A importância da moda para Maria Tudor

Maria I, por artista desconhecido no seculo 16.Para muitos, o capelo francês do século XVI está profundamente associado com Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII. As lealdades políticas eram vistas como sendo mostradas no modo em que cada indivíduo estava vestido. Assim, Ana, pró-francesa, que também passou um tempo considerável no país, adota a moda francesa. Sua predecessora e rival, Jane Seymour, é associada com os vestidos ingleses. Para reforçar mais esta percepção, em 1537 Lady Lisle tentou ganhar um lugar para sua filha Ana na corte de Jane. Ela conseguiu o lugar, mas foi dito que a rainha tinha ordenado que ela dispensasse ‘seu vestuário francês’. Pode-se argumentar que Jane estava removendo todos os traços de sua predecessora e propagar-se como uma mulher modesta que se vestia no modo mais conservador da moda inglesa do que o estilo supostamente indecente francês.

Ainda sim, como os estilos franceses e ingleses eram vistos por seus contemporâneos? O estilo inglês era realmente mais conservador? As mulheres o usavam com o propósito de se mostrar modestas e até mesmo conservadoras na religião? E Ana Bolena e Jane Seymour eram realmente tão rígidas em seu modo de vestir? Não era possível que as mulheres adotassem a moda inglesa ou francesa, mesmo outra modas de outros continentes, simplesmente porque gostavam do estilo, ou porque esses estilos tornaram-se moda em outros lugares?

E sobre Maria Tudor? Ao olhar para seu senso de vestimenta, podemos desenvolver algumas idéias sobre o seu gosto contemporâneo e se os indivíduos que usavam a roupa para efeito político ou simplesmente porque eram moda na época. Maria adorava roupas e jóias. Durante seus anos de desgraça (1533-1536), o número de seus vestidos e jóias foram diminuindo como um modo de punição diante da sua recusa em reconhecer o seu novo título de bastarda. Ela queixou-se amargamente, e de acordo com o Embaixador Imperial, ela ‘mandou um cavaleiro ao Rei, seu pai, pedindo-lhe para fornecer-lhe os artigos necessários’. O seu subsequente gasto com roupas quando foi rainha era, de alguns aspectos, uma forma de compensar essa experiência ( o mesmo aconteceria com Elizabeth).

Ainda havia uma sensação de pura alegria na moda. Em 1554, o Embaixador Veneziano comentou que Maria ‘parece encantar sobretudo na elegância e magnificência na qual se veste. (…) Ela muda a cada dia’. Nos últimos anos do reinado seu pai, quando ela esteve de volta no favor real, ela teria grande atenção devido ao seu inventário de jóias. Um inventário escrito a seu próprio punho em 1542-1546 documenta cuidadosamente todos os itens que ganhava. Mas o prazer não era só de receber. Maria tinha a prática de dar seus artigos de joalheria e roupas como presente. Uma ‘grande e pesada placa guarnecida de ouro mostrando a imagem da trindade’ foi dada para Elizabeth, sua meia irmã, enquanto ela deu a Senhora Ryder uma ‘placa pesada preta, com a imagem do Rei e de sua rainha Jane Seymour em esmalte’, na ocasião do casamento desta mulher. Filipe também recebeu roupas de sua esposa. Em seu casamento, ele usou um manto de tecido dourado bordado com inúmeras pedras preciosas que Maria lhe avia dado.

Evidentemente, Maria herdou vestidos e jóias de sua antecessora. Isso foi observado pelo Embaixador Veneziano:

Ela também faz grande uso de jóias, usando-os tanto em seus cabelos e em volta de seu pescoço, bem como ornamento para seus vestidos; na qual as jóias que ela tem grande prazer, e embora ela tenha uma abundância delas que foram deixados por sua predecessoras, ainda se ela fosse melhor fornecida com dinheiro do que ela já é, ela sem dúvida compraria muito mais.

Dado que Maria já estava gastando uma soma considerável com seu guarda-roupa, seu desejo de comprar mais indica que ela tinha um grande desejo de ter uma boa aparência. Mas que tipos de estilos, materiais e cores que Maria preferia? Felizmente, existe um excelente estudo que fornece as respostas para essa pergunta. Alison Carter, cuja tese de mestrado foi sobre o guarda-roupa de Maria, escreve que suas contas revelam que a Rainha tinha grandes quantidades de veludo e cetim. O veludo era o mais caro e Maria frequentemente chamavam-os de ‘Jean Duplic’ (possivelmente era o veludo vindo de Gênova’,) e ‘Lukes’ (rico veludo vindo de Lucca, Itália). Sabemos que Ana Bolena tinha sapatos desse tipo de veludo preto vindos de Gênova. Há também grandes quantidades de veludo carmesim e púrpura comprados por Maria. Ela também favorecia o preto, como Ana Bolena. Observações feitas por Alexander Samson dizem que ‘uma mudança perceptível a partir dos corantes vermelhos e vermelho-escuros que eram populares em 1554 para tons castanhos-avermelhados em 1557’, durante o seu reinado. Claramente Maria notou as mudanças contemporâneas.

Maria I, por Master John, cerca de 1544-1545.No retrato de Maria feito por ‘Master John’ datado de 1544 – um retrato que ela encomendou – ela é retratada com um vestido no estilo francês. Como observa Carter, ‘suas características eram decote quadrado, um corpete apertado, a saia que, a partir de 1530 teve uma abertura em V abrindo do centro frontal e grandes mangas.” Embora Maria seja representada usando isso no quadro de 1544, a primeira referência a um ‘capelo francês’ em suas contas datam 1546. No entanto, cinco vestidos mencionados nas suas contas de 1538 também poderiam ter sido do mesmo estilo. Em 1540, Maria também parou de usar o capelos ingleses; o último que ela comprou foi em janeiro daquele ano.

Para Carter a ‘grandeza dos vestidos francês deixou-se levar pelo gosto conservador da Corte Inglesa e foi mais ou menos fossilizado mesmo depois que a moda francesa passou’. É claro que o que era considerado conservador na Inglaterra não era necessariamente o mesmo em outros lugares. Certamente, os visitantes espanhóis que foram à Inglaterra durante o reino de Maria não acharam que as mulheres inglesas se vestiam ou se comportavam modestamente. Além disso, um contemporâneo observou que Maria era uma santa que se vestia muito mal, implicando que ela exagerava na grandeza de suas roupas e jóias. Como a rainha Maria começou a usar dois tipos de vestes – os vestidos da moda franceses, como antes, e vestidos mais soltos (que ela usou durante o período de luto de seu pai, e voltou a usá-los com mais frequência quando rainha).

Em 1554, o Embaixador Veneziano observou que muitas vezes ela usava ‘uma veste como as que os homens usam, mas bem apertado, com um vestido por baixo bem longo, e isso é seu traje normal, sendo também a de outras cortesãs de Inglaterra’. Os vestidos podiam ser apertados na parte da frente. Como Alexander Samson resume, esse tipo de vestido pode coincidir com o período em que acreditava-se estar grávida. ‘Este novo estilo era cada vez mais favorecido por Maria, possivelmente como resultado de sua gravidez fantasma, e a falta de barriga o faz o vestido mais confortável para uma mulher com um abdômen distendido’.

O que Maria estava tentando fazer com o seu estilo de vestido? Ela estava tentando propagar suas simpatias religiosas e políticas ou simplesmente adotando a moda da época? Carter argumenta que Maria foi pioneira da ‘imagem Gloriana’ associada com sua predecessora e meia-irmã, Elizabeth I. ‘Maria era, eu acredito, suprema e ainda geralmente sem conhecimento da potência dessa imagem, capaz de se vestir com a máxima suntuosidade e ainda com decoro’. Maria se vestia para impressionar, e ela gostava disso.

Recentemente Susan James argumenta que Maria não tinha qualquer interesse na arte em si, mas era interessada no seu uso para meios políticos. Se esse foi o caso, eu acho que isso precisa ser questionado, pois a luz era vista sobre uma luz muito diferente. Era algo muito mais pessoal e significativo para ela. Este prazer na vestimenta é estendido nas numerosas madrastas, Ana Bolena e Jane Seymour. Jane pode ter usado o capelo inglês, o que é indicado em seus retratos, mas há a possibilidade de que ela tenha adotado outros capelos. Como as contas do guarda-roupa da rainha são limitados, e de fato não mencionam os capelos ingleses, não podemos saber com precisão se ela usava outros tipos de vestidos. Claramente, Jane, assim como sua enteada e antecessora Ana Bolena, adorava materiais suntuosos: ela possuía numerosos vestidos e tendia a favorecer o vermelho, amarelo e o marrom-amarelado. Como a rainha Jane prontamente aceitou as jóias e roupas de suas antecessoras. Ela pode ter tentado controlar o que suas damas estavam usando, mas ela não poderia deter a popularidade dos vestidos franceses da Inglaterra. Ela herdou os vestidos de Ana Bolena e suas jóias com muita felicidade, e assim como Maria, durante todo o resto do reinado de Henrique e Eduardo VI, herdou o bom gosto de suas predecessoras.

Rei Filipe II e Rainha Maria I, por Hans Eworth em 1558.E se a moda era mais francesa, e Maria tivesse adotado-a, o que aconteceu quando a Inglaterra entrou em guerra com a França? Não seria inapropriado usá-los? Alison Carter identifica que a chegada de Filipe na Inglaterra e a crescente popularidade das facetas dos vestidos espanhóis que, segundo ela, tinham sido incorporados nos festivais realizados na corte de Maria e Filipe, e teve um impacto em sua popularidade entre a nobreza. Contemporâneos observam que a antes da chegada de Filipe, a roupa masculina na Inglaterra era influenciada pelo estilo italiano e, depois, espanhol. Maria, assim como suas damas, foram influenciadas pelo modo espanhol de vestir-se. Carter afirma uma ‘notável similaridade entre os estilos e decorações sobre a unificação da Europa, mas o predomínio da influência espanhola’. Carter retrata Maria como uma mulher frequentemente incorporando estilos mais elegantes em suas vestes. Assim, ela não se afastou completamente do estilo francês. A mudança para o estilo espanhol antecede a declaração de guerra à França em 1557.

O que afasta a noção de que Maria era motivada por eventos políticos em seu modo de vestir é o fato de que em 1558 ela encomendou várias peças de vestidos franceses. Poucos meses depois de sua morte, várias damas que serviram Jane Seymour voltaram a usar o capelo francês. Depois de tudo, o capelo inglês tornou-se terrivelmente fora de moda. Como essas mulheres, Maria estava ciente das tendências da moda e queria se mostrar como alguém condizente a seu status.
Maria pode ter sido a filha ilegítima do monarca, de acordo com o Ato de Sucessão de 1536, e por oito anos não estava inclusa na linha de sucessão, mas ela ainda era uma das senhoras mais importantes da Corte e filha do monarca. Ela se vestia bem e entendia a importância de se vestir de modo a impressionar os outros. Maria era a principal senhora na Corte nas raras ocasiões em que seu pai estava sem uma rainha. Será que ela, talvez, aproveitou desses momentos para aprimorar seu conhecimento sobre as apresentações públicas? Possivelmente. Para Maria, a boa aparência era um prazer e um dever.

Traduzido do artigo "[she] changes every day: Mary Tudor and fashion".
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6 comentários sobre “A importância da moda para Maria Tudor

  1. E o capelo espanhol? Já estava bem fora de moda, ou ainda era usado na Espanha? Eu falo daqueles usados por Catarina de Aragão.

    • Você provavelmente está se referindo ao capelo inglês, que às vezes eram chamados de capelos espanhóis por terem se tornado moda depois que Catarina de Aragão chegou na Inglaterra. Como está escrito no artigo, Maria Tudor parou de usar os capelos ingleses em 1540, pois eles haviam se tornado muito fora de moda. Embora o capelo francês seja naturalmente associado a Ana Bolena e Jane Seymour e seja mais representada usando o capelo inglês – como um modo de dizer que ela estava trazendo de volta os valores tradicionais, tanto Catarina quanto Jane tinham capelos franceses, embora quase nunca sejam representadas usando-os. Em 1540 tanto as jovens quanto senhoras usavam o capelo francês. Eu não sei dizer se eles ainda estavam na moda na Espanha.

  2. Obrigado. A propósito, eu li o seu artigo sobre a moda na Era Tudor. Você não poderia escrever um explicando detalhadamente cada peça de vestuário, tanto masculino quanto feminino? Estou adorando o site, parabéns!

    • Obrigada! Em breve publicarei um artigo explicando por detalhes as peças dos vestuários femininos e masculinos.

  3. Maria Tudor não apenas amava roupas e joias, como utilizava artigos de luxo para exercer o santo ofício da implicância. Foi relatado que não uma, mas várias vezes antes de ser rainha, ela presenteou suas primas Grey, calvinistas e ascetas convictas, com os mais magnificentes mimos. Generosidade? Também, mas acima de tudo, uma postura de desafio desta católica aos nobres já reformados…

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