Os negros na Inglaterra Tudor

‘John Blanke, o trompetista negro’Os negros africanos eram mais numerosos na sociedade Tudor do que seria de se esperar, o suficiente para serem descritos como ‘grandes números’ em uma carta de Elizabeth I em 1596. Há evidências de que mais de 350 africanos viviam na Grã-Bretanha entre 1500 e 1640, entre empregados, músicos, dançarinos e artistas. É necessário deixar claro que eles não eram escravos. De acordo com a lei inglesa, não era possível ser um escravo na Inglaterra (embora este princípio foi re-escrito no final do século 18). Os africanos são identificados em registros paroquiais de 1558 como ‘Blackamoores’, ‘Aethiopians‘ e ‘Negros‘. Eles foram na sua maioria registrados nas cidades de Londres, Bristol, Plymouth, Leicester e Barnstaple, sendo batizados na Igreja da Inglaterra. Como explicarei neste artigo eles não estavam, necessariamente, à margem da sociedade.

Catarina de Aragão havia trazido algumas atendentes africanas quando ela chegou na Inglaterra para se casar com o príncipe Artur, em 1501. Um deles foi um tropetista chamado John Blanke, um dos primeiros negros a se terem registro na Inglaterra depois do período Romano. Pouco se sabe de sua vida, com exceção de que ele ganhava 8d por dia na Corte do rei Henrique VIII, e um documento sobrevivente grava um pagamento de 20 xelins para ‘John Blanke, o trompetista negro’ em novembro de 1507. Blanke provavelmente participou das comemorações do nascimento de Henrique, Duque da Cornualha, filho de Henrique VIII e Catarina de Aragão. Em 1523, ‘Frauces Negro’ foi registrado trabalhando nos estábulos da rainha. Catalina de Cardones, uma moura, chegou à Inglaterra serviu-a por 26 anos, sendo sua dama de companhia e Senhora do Quarto.

Em 1599, Jogn Cathman se casou com Constantia, ‘uma empregada negra’. Um pouco mais tarde, James Curres, um ‘cristão mouro’, casou-se com Margaret Person, uma empregada. Em 1597, Mary Fillis, uma mulher negra de 20 anos tinha sido, por muito tempo, empregada da viúva Barker em Mark Lane. Ela estava na Inglaterra por 13 ou 14 anos, e era a filha de um fabricante de pás e cestos. Sem ser batizada, ela se tornou a empregada de Milicent Porter, uma costureira, onde ela foi ‘tomada pela fé em Jesus Cristo, estava desejosa de se tornar uma cristã’. Em 3 de junho de 1597 ela foi batizada.

 Abd el-Ouahed ben Messaoud  por artista desconhecido em 1600.A visita mais impressionante dos negros africanos durante o tempo em Shakespeare viveu em Londres foi em 1600, na chegada do Embaixador Marroquino e suas 16 comitivas. Seu objetivo era realizar negociações com Elizabeth I na esperança de formar uma aliança entre os dois países contra a Espanha. Foi registrado que eles se hospedaram em Londres por seis meses, estando presentes para as festividades que marcaram o aniversário da coroação da Rainha em 17 de novembro, mas a esperada aliança nunca se concretizou, embora acordos comerciais tenham sido feitos. Enquanto isso, o embaixador Abd el-Ouahed ben Messaoud teve seu retrato pintado e há sugestões que o embaixador marroquino tenha inspirado o personagem Otelo, de Shakespeare. Dois dos maiores personagens de Shakespeare são negros, e o fato de eles terem sido colocados em um lugar de destaque reflete o fato de que eles eram um elemento significativo da população de Londres.

Thomas Dekker, outro escritor de peças, traçou a integração de um mouro norte africano com a Espanha e quando (e somente quando) um mouro, Eleazar, está prestes a usurpar o trono espanhol. Sua amante, a Rainha Mãe, triunfantemente declara-o um ‘orgulhoso blackamoore’.

Também são mencionados mercenários espanhóis : ‘Sir Pedro Negro’ pode ser sido o primeiro mercenário a receber um título de cavalaria inglesa. Em 1546, Pedro Negro viajou para a França com ‘diversos outros cavaleiros espanhóis e outros senhores’ sob o comando de um coronel espanhol chamado Pedro de Gamba. Eles foram vitoriosos em 15 de julho e todos ganharam anuidades vitalícias. Negro recebeu £75 em Agosto e£100 em Setembro daquele ano. Em 28 de setembro de 1547 ele foi condecorado como Duque de Somerset a Roxborough, depois da tomada de Leith. Em 7 de julho de 1549 ele levou uma carga através dos escoceses que estavam sitiando o estrategicamente bem colocado Castelo de Haddington, para prover ao castelo um poder de fogo que permitiria aos ingleses se defenderem contra numerosos inimigos. De acordo com um cronista espanhol, era necessário matar 300 cavalos para que o inimigo não os tomassem, o que ele chamou de uma ‘grande façanha de guerra’. Negro morreu em Londres em 15 de julho de 1551 da doença do suor. Mesmo levando em conta o sobrenome, não há nenhuma prova que Pedro Negro realmente tenha sido negro, e que o sobrenome tenha pertencido a uma família genovesa que se estabeleceu na Espanha e em Portugal durante os séculos XIV e XV.

Em 1549, Marion, Lady Home, escreveu a Maria de Guise pendindo-lhe que fosse atenciosa a uma ‘moura’ sem nome. Outros africanos na Inglaterra não tiveram um status tão grande quanto Pedro. Dyego Negro estava trabalhando como um servo de Thomas Bowyer em 1541. Em Southampton em torno de 1546-1548 vivia um africano, originalmente da Guiné, chamado Jacques Frances, escravo de um veneziano chamado Peter Paulo que foi contratado para levantar navios afundados, incluindo o Mary Rose de Henrique VIII. Desdemona and Othello por Jack Leigh Wardleworth.Fraces foi chamado ao tribunal para depor em defesa de seu mestre que havia sido acusado de roubar estanho e chumbo. Seu testemunho foi admitido pelo tribunal, apesar dos protestos de um outro veneziano, Anthony Nicholado Rimero, que disse que ‘James Fraunces era um mouro nascido onde não cristãos (…) portanto nem fé nem crédito deve ser dado a sua fala ou a de qualquer outro estranho cristão (…)’. Este caso põe em causa o estatuto jurídico dos africanos na Inglaterra. Jacques Frances afirmou no tribunal que ele era um ‘famulus’, que significa empregado, e não ‘servus’, que é palavra normal latina para designar escravo. A escravidão não era reconhecida pela lei inglesa, como está escrito na decisão de Cartwirigh em 1658, na qual ‘foi resolvido que o ar da Inglaterra era muito puro para que escravos respirassem’.

Em 1554, um comerciante chamado John Loke trouxe cinco africanos para a Inglaterra, três dos quais foram renomeados Anthonie, George e Binnie ‘dos quais alguns eram homens altos e fortes, e assimilaram bem nossa comida e bebida’. Três voltaram para sua casa em 1556 para atuarem como guias e intérpretes. O que aconteceu com os outros dois não foram registrados.

A vida de nem todos estavam na luz e doçura, é claro. Algumas mulheres negras trabalhavam ao lado de outras senhoras brancas como prostitutas em Southwark. Lá havia uma famosa ex-dançarina a serviço da rainha chamada Lucy Negro, que conduzia um estabelecimento frequentado por nobres e juristas.

A Rainha Elizabeth I, assim como James IV, empregava músicos negros. Ela também tinha uma empregada negra. Mas, embora Elizabeth pode ter apreciado os entretenimentos fornecidos pelos negros, mas  em 1596, a rainha Elizabeth emitiu uma carta ao Lorde Prefeito de Londres para deportar os negros do país. Na época, a carta teve pouco efeito. Uma semana depois ela reiterou sua ‘boa vontade para com aquelas gentis pessoas a serem mandadas para fora do reino’, e encomendou ao comerciante Casper Van Senden para tomar certas medidas aos ‘blackamoores aqui neste reino para transportá-los para a Espanha e Portugal’.

Em torno de 1600, a presença dos negros tornou-se um problema para o governo inglês. Eles aumentaram consideravelmente de números por causa de escravos libertados de navios espanhóis capturados, onde eram mantidos como funcionários da cozinha e do navio. A presença de pessoas negras começou a ser visto como um incômodo. Finalmente, em 1601, ela queixou-se novamente e autorizou novamente a sua deportação. Em um dos papéis de Cecil mantidos em Hatfield House em 1601 é possível ler o seguinte:

'Othello'A rainha está descontente com o grande número de ‘negars e blackamoores, que estão infiltrados no reino desde os problemas entre sua Majestade e o Rei da Espanha, e estão sendo mantidos aqui, para a irritação de seu próprio povo.

Em julho de 1602, Cecil estava pondo pressão sobre os comerciantes. Um deles escreveu que:

Eu tenho persuadido a negociação dos comerciantes para Barbary, não sem alguma dificuldade, para pagar as taxas dos mouros recentemente resgatados da servidão pelos navios de Sua Majestade, até agora o que pode ser dito a respeito da hospedagem e alimentos, alguns navios podem estar prontos para levá-los a Barbary…

É no mínimo interessante notar que as autoridades pagavam as alimentações e hospedagem enquanto os escravos libertos estavam em Londres.

Com evidências na literatura da época, acredita-se que esta discriminação permaneceu religiosa e não racista. Alguns historiadores também pensam que Elizabeth queria utilizar os ‘blackamoores’ como ferramenta de negociação, uma vez que muitos ingleses estavam sendo mantidos prisioneiros em prisões estrangeiras.

Porque este desejo súbito e urgente para expulsar os membros da população negra da Inglaterra? Mais do que uma transação comercial, no século 15 as classes dominantes se tornaram cada vez mais preocupados com a pobreza e a vadiagem. Eles temiam a desordem e o colapso social e culparam os pobres. Na década de 1590, muitas colheitas foram — trazendo fome, doenças e um rápido aumento da pobreza. As ordens de Elizabeth contra os negros poderia ser uma tentativa de culpá-los pelos problemas sociais. Uma proclamação de 1601 afirmava que os negros estavam ‘prostrados e deixados aqui para o grande incômodo (da rainha) e de seu próprio povo, que querem o alívio do consumo dessas pessoas’. O anúncio também afirmou que “a maioria deles são infiéis, não tendo conhecimento de Cristo ou o seu Evangelho”.

Othello's Despair, por Alexander Christie em 1851.Poderia ser o caso de que muitos (embora não todos) negros fossem muçulmanos (de origem norte africana). Se fosse o caso, parecia que a Rainha estava apostando na diferença em relação a Inglaterra protestante para afirmar que eles não eram bem vindos. Se eles estavam vivendo mais na pobreza do que os brancos, isso é muito duvidoso. O que está claro é que eles estavam sendo usados ​​como bode expiatório conveniente em um momento de crise. Elizabeth não tentou deportar todos os negros da Inglaterra, apenas algumas partes da população. Embora a linguagem usada sugere que sejam  todos, suas propostas parecem ter sido limitadas a um número relativamente pequeno de indivíduos.

Não é provável que os esforços de Elizabeth para deportá-los tenha tido muito sucesso. O historiador James Walvin concluiu que ‘os negros estavam em vários níveis sociais da sociedade inglesas para serem deslocados e repatriados’.

Bibliografia:
The African Diaspora in England‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
KAUFMANN, Miranda. ‘(Blacks in) ‘Tudor Britain’’. Acesso em 15 de Abril de 2013.
The Forgotten Africans of Tudor England‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
Britain’s first black community in Elizabethan London‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
BARTELS, C. Emily. ‘Too Many Blackamoors: Deportation, Discrimination, and Elizabeth I‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
John Blanke‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
Abd el-Ouahed ben Messaoud‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.
Black History month: communities and visitors in Tudor England‘. Acesso em 15 de Abril de 2013.

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3 comentários sobre “Os negros na Inglaterra Tudor

  1. Ótimo artigo! Sempre tive curiosidade de saber como era a vida dos negros na Europa antes da escravidão e nunca tinha visto nada ainda.

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