A morte da Rainha Virgem

Elizabeth I por artista desconhecido, 1610.No dia 24 de março de 1603, a Rainha Elizabeth I, filha de Ana Bolena e Henrique VIII, morreu no Palácio de Richmond, com 69 anos. Ela foi a terceira dos filhos de Henrique VIII a ser monarca, mas reinou por muito mais tempo que seus irmãos: 44 anos e 127 dias. Os últimos anos do reinado de Elizabeth foram ocupados por antagonismos, intrigas políticas e os partidos sobre os possíveis herdeiros do trono.

Em janeiro de 1603, a corte foi transportada do frio para Whitehall, para o confortável Castelo de Richmond, ‘quente caixa de inverno‘, disse Elizabeth, ‘para abrigar a minha velhice‘. No princípio de março, a rainha foi atacada por uma crise de icterícia, a febre abalou e as forças começaram a abandonar. Ela não aceitou a assistência de nenhum médico e teimou em não se tratar. Sentada em uma cadeira, de olhar fixo, a rainha passou longas horas sem falar e repeliu os alimentos que lhe foram apresentados.

Seus dedos começaram a inchar. No dia 11 de março é preciso serrar o anel da coroação, que nunca a deixou, mas que agora começa a entrar em sua carne. É como se o casamento místico com o reino se tivesse quebrado.

Em 1603, O Duque de Veneza enviou Carlo Giovanni Scaramelli para a Corte de Elizabeth. Sua missão lá durou poucos meses, mas ele escreveu vívidas descrições de seu tempo na Inglaterra, e fez relatos maravilhosos da sua audiência com Elizabeth antes de sua morte. Uma de suas cartas descrevem a real preocupação sobre a reivindicação do trono de Arabella Stuart entre as causas da doença da Rainha:

“Eu estava certo em minha carta passada quando disse que a mente de Sua Majestade foi esmagada por uma dor maior do que ela possa suportar. Chegou a tal ponto que ela passou três dias e três noites sem dormir e, assustadoramente se, se alimentar. Sua atenção foi fixada não só nos assuntos de Lady Arabella, que é, ou finge, ser meio louca, mas também sobre o perdão que ela deu no passado para o Conde Tyrone, líder dos rebeldes católicos na Irlanda. Ela passou a considerar que o Conde de Essex, que costumava ser seu íntimo favorito, pode ter sido inocente depois de tudo (…) Mas o Conselho, condenando a conduta de Essex na vinda para a Inglaterra para explicar suas ações sem nenhuma deixa dada, persuadiu a Rainha a colocá-lo na Torre, onde se seguiu todos os eventos que levara à sua decapitação no primeiro dia da Quaresma de 1601. Sua Majestade sente isso de forma tão dolorosa, que no primeiro dia da Quaresma deste ano, que no calendário Inglês é o dia dezenove deste mês, ela lembrou desse aniversário desse tão comovente espetáculo que explodiu em lágrimas e dolorosas lamentações, como se fosse algum pecado mortal que ela tivesse cometido, então caiu em uma doença que os médicos imediatamente consideraram mortal (…)

A doença da Rainha é falta de sono, falta de apetite, o trabalho dos pulmões e coração, a cessação dos movimentos naturais, e a falta de resposta aos remédios. Existe pouca febre, mas esta se torna forte; também não há nenhum bom sintoma exceto um ligeiro inchaço nas glândulas sob a mandíbula, como que uma descarga de uma pequena quantidade de matéria.

Há rumores de melhoras, mas na verdade tudo paira em dúvida, nem parece certo que irá salvá-la; que essa Rainha de 71 anos de idade, esta é a primeira doença grave que ela teve em toda a sua vida.”

A execução de seu favorito, Robert Devereux, Conde de Essex, em 25 de fevereiro de 1601, teve um enorme impacto sobre Elizabeth. Ela ja havia perdido seu grande amor, Robert Dudley, em 1588, seu amigo Blanche Parry em 1590 e seu conselheiro William Cecil, Lorde Burghley, em 1598. Parecia que todos que ela amava estavam deixando-a. Ela sentia a falta de todos e lentamente foi perdendo o interesse e o aperto firme com o qual ela sempre teve com o funcionamento do país. Como é descrito na carta, Elizabeth se recusou a ser examinada, e se recusou a se deitar, ficando horas de pé. Cecil lhe disse: ‘Senhora, para contentar o povo, deveis recolher ao leito‘. Elizabeth replicou: ‘Homenzinho, homenzinho, a expressão ‘deveis’ não se usa quando é a um príncipe que se dirige’.

'A Morte de Elizabeth I', por Paul Delaroche em 1828.Como sua condição se deteriorava, suas damas de companhia espalharam almofadas no chão, onde Elizabeth eventualmente se deitou. A rainha ficou no chão por quase quatro dias, falando pouquíssimas palavras. Ficando cada vez mais fraca,  seus servos insistiram que ela fosse para a cama, onde ficaria mais confortável. Os Conselheiros de Elizabeth se reuniram em torno de sua cama, e uma música suave foi tocada para acalmá-la.

Elizabeth ainda não tinha nomeado um sucessor, e fez um sinal para Robert Cecil, indicando que ela desejava que James a sucedesse no trono. Era óbvio que a rainha estava prestes a morrer, e o velho Arcebispo Whitgift foi chamado a sua cabeceira para oferecer orações. Ele se ajoelhou aos pés da cama e iniciou as orações dos agonizantes. Ao fim de uma hora, fatigado, ele se interrompe e quer levantar. A rainha, que julgavam até então em coma, estendeu-lhe o dedo e ordenou que continuasse. Durante toda a noite do dia 23 para 24 de março, na câmara iluminada pela luz de velas, o murmúrio das orações prosseguiu e a rainha jazia imóvel.

Antes mesmo de saber da morte da Rainha, Scaramelli escreveu:

(…) A vida de Sua Majestada esta absolutamente perdida, isso se ela já não esta morta. Nos últimos seis dias, ela tornou-se muito boba, quase idiota.

Robert Cecil dirige um projeto de proclamação destinada a ser lançada por James Stuart quando subir ao trono. Um cortesão, Robert Carey, mandou preparar, entre Londres e Edimburgo, mudas de cavalo, graças às quais monarca escocês seria informado, no mais curto prazo possível, da morte da rainha. No final da carta acima, o enviado veneziano adicionou um pós-escrito:

 “Na última noite, Sir Robert Carey (Barão de Cree) partiu para a Escócia para transmitir ao Rei [James V] a notícia da morte da Rainha, que teve lugar ontem à noite, e esta noite o Conde de Northumberland, o Conde de Cumberland e outros vão sair para dar as boas-vindas ao Rei da Inglaterra. A proclamação da sucessão de Sua Majestade [James V] é muito esperada. (…)”

Por fim, Scaramelli escreve uma carta no dia em que a Rainha morreu:

A Rainha, perto do fim de sua doença e vida, após algumas horas de sono, voltou à plena posse de seus sentidos. (…) Ela reconheceu que estava morrendo, e fez com que os Lordes do Conselho fossem chamados à sua presença. Com lágrimas e suspiros, ela disse que se via tão fraca que sua vida duraria pouco. Ela exortou e ordenou que eles tivessem o devido cuidado para a paz no reino, e vissem que a Coroa viesse para o maior merecedor, quem ela secretamente sempre pensou que seria o Rei da Escócia, em direito de nascimento e porque ele a excedia em mérito, tendo nascido um Rei, enquanto ela era, mas em uma pessoa privada. Ele deveria ser mais aceitado por eles pois ele trazia com ele um reino inteiro, enquanto ela trouxe nada além dela mesma, uma mulher. Quanto a quantidade mais importante de sua propriedade privada, ela acumulou um reinado de quarenta e cinco anos (que é calculado ter ultrapassado quatro milhões e meio em ouro), ela declarou que não faria nenhuma outra provisão e que era para seguir com a sucessão.

No mesmo dia, ela falou de certas coisas que pesavam sobre sua consciência, e recordou à mente a morte do Conde de Essex. Em seguida, subindo para temas de religião, ela disse que esteve em guerra com o Pontífice e príncipes, e tocou em dois pontos principais de variância da Igreja de Roma, o uso de vernáculo nas orações e a questão do Sacramento, a qual eu não direi mais nada; o suficiente para que ela lembrasse que a partir de suas orações que Deus não iria contra ela na próxima vida, que o sangue de sacerdotes derramados por ela; há alguns católicos na Corte que que pensam que, em seus sentimentos íntimos, Sua Majestade não estava longe da reconciliação com a verdadeira fé católica. Esta opinião é confirmada porque foi observado que em sua capela privada ela preservou o altar com imagens, os órgãos, as vestimentas que pertencem ao rito latino, e certas cerimônias que são odiadas por outros hereges; e também porque em seu leito de morte ela segurou a mão do Arcebispo de Canterbury até seu último suspiro, e como ele mostra certa disposição para o catolicismo, como se abstende do matrimônio, e seu uso dos pães ao administrar o sacramento. Tudo isso são facadas nos corações dos hereges, e todos eles foram silenciados de bom grado no relatório, onde todos concordaram que a Rainha morreu como viveu.

Seja como for, ela morreu uma rainha que viveu por muito, tanto gloriosamente quanto feliz neste mundo. Com ela, morre a família Tudor, originalmente de extração galesa. Quanto à sua aparência pessoal, ela deixa a fama no passado, embora nunca tenha perdido sua beleza. Quanto á suas qualidades mentais, eles citam tantos casos de prudência não emanados do Conselho, mas em muitos casos importantes do resultado de sua solene deliberação. Ela sabia nove línguas tão completamente que cada uma parecia ser sua língua nativa; cinco delas eram linguagens do povo governado por ela; o inglês, galês, córnico, escocês, (…) e irlandês. Todos eles são tão diferentes que é impossível para aquele que fala uma compreender qualquer uma das outras. Além disso, ela falava perfeitamente latim, francês, espanhol e italiano.

A proclamação da morte da rainha foi recebida com atordoamento e descrença pelo povo. Elizabeth tinha reinado por quase 45 anos, e em uma época em que a idade máxima que se poderia esperar chegar era 35, a grande maioria da população nunca tinha conhecido outro monarca.

O Funeral de Elizabeth I, por artista desconhecido, 1603.A causa da morte de Elizabeth não foi confirmada, pois a rainha não tinha autorizado uma autópsia. Acredita-se que ela tenha morrido de envenenamento, devido a aplicação de maquiagem branca chamada ceruse – uma mistura de chumbo e vinagre. Outras possibilidades são câncer ou simplesmente a idade. O corpo da rainha foi embalsamado e colocado em um caixão de chumbo em Whitehall.  O caixão foi levado para Westminster, onde permaneceu até o funeral. O povo mostrou à rainha morta o maior respeito possível, e o cortejo fúnebre consistia em mais de 1000 enlutados. Este número foi aumentando enquanto os londrinos foram seguindo a procissão. O caixão foi envolto em veludo roxo, uma cor usada somente pela realeza. O caixão foi puxado por quatro cavalos cobertos de tecido preto. O caixão foi colocado dentro de um dossel, que foi carregado por seis cavaleiros do reino. Em cima dele, havia uma efígie da rainha Elizabeth, vestida com as melhores roupas. Ela fora tão bem feita que arrancava suspiros do povo de Londres. Todos os enlutados vestiam preto – a única coisa que variava era o material de acordo com seu status. A longa procissão parou na Abadia de Westminster, onde Elizabeth I foi sepultada junto de sua meia-irmã Maria I. Lê-se na inscrição do túmulo:

“Consortes, tanto no trono quanto na sepultura, descansamos aqui as duas irmãs, Elizabeth e Maria, na esperança de nossa ressurreição’.

Rainha Elizabeth, atribuído a John Bettes, cerca de 1585.Indiscutivelmente, ela foi uma das maiores monarcas a governar a Inglaterra. Sobre ela, o país prosperou, tornou-se uma grande potência, a arte e a literatura foram incentivadas, grandes exploradores descobriram novas terras.  A morte de Elizabeth foi lamentada por muitos de seus súditos, enquanto outros ficaram aliviados com sua morte. As expectativas com o rei James começaram muito altas, e logo declinou. Na década de 1620, houve um ressurgimento nostálgico do culto de Elizabeth. Ela era elogiada como uma heroína da causa protestante e a governante de uma idade de ouro, enquanto James era retratado como um simpatizante católico, presidindo uma corte corrupta. A imagem triunfal que Elizabeth cultivou durante todo o seu reinado, contra um fundo de partidarismo e as dificuldades econômicas e militares, foi idealizada como um momento em que a coroa, a Igreja e o Parlamento haviam trabalhado em um equilíbrio constitucional.

Bibliografia:
CHASTENET, Jacques. A vida de Elizabeth I de Inglaterra. Tradução de José Saramago. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1976.
GLANVILLE, Stephen. ‘Elizadeath III: Scaramelli’s Story‘. Acesso em 24 de Março de 2013.
Death of Queen Elizabeth I‘. Acesso em 24 de Março de 2013.
The Queen’s Death‘. Acesso em 24 de Março de 2013.
Elizabeth I of England‘. Acesso em 24 de Março de 2013.

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11 comentários sobre “A morte da Rainha Virgem

  1. Muito bom este documentaria, muito comovente, Elizabeth teve uma vida magnifica e tudo sempre com muita intensidade. Ela consegue surpreender ate em seu ultimo suspiro. Grata !

    • QUAL É A SUA, VIRGEM?? DEU MAIS QUE XUXU NA GROTA DA SERRA. NÃO CASOU DE MALANDRA, SEM NENHUM HOMEM PARA LHE IMPOR UMA FIDELIDADE, FICOU ABSOLUTA: LIVRE, LEVE E SOLTA !

  2. Assisti o filme ‘ ANA DE MIL DIAS ‘ e fiquei interessada em saber mais sobre essa história em uma época que comparando com a atual continua igual com tantas barbaridades. Corrupções e incensatez. Apesar de ter sido uma realidade articulada e dramática. É interessante saber que existiu.

  3. A primeira vez que ouvi falar dela foi na sétima série, no livro falava que ela tinha mandado matar a prima e no final do texto falava que ela morreu sem casar e sem deixar filhos. Fiquei muito intrigada porque nunca tinha visto até então, uma mulher agir assim. Comecei a pesquisar sobre ela e desde então gosto ler sobre os reis ingleses.

    • Eu fiquei intrigada com os Tudor na primeira menção que tive deles numa aula de história, em que a professora falou sobre o divórcio de Catarina de Aragão e Henrique VIII. Mas só fui começar a pesquisar sobre eles no Ensino Médio, depois de assistir A Outra!

      • Depois de “A outra” eu comecei a pesquisar sobre Ana Bolena pq até então, só gostava de Elizabeth e nunca tinha me ligado mt na história dos pais…aí comprei aquele livro “As seis esposas de henrique viii” e me apaixonei pela história de Catarina de Aragão. Até hoje não sei qual delas é a minha preferida hahaha

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