Os estereótipos das esposas do rei

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‘Divorciada, decapitada, morreu… divorciada, decapitada, sobreviveu…’. Pode-se ouvir esse verso, relembrando a ordem das esposas de Henrique VIII. Desse modo, as seis mulheres tornaram-se definidas, num sentido popular, não tanto pelas suas vidas quanto pela maneira pela qual essas vidas terminaram. Do mesmo modo, suas personalidades são retratadas, popularmente, como estereótipos femininos: a Mulher Traída, a Tentadora, a Boa Esposa, a Irmã Feia, a Malvada e, finalmente, a Figura Materna.

Uma vez que a religião e a questão religiosa eram o assunto dominante da Europa, o tratamento das seis mulheres em termos religiosos é muito interessante. Catarina de Aragão é grosseiramente tida como uma católica fanática, segundo a definição que hoje temos para o termo, embora no apogeu de sua vida ela fosse destacada pelo apoio que dava ao humanismo erasmiano; Ana Bolena demonstrava fortes tendências protestantes, em parâmetros modernos, muito antes do ato que Roma bloqueou seu casamento com o rei, o que a fez uma aliada natural dos reformadores; Jane Seymour, que passou à História como Rainha Protestante, aderiu, na verdade, à moda antiga no que se referia à religião; Ana de Cleves, casada por sua conexão ‘luterana’, era católica por natureza; Catarina Parr foi a verdadeira Rainha Protestante. A verdade, como com tanta frequência acontece no que se refere à mulheres na História, é muito mais complicada e mais interessante do que as lendas.

Catarina de Aragão, por Michael Sittow.“Quando me levantei, a rainha estava olhando para mim, não como se eu fosse sua rival, mas como se eu continuasse a ser a favorita a seu serviço, capaz de lhe dar um pouco de conforto. Olhou para mim como se, por um momento, buscasse alguém que compreendesse a situação terrível de uma mulher neste mundo regido por homens.”

(A irmã de Ana Bolena, pág. 43)

Enquanto Ana tem uma reputação multicolorida – as pessoas amando-a e detestando-a na mesma medida – Catarina de Aragão descansa seguramente em uma posição santa. Ela é o arquétipo e símbolo da mulher injustiçada, e todas as qualidades tradicionalmente associadas com a mulher perfeita têm sido atribuídas a ela. É raro, a ponto de ser surpreendente, encontrar alguém que esteja preparado para indagar sobre isso – e muito menos criticar.

Catarina de Aragão foi capaz de atos perfeitamente vis, que na lenda popular são geralmente atribuídos a rainhas como Ana Bolena ou Elizabeth Woodville. Sua vingativa intimidação do embaixador judeu de seu pai, seu desejoso vício para humilhar ritualmente o cadáver do rei James IV da Escócia e sua completa indiferença para qualquer outra coisa com exceção da sua posição faz, Catarina uma personagem completamente desagradável. Sua insistência melodramática de que suas condições de vida durante sua viuvez e o divórcio foram purgatorial são patentemente falsas, o que podemos afirmar olhando para o livro de contas que sobreviveu. Que a pintura da primeira esposa de Henrique VIII também foi digna, inteligente, tenaz e magnífica também não há dúvidas. Catarina de Aragão é uma personagem muito mais interessante e complexa, mas talvez muito menos simpática do que a imagem de santa criada durante sua própria vida.

Ana Bolena, por Jules David.Talvez aqueles que acusavam Ana esquecessem de que ela travava uma batalha desesperada. Por trás de toda aquela riqueza e poder, toda admiração e afeto do rei que vertia dobre ela, Ana era atormentada pelos boatos que corriam à boca pequena pel opovo, pelos planos maliciosos de seus inimigos que neste mesmo instante tentavam arruiná-la.

(Assasinato Real, pág. 177)

Ana Bolena, por sua vez, foi uma personagem muito mais frágil do que ambos seus inimigos e seus simpatizantes gostam de pensar. O que Ana Bolena tinha, quase escorrendo por seus dedos, era o charme e o carisma. Como se viu, eram características perigosas. Ela tinha algo que hoje nós reconhecemos como qualidades de estrelas. Como as pessoas mais inteligentes normalmente são, ela foi muitas vezes acusada de ser manipuladora ou falsa. Como Catarina, ela também poderia ser desagradavelmente alheia ao custo humanitário de suas causas políticas. Ao contrário de Catarina, ela era neurótica, embora ambas as mulheres compartilhavam uma inclinação ligeiramente histérica em seus personagens.

Ana era temperamental e explosiva, o que piorou quando ela ficou mais velha. A impressão inconfundível que foi dado em relatos de testemunhas oculares dos meses finais da vida de Ana é o de uma jovem tentando desesperadamente manter tudo, enquanto sua vida inexplicavelmente e irremediavelmente estava acabando. Há histórias da bondade pessoal de Ana e sua generosidade para com aqueles oa seu redor, mas há momentos em que ela se comportou de forma imprudente e insensata. Parafraseando um romancista Tudor da década de 1950, ‘de muitas maneiras Ana Bolena era inteligente, mas nem sempre sábia’.

 Retrato póstumo de Jane Seymour,  por artista desconhecido.Lá estava Jane, humilde e acanhada, mas não completamente isenta de ambição, sentindo que talvez fosse bastante agradável usar uma coroa, e que derrubar a arrogante Ana Bolena iria ser ainda mais gratificante. Portanto, estava preparada para tomar o lugar de sua ama, embora um pouco assustada com a perspectiva. (…). Jane não sentia qualquer pena ao pensar na rainha que precisaria ser destronada para que ela pudesse usar a coroa. Jane não era cruel ou rancorosa, mas apenas desprovida de imaginação. Crianças podiam comovê-la um pouco, eram pequenas e indefesas como ela própria, e ela se identificava com suas dúvidas, seu medo dos mais velhos, sua ignorância. Ela chorara um pouco pela Princesa Maria, pois certamente essa criança sofrera um destino muito cruel; se Jane um dia viesse a ser rainha, faria tudo a seu alcance para que até a pequena Elizabeth fosse tratada com justiça, porque, ainda que fosse bastarda, era pelo menos uma criança, e uma criança muito pequena.

(Assassinato Real, pág 345)

Jane Seymour é outra pessoa problemática. A lenda romântica de que ela foi o grande amor da vida de Henrique VIII e o antídoto perfeito para o orgulho de Catarina e o temperamento de Ana é pura bobagem. Evidentemente, o casal se casou rapidamente, Dentro de algumas semanas, Henrique estava comentando com algumas damas bonitas de sua nova mulher sobre como elas eram honradas e sobre como ele lamentava não ter conhecido-as antes do casamento da rainha. O problema em descobrir a real personalidade de Seymour é que não há quase nenhuma fonte que dê algum exemplo dela fazendo alguma coisa. Seu suposto apoio a Maria Tudor conta pouca coisa, porque ela só se mostrou favorável a Maria depois que Henrique a humilhou publicamente, forçando-a a reconhecer a Reforma e a trouxe de volta para a Corte para ser exibida como alguém que havia se convertido. Dada as cicatrizes deixadas na psicologia, espírito e saúde de Maria, o anel de diamante que Jane deu para ela não deve ter ajudado muito.

Da mesma forma, não há absolutamente nenhuma prova documental para apoiar a idéia de que Jane tinha interesse em proteger o bebê sem mãe, Elizabeth. Uma das preocupações um pouco obsessivo em controlar suas damas de companhia e um desejo de gravidez inspirado no desejo de comer codornas de Calais são os vislumbres que temos do dia-a-dia de Jane como rainha. Então, 18 meses depois de garantir a coroa, ela foi atingida com uma agonia inimaginável e morreu com o resultado das complicações pós parto – assim como milhares de mulheres antes e depois dela.

Quadro póstumo de Ana de Cleves. Artista desconhecido.Ela sorri e acena para eles. Está sempre à vontade com as pessoas comuns, e gostam dela por isso. Por toda a parte, na estrada, ela sorri para o povo que sai para vê-la, e lança um beijo para as crianças que jogam buquê de flores em sua liteira. Todo mundo está surpreso com isso. Desde Catarina de Aragão não temos uma rainha tão sorridente e agradável com o povo comum, e desde Aragão, a Inglaterra não tinha uma princesa estrangeira.

(A herança de Ana Bolena, pág. 72)

A história pode ser bastante gentil com meninas não tão bonitas. Especialmente se você é um tanto gorda e um pouquinho alegre. Ana de Cleves, a ‘feia’ desventura conjugal de Henrique é, portanto, bastante lembrada com carinho hoje em dia, por causa de seu amor metafórico. Divorciada após seis meses de casamento porque Henrique a achou sexualmente repulsiva, Ana aceitou um acordo de divórcio generoso e realmente ganhou muito com a substituição de seu título de ‘rainha’ para ‘irmã do rei’. Supõe-se frequentemente que a alemã Ana estava contente com a sua sorte e que viveu as últimas décadas de sua vida em perfeita paz e felicidade – e completamente aliviada por ter escapado de uma vida presa a um homem cheio de úlcera e paranóia.

Na verdade, assim como a maioria das histórias, tudo foi um pouco mais complicado do que isso. Enquanto Ana festejava com a nova mulher do rei, Catarina Howard, ela teve muitas crises de choro furiosos quando soube que seu ex-marido se casaria com Catarina Parr em 1543. Longe de estar aliviada por não ser mais rainha, Ana levou o sexto casamento de seu ex como um tapa na cara. Ela alegou que era muito mais bonita do que Catarina e aparentemente acreditou em um rumor de que, após a morte de Howard, o rei voltaria para ela. Não há nenhum registro de que ela tenha participado de qualquer festa que Parr tenha dado. Aparentemente, até mesmo para esta mulher alegre e sensível, o fascínio da coroa e do prestígio eram demais.

Quadro póstumo de Catarina Howard. Artista desconhecido.Quatorze anos, jovem, nascida nobre embora, tragicamente, não rica; mas apaixonada, maravilhosamente apaixonada. (…) Do que adianta ser bonita se nenhum nobre vai me conhecer?Como alguém vai ver como sou encantadora se ninguém vai me olhar? (…) Ás vezes, acho que nunca vai acontecer nada para mim. Absolutamente nada vai acontecer, e vou viver e morrer como uma solteirona a serviço da minha avó. Vou fazer 15 anos no próximo ano e, claramente, ninguém sequer cogitou sobre o meu futuro. Quem liga para mim? Minha mãe está morta e meu pai mal se lembra do meu nome. É terrivelmente triste.

( A herança de Ana Bolena, págs. 15, 17 e 40).

A substituta de Ana – a sexy e núbil Catarina Howard – é o sonho de um romancista Tudor. A filha adolescente de um aristocrata empobrecido, a história diz que Catarina foi forçada a ficar na linha de visão do monarca de meia-idade por seu tio ambicioso e imoral, o duque de Norfolk.  Regada com presentes, jóias e festas, Catarina era um esposa troféu. Uma jovem sensual nos braços de um homem rico e obeso. Em seguida, ela foi flagrada com um outros rapazes. Eles e ela foram todos enviados para o bloco do carrasco, onde a pobre garota terminou sua vida antes de seu vigésimo aniversário.

Catarina morreu por algo que não era condenado por morte na leia inglesa – o adultério – foi por insistência de Henrique que sua morte foi inevitável. Mas culpar Catarina por todas as suas ações é injusto e impreciso. Ás vezes, ela comportou-se de forma quase suicida em níveis de estupidez e imprudência alto-indulgentes. Mas as vezes isso aconteceu porque ela ouviu os conselhos de suas terríveis damas de companhia e sua família, outras porque ela mesma estava entediada e queria distrações. Capaz de atos d bondade, principalmente para aqueles menos afortunados do que ela, além de ser divertida e surpreendentemente elegante ao realizar seus deveres públicos. A história de Catarina Howard é aquela que mostra o caminho terrível que a vida pode tomar por uma combinação de más decisões, maus conselhos e má sorte.

Provável Catarina Parr, artista desconhecido.Não poderia ser a perde de Henrique que a estava levando às lágrimas. Mas poderia ser o reinado: a perda de sua condição de rainha. Ela amava aquele papel. Não apenas o trabalho que requeria – os fáceis porém entediantes encontros e cumprimentos -, mas as mudanças que nela provocara. Como rainha, tinha conseguido lutar por certas pessoas, ainda que de forma silenciosa, do seu jeito. Como era apta para tudo aquilo: a conversa, as confidências. Ela sempre tivera a confiança das pessoas, mas como rainha tinha os ouvidos de todos que interessasse.

(A sexta mulher, pág. 11)

Em contraste com a ninfeta Catarina, a sexta e última esposa de Henrique, Catarina Parr, é geralmente representada como uma rata de biblioteca elegante e inteligente, e a madrasta perfeita. Para vitorianos, o fato de que Catarina era uma protestante devota a deixa com uma imagem ainda melhor. Catarina entregou-se à nova religião com todo o vigor de uma mulher jogando-se nos braços de um novo amor. Ela escreveu livros quase histéricos sobre oração, exaltando o ‘novo nascer’ do protestantismo e a teologia da justificação pela fé. Ela teve uma infância católica e só porque ela, literalmente, jogou-se aos pés de seu marido, ela escapou de ser queimada viva por heresia em 1546.

Embora a versão vitoriana da amorosa, charmosa e boa de leitura Catarina seja certamente verdade, há outros lados de sua personalidade – a ultrajante e arriscada. Isso ajuda a explicar o por que ela ganhou a antipatia de ambas suas enteadas quanto, em maio de 1547, ela casou-se com Thomas Seymour apenas alguns meses após a morte do rei Henrique. Foi uma jogada corajosa, feita por amor, e que deixou a enteada mais velha, Maria, indignada, e até mesmo fez a jovem Elizabeth confessar estar desconfortável com o acontecimento.

As seis esposas de Henrique VIII paira no nosso imaginário coletivo, cumprindo a nossa necessidade de estereótipos femininos ou fantasias históricas. Do estereotipado ‘ponto de vista’, elas respectivamente estão classificadas pela rainha nobre, a tentadora manipuladora, a mulher quieta e tímida, a gorda, a ninfeta e a governanta. Nós formamos opiniões sobre elas com base na impressão que temos de seus personagens. Todos nós fazemos isso. E somos extremamente relutantes em abandonar os preconceitos, mesmo quando confrontados com uma avalanche de evidências contraditórias. Suas vidas eram muitas vezes trágicas, mas muito inspiradoras e, invariavelmente, muito mais interessante do que ao que elas foram reduzidas.

Fontes: Gareth Russel e livro ‘As seis Mulheres de Henrique VIII‘, de Antonia Fraser.

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4 comentários sobre “Os estereótipos das esposas do rei

  1. Não entendi, você usou romance histórico como documento sem ser num estudo literário ou sobre a construção do imaginário a partir da literatura? Acho que caberia mais trabalhá-los dentro da segunda abordagem que citei acima, a imagem na literatura através dos séculos das seis esposas e como isso influenciou o imaginário ou algo do gênero e não utilizá-los para desmistificar a imagem tradicional cristalizada.

    • Eu não usei os trechos dos romances históricos como documentos. Usei simplesmente para ‘ilustrar’ o texto, do mesmo jeito que fiz com as imagens. Na citação de ‘A irmã de Ana Bolena’, por exemplo, eu achei que demonstra bem como, nesse romance, Catarina de Aragão parecia agir amavelmente mesmo com a amante de seu marido. Já em ‘Assassinato Real’, sobre Ana Bolena, achei que, aquele trecho em especial, parecia mostrar uma Ana que tinha mais atormentações e preocupações do que nós geralmente nos lembramos. Ainda em ‘Assassinato Real’, sobre Jane Seymour, quis mostrar como, apesar de ser geralmente recatada, Jane ainda tinha ambições, o que eu achei que foi bem mostrado nesse trecho específico. Em ‘A Herança de Ana Bolena’, onde Jane Parker esta falando sobre Ana de Cleves, achei que o trecho mostrava bem o comportamento alegre de Ana com o povo, uma vez que quando se fala de Cleves normalmente se fala simplesmente do seu relacionamento com o rei. No mesmo livro, gostei muito como tratam as questões e pensamentos tão infantis e egoístas de Catarina Howard, o que combina com a imagem geralmente fútil que todos têm dela. E por último, em ‘A sexta Mulher’, achei que o trecho demonstrava bem o relacionamento de Parr com a regência, por isso mesmo o coloquei.

      Espero ter conseguido responder sua pergunta.

  2. Eu gostaria muito de saber mais sobre essa história do embaixador judeu e sobre sua indiferença com tudo aquilo que não fosse sua posição… Matéria mais que perfeita!

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