O compromisso matrimonial entre Henrique VII e Joana de Castela

Henrique VII, por artista desconhecido, em 1600.Henrique VII, na casa dos cinquenta, era careca, sem dentes e tinha mal hálito. No entanto, desde a morte de Elizabeth de York em 1503, o soberano colocou na cabeça que tinha de se casar novamente. Com a morte de Artur Tudor, seu filho, ele pensou em se casar com sua nora, Catarina de Aragão. Depois, ele passou a olhar em Joana de Nápoles e Luisa de Sabóia. Mais tarde, começou a pensar em Margarida de Angouleme, a filha de Luisa. A beleza da arquiduquesa da Áustria, Margareth, não passou despercebida aos olhos do velho rei. Finalmente, Henrique VII achou que Joana de Castela, de 27 anos, fosse a mais adequada para ele. O monarca inglês já tivera a  oportunidade de conhecê-la durante sua breve visita na ilha britânica, no começo de 1506, quando a armada flamenga, junto de Filipe, o Belo, chegou, forçada pelas tempestades, às praias inglesas.

Até então, era de conhecimento comum que Joana tinha tendências a depressão profunda, o que ela demonstrara durante sua estadia na Corte inglesa. Henrique VII se sentiu atraído diante da ideia de que era uma jovem ardente, que levava a paixão aos limites extremos. Não obstante, Joana já gestara cinco filhos saudáveis e robustos. Tal condição era valorizada em qualquer reino, pois por norma geral qualquer governante era constantemente perturbado pelas questões de sucessão. Naquela época, Henrique tinha acabado de perder seu primogênito. Embora Joana mostrasse sinais de instabilidade emocional, nada atingiu Henrique. O dever fundamental de uma rainha consorte era proporcionar herdeiros e consolidar a dinastia a qual pertencia.

Rodrigo González de la Puebla, o Embaixador de Fernando II de Aragão, que estava na Corte de Henrique VII da Inglaterra, também apoiava o pedido. ‘Não há rei no mundo’, escreveu ele ao pai de Joana, ‘que possa ser melhor marido do que o rei da Inglaterra para a rainha de Castela, seja ela sã de juízo ou louca’. Com um marido como Henrique, ela recuperaria logo a razão e, em todo caso, se a loucura da rainha se mostrasse incurável, ajuntava Puebla, não haveria nenhum inconveniente em que ela vivesse na Inglaterra, especialmente ‘desde que lhes foi assegurado que o seu desarranjo mental não a impediria de ter filhos’.

Joana, A Louca, em Flanders, no século 15.Filipe, marido de Joana, morrera em setembro de 1506. Joana não se separava do corpo de seu marido morto, e isso era um obstáculo para o futuro marido, o monarca inglês. Assim, Henrique preferiu jogar nos dois lados. Por um lado, pretendia casar-se com Joana, mas mostrava interesse em Margareth da Áustria. Ao longo da maior parte de 1507 e 1508 o rei fez propostas a Margaret e Joana.

Fernando, o rei de Aragão e pai de Joana, tinha perdido sua esposa Isabela e queria manter o controle de Castela e, ao mesmo tempo, estava tendo dificuldades sobre como pagar o resto do dote de Catarina, sem o qual Henrique VII não permitira que ela se casasse com o futuro Henrique VIII. Henrique VII certamente desejava colocar toda a pressão possível sobre Fernando, e o casamento dele com Joana seria um meio de privar Fernando do controle de Castela. Por outro lado, se Henrique se casasse com Margareth, obteria o controle da Holanda e ainda teria o controle de Castela através do casamento de Carlos com sua filha, Maria Tudor.

Se Henrique se casasse com Joana, além da possibilidade de ter mais filhos, obteria também o controle de Castela, uma vez que Fernando havia declarado ela e seu marido, Filipe, o Belo, Rei e Rainha de Castela. Assim que Filipe morreu, Joana era agora Rainha de Castela. Apesar de Joana ter, inicialmente, intenções de governar Castela sozinha, sua reputação de louca trabalhou contra ela. Grávida de seu sexto filho e seu filho mais velho tendo apenas seis anos de idade, Joana não foi capaz de impedir as crises políticas que surgiram após a morte de seu marido. Um surto de peste que surgiu na época só serviu para enfatizar quanto Joana era pouco habilidosa para lidar com crises. Assim, ficou óbvio que Joana não poderia governar sem um marido. Vários nobres de Castela estavam ansiosos para se emancipar do controle de Fernando. Henrique via tudo isso com muita atenção, e enviou três cavaleiros para entregar os papéis sobre a proposta de casamento para Fernando, o pai de Joana. Tudo isso, na verdade, era somente um pretexto: a verdadeira missão dos enviados ingleses era saber se Fernando tinha alguma autoridade sobre Castela.

Para formalizar o compromisso, o rei inglês usou a infanta espanhola, Catarina de Aragão, como uma peça de xadrez. A jovem princesa viúva vivia desamparada em Gales, e não tinha recursos para pagar seus empregados, comer ou vestir como convinha a seu posto.

Catarina sentiu que o casamento de sua irmã com seu sogro poderia ser sua libertação, se Joana fosse rainha da Inglaterra. Assim, ela implorou a seu pai, a única pessoa capaz de convencê-la. Fernando, fosse qual fosse sua opinião sobre o assunto, não fez nenhuma objeção à proposta de Henrique, embora não tivesse certeza se sua filha Joana estivesse inclinada a se casar, e se estivesse, com certeza não seria com o velho rei da Inglaterra. Assim, o projeto foi mantido em segredo, pois Joana não era facilmente maleável. Fernando escreveu:

‘Eu jamais consentirei que ela espose outro que não seja o rei da Inglaterra, meu irmão, e com o maior amor e boa vontade empregarei todo o meu esforço e toda a minha energia para promover essas núpcias. Mas é preciso que saibais que a dita Rainha, minha filha, transporta ainda consigo o cadáver do rei Filipe, seu defunto marido. Antes da minha chegada ninguém conseguiu persuadí-la a mandá-lo sepultar, e desde que cheguei ela declarou que não deseja que o dito cadáver seja enterrado… Levantei esta questão para saber se ela estava disposta a casar-se, sem todavia aludir a quem quer que fosse. Ela respondeu que em tudo faria o que eu lhe aconselhasse ou mandasse, mas suplicou-me que não a obrigasse a responder enquanto o corpo do marido não estivesse sepultado. Henrique VIIFeito isso, ela me responderia. Considerando essas circunstancias, eu não quero fazer pressão nela, antes que o dito cadáver esteja enterrado, porque penso que isso produziria uma impressão desfavorável. Mandei pedir a Roma um breve, para tentar por este meio persuadi-la a enterrar esse cadáver o mais cedo possível. Quando estiver enterrado, falarei de novo com ela para saber as suas intenções a respeito do casamento; e se a achar propensa, não permitirei que seja com outro senão com o rei da Inglaterra, meu irmão’.

De qualquer forma, um acontecimento repentino acabou com todas as chances de um casamento. Henrique VII morreu em 21 de abril de 1509, e Fernando, convencido de que qualquer projeto de casar sua filha Joana seria impossível, decidiu que ela deveria ser trancada em Tordesilhas.

Como menino e homem, a vida de Henrique Tudor tinha sido difícil, e durante os vinte e quatro anos de seu reinado, ele nunca foi livre da tensão e ansiedade, nunca relaxou e nunca permitiu que outros tomassem decisões. Em 1508, Henrique teve uma doença grave, da qual nunca se recuperou totalmente. No início da primavera de 1509, sua saúde finalmente se esgotou. Em 21 de abril, o fundador da Dinastia Tudor morreu, deixando um filho e sucessor, Henrique VIII.

Bibliografia:
HACKETT, Fracis. ‘Henrique VIII’. Tradução de Carlos Domingues. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores.
VITELLI, Romeo. ‘Mad Joanna‘. Acesso em 6 de  Abril de 2013.
Henry the Seventh by James Gairdner‘. Acesso em 6 de  Abril de 2013.
Chapter III. Henry VII (iii), 1498-1509 – The Dynasty Assured‘. Acesso em 6 de  Abril de 2013.
BARRIO, Caroline José. ‘El compromiso matrimonial entre Doña Juana de Castilla y Enrique VII de Inglaterra‘. Acesso em 6 de  Abril de 2013.

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3 comentários sobre “O compromisso matrimonial entre Henrique VII e Joana de Castela

  1. Eu realmente não sabia disso; bem interessante como essas situações se entrelaçam e se soltam. Eu penso que um casamento entre os dois não seria possível mesmo que Henrique não tivesse falecido; Joana não era fácil de dobrar ou de ser arrastada para um navio rumo á Inglaterra. De qualquer forma, um texto bastante enriquecedor.

  2. Foi surpreedente a capacidade de Henrique Vll, para manter o poder a aumentar as rendas da corte inglesa, atraves das articulacoes e negociacoes que fez com os casamentos de seus filhos. E bem verdade que esta era uma forma natural entre as cortes da epoca quanto ao tema casamentos. Mas este rei tinha um poder absoluto, um dominio a mais sobre seus filhos para esta questao. O que fica evidente mais tarde e vai refletir nas angustias e atitudes de Henrique Vlll, a respeito destes casamentos que realizou tao absolutamente perturbados, parece que ele nao tinha a mesma capacidade e liberdade de escolha como seu pai teve a respeito deste assunto. Desconhecia esta historia de Henrique Vll, gostei muito do que li.

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