esconder sua agitação. Sir Robert Tyrwhit informou: “De modo algum ela confessará qualquer prática da sra. Ashley ou do Coffer [tesoureiro], relacionada com meu Lorde Almirante, e no entanto vejo em seu rosto que é culpada”.

 Elizabeth, atribuído a William Scrots, cerca de 1546-1547.No dia seguinte, Elizabeth já havia se recomposto. Tyrwhit escreveu mais tarde: “Asseguro à Sua Graça que ela teve excelente presença de espírito, e nada se conseguiu extrair dela além de grande diplomacia”. Tyrwhit suspeitou que havia muito mais a ser confessado por Ashley e o tesoureiro, mas foi frustado nas investigações pela coerência da história imaculada deles: “Todos cantam a mesma música, e portanto eu acho que não serviriam, a não ser que tenham estabelecido nota antes.”

Elizabeth e seus criados livraram-se de outras punições, mas o lorde almirante Seymour foi julgado por traição, declarado culpado e capitado em 20 de março de 1549. Aos 15 anos, Elizabeth já absorvera uma sabedoria que aos 40 escapara ao ambicioso e arrogante Seymour. No dia de sua execução  consta que ela fez o possivelmente apócrifo comentário: “Hoje morreu um homem de muita inteligência e muito pouco discernimento.” Desse dia em diante, Elizabeth ia assegurar que ninguém jamais pudesse dizer o mesmo dela.

Bibliografia:
Teenage Scandal of Queen Elizabeth I‘. Acesso em 14 de Janeiro de 2013.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
DUNN, Mary. ‘Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas’. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

Artigo feito em parceria com a página do facebook Tudor Brasil.

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12 comentários sobre “Os Escândalos na adolescência da rainha Elizabeth I

  1. Ela sofria abuso ou tinha um romance com Thomas? Até onde já li, era mais pra abuso mesmo. Existe mais textos que falam sobre isso?
    Abraços

    Ka

    • Acusações oficiais contra Seymour em 1549 afirmam que ele tentou se casar com Elizabeth antes de seu casamento com Catarina Parr, mas é impossível determinar se o relacionamento que ela tinha com Thomas era um romance ou algum tipo de abuso. É fato que ele certamente tinha muita liberdade com ela, já que entrar no quarto de alguém de manhã antes que esta estivesse totalmente vestida não era um comportamento normal para um cavalheiro. Elizabeth certamente negou que eles tiveram qualquer envolvimento. Embora ele fosse bem mais velho que ela, um relacionamento entre os dois não seria considerado abusivo nos padrões da época: Margaret Beaufort, avó de Henrique VIII, tinha 12 anos quando se casou (seu marido, Edmund Tudor, tinha 24) e aos 13 já tinha um filho e era viúva.

      Em breve irei publicar mais textos sobre o assunto.

  2. Desta desagradável história (do caso Elizabeth/Seymour) acho que o que me choca mais é episódio com Catarina. É totalmente admissivel que um homem ambicioso como Thomas Seymour iludisse uma jovem e se aproveitasse de sua inocência apenas para se promover – penso que ele casou com a rainha viúva apenas por interesse -; porém imaginar que Catarina de algum modo ajudou seu marido com isso é um mistério. Por que alguém como ela , que amava sua enteada como uma filha de sangue, permitiria isso? Talvez seja isso que me impede de colocá-la em meu “Top 3” de esposas preferidas.

  3. Tenho grande admiraçao pela inteligencia e vivacidade de Elizabeth, sempre com uma presença de espirito invejavel em sua respostas . Foi o que a fez tao magnanima e impecavel rainha.

  4. Elizabeth viveu uma vida cheia de complicações. Isso a fez tornar uma pessoa forte e decidida. Acredito que esse episódio com Seymour foi decisivo para algumas de suas escolhas ao longo de sua vida.

  5. Dizem que ele abusava de Elizabeth quando ela era pequena e morava com ele e Catarina Parr….mas nunca saberemos a verdade!

  6. Para mim, uma das maiores líderes da história. comparável á ela, Cleópatra Aulete e A a rainha Catarina, a Grande da Rússia.

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