O Golpe de Henrique, Duque da Cornualha

Meu filho, Henrique, nasceu no dia de ano-novo de 1511. Era robusto e saudável, e seu primeiro choro não foi o deplorável miado que em geral os recém-nascidos têm. Foi alto e exigente, e ele entrou no mundo como Hércules.
‘Pesado, Vossa Graça’, informou o dr. Linacre ao depositá-lo em minhas mãos estendidas. ‘Muito pesado. Deve ser feito de músculos.’
Sim, o pacotinho era pesado, sólido. Pude sentir a força com que a criança se contorcia.
‘Louvado seja Deus!, gritei, erguendo-o em meus braços. ‘Agora o futuro está garantido!’ Eu segurava meu sucessor em minhas mãos.

(GEORGE, 1993, pág. 176)

The Wives of Henry VIII (2001)A mais ou menos 1:30 da madrugada de 1 de Janeiro de 1511, Catarina de Aragão deu à luz a uma filho, um herdeiro para o trono da Inglaterra. Ele nasceu 18 meses depois do casamento e da coroação de seus pais. Ele foi o segundo filho de Catarina de Aragão e Henrique VIII: uma menina nasceu morta aos sete meses, no dia 31 de janeiro de 1510.

O rei ordenou que lanternas fossem acessas em Londres e vinho fosse distribuído de graça para todos os cidadãos. Eles responderam desfilando pelas ruas cantando: “Longa vida ao Príncipe, longa vida para Catarina e ao nobre Henrique!

Ele foi batizado de Henrique, depois de seu pai e avô em uma cerimônia quatro dias depois na Chapel of the Observant Friars em Richmond. O rei francês, Luís XII, foi escolhido para ser um de seus padrinhos e enviou um cálice de ouro como presente de batizado. Luís não compareceu e Richard Foxe, o bispo de Winchester, ficou em seu lugar. William Warham, Arcebispo da Cantuária era outro padrinho, e Margareth da Áustria foi escolhida como a madrinha, embora ela não tenha ido à cerimônia e Anne de York tenha ficado em seu lugar.

Apesar de ainda ser amamentado por uma ama-de-leite, achou-se que o príncipe Henrique precisava de um entalhador, um adegueiro e um padeiro e, claro, houve quem se ofereceu logo – em troca de recompensa – para ocupar esses cargos onerosos. Na festa da Purificação da Virgem Maria, no dia 2 de fevereiro, aconteceu um esmerado torneio para celebrar o grande acontecimento que, pelo que parecia, assegurava a sucessão Tudor.

Henrique e sua rainha planejaram comemorações extravagantes que rivalizavam com a sua coroação para o nascimento de seu filho e herdeiro, que imediatamente tornou-se Duque da Cornualha e logo iria se tornar o Príncipe de Gales, rei da Inglaterra e o terceiro rei da Casa Tudor. Um torneio extravagante foi realizado em Westminster. Giles Tremllet ressaltou que ‘contemporâneos consideravam o torneio o mais extravagante e mais teatral que já foi visto na Inglaterra’ e que ‘era o terceiro evento mais caro no reinado de Henrique VIII, após o funeral de seu pai e o dilúvio de ostentações que ficaria conhecido como o Campo do Pano de Ouro.’

Henry VIII and His Six Wives (1972)O rei, como Coeur Loyal (Coração Leal), como seu primo igualmente alto, Sir Edward Neville, como Valiant Desire, William Conde de Devonshire como Bon Valoir, e Sir Thomas Knyvet como Joyeux Penser, representaram os desafiantes: os Quatro Cavaleiros da Justa. Uma linguagem cavaleiresca cercou o acontecimento todo: a resposta ao desafio foi dada em nome de ‘Noble Renow, a rainha do reino chamado Coeur Noble’, que ficou sabendo ‘da boa e graciosa fortuna do nascimento de um jovem príncipe que Deus teve o prazer de dar a ela [rainha Catarina] e seu marido; o que vem ser a maior alegria e consolo que poderiam recair sobre ela e o mais famoso reino da Europa’. A rainha Catarina, por sua vez, sentava-se cercada por suas damas, sorrindo graciosamente enquanto o rei (usando as cores dela) disparava num tropel que ribombava na arena repetidas vezes, derrubando seus adversários dos cavalos. Nos momentos adequados, ela entregava os prêmios: o rei, como desafiante, recebeu um prêmio no segundo dia.

Enquanto as festas continuaram o bebê real permaneceu no Palácio de Richmond em seus próprios aposentos e com seus próprios criados. Havia uma ama de leite para que ele mamasse, uma governanta para dirigir os servos, e quatro criados para balançar o berço real dividindo-se em turnos. Este tipo de separação entre o bebê real e sua mãe era completamente normal, ainda mais porque o bebê era um menino e herdeiro do trono. Catarina deve ter esperado tomar pouca parte na sua criação e mesmo educação. Mas isso não significava que ela não o amasse como mãe.

The Wives of Henry VIII (2001)O torneio foi seguido por um banquete e uma noite de entretenimento no Salão Branco do Palácio de Westminster. O rei Henrique havia preparado uma encenação do  que se tornou um pouco estranho a partir do momento em que a multidão começou a rasgar as decorações e até mesmo a roupa do rei.  Henrique VIII havia aberto as portas do palácio para as pessoas comuns, um ato muito incomum para um rei. A multidão se acalmou, o rei riu e continuou a folia.

Poucas semanas depois, as contas reais, que tinham estados cheias de pagamentos de veludo escarlate e vermelho para o torneio, estavam pagando tecido preto para o enterro do príncipe Henrique. Ele morrera no dia 22 de Fevereiro, tendo vivido apenas 52 dias. Acompanhantes de alta estirpe, dez crianças do coro da capela real e ‘nove vintenas de homens pobres’ fizeram parte da procissão, à luz de tochas, do costumeiro enterro noturno.

O rei deu ao filho um funeral em que não se poupou nada. Só o carro fúnebre foi adornado com quinhentos quilos de velas. O príncipe Henrique, com 52 dias de idade, foi sepultado na Abadia de Westminster – onde os gritos dos torneios comemorativos tinham ecoado contra as paredes apenas nove dias antes.

(GEORGE, 1993, pág. 189)

A causa de sua morte nunca foi declarada, mas numa era de uma taxa de mortalidade infantil tão elevada, aquela morte específica poderia ser uma tragédia, mas em si não era extraordinária. Segundo a Chronicle de Hall, a rainha sofreu mais do que o rei; ela, ‘como uma mulher normal, se lamentou muito’, enquanto que ele ‘como um príncipe sensato, aceitou esse doloroso fato como uma sensatez maravilhosa’.

Não há duvidas de que o rei consolou a rainha, como indicou Hall, de modo que devido ‘à sua boa persuasão (…) a tristeza dela foi atenuada‘. Apesar disso, as coisas não saíram como planejadas. O mundo, momentaneamente, não estava tão dourado assim. Para Henrique VIII foi uma sorte existir a política externa para distraí-lo da tragédia doméstica; e tendo em vista que a política externa de Henrique estava fortemente entrelaçada com a do pai de Catarina, um sorte para Catarina também poder participar das atividades.

Um segundo Henrique, Duque da Cornualha, nasceu em dezembro de 1514, mas pouco se sabe sobre o príncipe, que morreu dentro de um mês. Catarina tentou fornecer ao seu marido um filho e herdeiro, mas teve pelo menos mais quatro abortos e natimortos entre 1510 e 1518. Sua filha, Maria, nascida em 1516, não era boa o suficiente para o rei.

Henry-VIII-and-His-Six-Wives_42Historiadores têm especulado a respeito do curso que a história inglesa poderia ter tomado se um dos Henrique, Duque da Cornualha, ou qualquer outro filho legítimo tivesse sobrevivido; dado que a procura de Henrique por um filho do sexo masculino, após a falha de Catarina para dar à luz a qualquer outro filho vivo, foi o motivo que o levou a ter seu casamento anulado.  Um herdeiro poderia ter pelo menos prevenido, ou até mesmo impedido, o casamento com Ana Bolena que faria a Inglaterra cortar as relações com o catolicismo romano.

Curiosamente, Ana Bolena também teve um bebê chamado Henrique, que também teve o título de Duque da Cornualha. Ele nasceu entre agosto e setembro de 1534, e morreu cerca de dois minutos após o nascimento.

Foi ali que começou a cisão entre Catarina e eu. Sua dor tomou a forma da submissão, da prostração perante a vontade de Deu, da rendição frente às exigências Dele, na forma de uma vida de preces e práticas religiosas. (…)
Eu, por outro lado, me voltei para fora. Olhava para o funil voltado para dentro dos exercícios espirituais em que Catarina tinha se lançado e aquilo me amedrontava e repelia. O que eu entendia eram ações – ações claras, precisas, efetivas – e foi aí que me perdi… ou me encontrei e, ao fazer isso, restaurei-me na complacência de Deus.

(GEORGE, 1993, pág. 191)

Bibliografia:
GEORGE, Margaret. Autobiografia de Henrique VIII. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010
Documentário ‘The Six Wives of Henry VIII’, escrito por David Starkey, emitido no Channel 4 de 10 de setembro de 2001 a 1 de outubro de 2001.
Henry, Duke of Cornwall‘. Acesso em 22 de fevereiro de 2013.

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12 comentários sobre “O Golpe de Henrique, Duque da Cornualha

    • Gabriele, na minha opinião, a Autobiografia é o melhor livro sobre a Era Tudor que já li. É simplesmente magnífico.

      Obrigada!

    • Realmente são poucos que conhecem a história do Duque da Cornualha, por isso resolvi escrever esse artigo. Acho a história dele fantástica.

  1. Nunca tinha lido nada sobre isso, pensei que Catarina de Aragão simplesmente era mais velha e não deu ouros filhos a ele devido à idade. O fato de ter engravidado mais 6 vezes, no mínimo, foi surpresa pra mim.

  2. Catarina foi uma grande mulher e fato dela não dar um filho homem para a Inglatera culminou com a sua desgraça,adoro a historia dos ingleses leio tudo e o que acabei de ler e fantástico parabéns e muito obrigado por propagar cultura as pessoas.

  3. Já li “as seis mulheres de Henrique viii” tantas vezes q eu soube direitinho no texto qual parte era a do livro

  4. Pobre Catarina, tantas crianças mortas… Melhor fonte brasileira. Encontrá-la fez meu dia. Parabéns pelo trabalho absoluto. :)

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