Amamentação na Era Tudor

  "Caritas" por Lucas Cranach, séc. 16A amamentação em tempos medievais e Tudor era geralmente considerado um inconveniente. Enquanto a função das mulheres nobres de alta classe era principalmente a de produzir filhos saudáveis, de preferência herdeiros, não era sua responsabilidade amamentá-los. Esse era o trabalho de mulheres de classe mais baixa.

Tantos os médicos quanto a Igreja advertiam que a relação sexual durante a lactação poderia trazer problemas para o leite e resultar em uma nova gravidez, que faria a mulher parar de produzir leite para o bebê existente. Outro motivo principal era a rápida restauração da fertilidade da mulher: o aleitamento materno proporciona uma proteção natural contra a gravidez, atrasando o início do ciclo menstrual, geralmente de seis meses a um ano.

Era pensado que o primeiro leite, ou colostro, era prejudicial para uma criança, mas isso claramente não impedia as mulheres de classes mais baixas de amamentar seus filhos. Para elas, os bebês deveriam ser alimentados imediatamente. Registros paroquiais de oito cidades e vilas em Essex entre 1530 e 1600 indicam que o intervalo de concepção média entre irmãos era de nove meses, apoiando a teoria de que, entre as famílias mais pobres, o bebê era amamentado pela mãe. Apenas 3% de todas as concepções de Essex ocorreram em menos de 3 meses depois que a mãe teve outro filho. Esta pequena porcentagem deveria representar as famílias nobres locais.

Para rainhas, a entrega de seu bebê a uma ama de leite não era uma escolha. Esperava-se que elas retornassem as suas funções o mais rapidamente possível. David Starkey e Alison Weir mencionam que Ana Bolena tinha muita vontade de amamentar sua filha, Elizabeth, e que Henrique a proibiu de fazê-lo.

“Quando estavam sozinhos, Ana voltou-se feroz para Henrique.
– Queria mantê-la comigo. Queria alimentá-la do meu próprio peito. Qual é o problema…
Olhos nos olhos, Henrique lentamente disse à esposa:
– Não se esqueça que eu a ergui a Rainha da Inglaterra. Peço que não se comporte como uma plebéia.”

(PLAIDY, 2000, pág. 276)

A princesa Elizabeth foi para Hatfield, pois era comum para os bebês reais viverem em seus próprios palácios. De acordo com David Starkey, a rainha teria recebido várias mulheres interessadas em preencher a posição de ama de leite da nova princesa. Infelizmente, o nome da mulher que foi selecionada é desconhecido.

Rainhas e mulheres nobres também tinham deveres significativos para executar em termos de gestão de bens de família, em particular na ausência de seu marido, o que poderia envolver desde o gerencialmente interno, como receber visitantes, até a defesa de sua propriedade em caso do marido ter ido à guerra. Tanto Catarina de Aragão quanto Catarina Parr atuaram como regentes na ausência do rei Henrique VIII durante as campanhas francesas. A rotina de amamentação claramente incapacitaria uma senhora de qualquer outra ocupação, e isso tinha de ser evitado.

'Rest during the Flight to Egypt' por Gerard David, séc. 16Nas casas da realeza ou nobreza, a ama de leite vinha morar com a criança, mas em outros casos, a criança era enviada para viver com a ama de leite. Alison Weir afirma que, nestas circunstâncias, onde a criança viveria longe de casa até que fosse desmamada, havia o perigo de que a criança não fosse bem cuidada e, como resultado, pudesse morrer.

A ama de leite era praticamente escolhida por causa da aparência, pois era pensado que ela era capaz de passar suas características para uma criança através do leite. A sua dieta também deveria ser saudável, sem muito alho ou alimentos fortes. Ela também deveria ser de uma boa natureza, com uma aparência plácida e saudável, com pele clara e sem manchas visíveis. Em casos reais, provadores eram nomeados para verificar a comida da ama de leite para ver se não estava envenenada ou muito forte. Os pais muitas vezes contribuíam para o estilo de vida da ama. O médico John Dee fazia pagamentos adicionais para a compra de itens como sabão e vela para as mulheres que amamentaram seus filhos na década de 1570. A sua vulnerabilidade também era reconhecida: os arranjos eram feitos rapidamente para a transferência da ama ou do bebê se uma doença ou praga chegasse perto do local onde estivessem.

Merecidamente ou não, no período elizabetano amas tinham uma reputação de descuido. A mortalidade infantil era alta de qualquer maneira, sendo o primeiro ano de vida o mais perigoso, mas estima-se que a taxa de mortalidade para os bebês enviados para serem amamentados era o dobro daquele amamentados por suas mães. As razões para isso poderiam ser complexos: má alimentação, saúde e condições de vida nas classes mais baixas. Além disso, a ama de leite poderia estar dividindo sua atenção entre os outros filhos. Este estereótipo de uma ama de leite má, assassinando crianças e ainda sendo paga por isso teve muito apoio no final do século XVI e início do século XVII.

Sem dúvida, porém, muitas amas eram tratadas com afeto. Era a aconselhado a mulher que amamentava usar uma corrente de ouro ou de aço para impedir o leite de coalhar e auxiliar seu fluxo de leite ela deveria beber leite de vaca.

'The Holy Family' por Joos van Cleve, séc. 16.Quando a mãe não estava disponível, ou fosse pobre, doente ou falecida, a paróquia se encarregava de cuidar da criança. Os meninos eram frequentemente amamentados por mais tempo do que as meninas, mas até no máximo dois anos, quando eram considerados independentes.  Muitas crianças tinham muito carinho por aquelas que os amamentou e cuidou dele, e mais tarde lhes davam presentes ou se lembravam delas em seus testamentos. Durante este tempo, a criança teria pouco contato com sua família biológica. As amas, depois de amamentarem, ás vezes se tornavam governantas ou ajudavam na criação da criança de alguma outra maneira.

De acordo com Sim, não havia uma boa alternativa quanto ao leite materno. Foram inventados uma mistura de pão e leite feito para se parecer com o leite materno, e até o leite de outros animais foram testados, mas ainda sim as crianças que eram privadas do leite materno tinham maiores probabilidades de morrer.

Bibliografia:
PLAIDY, Jean. Assassinato Real. Tradução de Sylvio Gonçalves. Rio de Janeiro: Record, 2000.
GRUENINGER, Natalie. ‘Breastfeeding in Tudor England‘. Acesso em 11 de Março de 2013.
LICENCE, Amy. ‘When breast wasn’t best: Breastfeeding in Medieval and Tudor England‘. Acesso em 11 de Março de 2013.

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4 comentários sobre “Amamentação na Era Tudor

  1. Sou médica e trabalho tanto na rede pública como na rede privada de saúde, com amamentação. Existe ainda uma cultura negativa em relação à amamentação, como herança dos nossos tempos de escravidão e amas de leite.As mães de classe média e alta dificilmente conseguem amamentar exclusivamente ou manter a amamentação por um período mais longo e o serviço privado de saúde também não incentiva como deveria…Muito interessante fazer esse paralelo com seu post!

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