Shakespeare’s Globe Theatre no Brasil será inaugurado em 2016

Em 2016, festivais mundo afora lembrarão os 400 anos da morte de William Shakespeare. No Brasil, a celebração promete ser bem ambiciosa, com a inauguração da primeira réplica oficial fora da Inglaterra do famoso teatro Shakespeare Globe de Londres. Destruído por um incêndio, reaberto, fechado e depois posto abaixo, em 1644, o Globe Theatre foi reconstruído ao longo de 40 anos, a partir de uma iniciativa do ator e diretor americano Sam Wanamaker (1919-1993). O novo Shakespeare’s Globe Theatre foi inaugurado em 1997, seguindo fielmente as medidas e a estrutura do original — uma de suas características é um palco projetado ao centro da plateia, que possibilita uma relação de proximidade entre ator e espectador.  No Brasil, o teatro será construído na cidade mineira de Rio Acima, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, e custará cerca de R$ 50 milhões.

Terreno abandonado cedido pela Vale do Rio DoceFora a construção do teatro em si, com sua característica forma circular e com capacidade para 1.500 espectadores, o Globe brasileiro será acompanhado de um teatro menor, de 300 lugares. O projeto envolve ainda a criação de uma escola de dramaturgia, festivais teatrais itinerantes, uma filial no Rio e ações de intercâmbio entre o Globe brasileiro e o original, além de um centro cultural com salas de ensaio, escola, café e um jardim, que ocuparão uma área de 20 mil metros quadrados na cidade mineira de Rio Acima. O terreno foi cedido pela Vale do Rio Doce e poderá ser usado para fins culturais por 20 anos. No local, funcionava uma antiga fábrica de beneficiamento de minério. As casas centenárias vão ser restauradas.

Para isso, o produtor estima que sejam necessários R$ 70 milhões, incluindo os R$ 50 milhões para a construção do teatro, que devem ser custeados por cinco diferentes empresas estrangeiras ao longo dos próximos três anos, enquanto o circuito cultural entre as cidades do Quadrilátero deve ser bancado por duas empresas nacionais.

Não haverá dinheiro público investido na construção do Globe — diz Maya, que não revela os nomes das empresas envolvidas.

Mauro Maya, um ex-torneiro mecânico que há 15 anos, quando era funcionário da Vale, se “viciou” em Shakespeare, como ele mesmo diz.

“- Foram quatro anos de negociação com o pessoal do Shakespeare Globe. Eu cheguei lá com meu inglês totalmente vira-lata mas fui mostrando que o Brasil não era só samba e futebol. Fui mostrando minha paixão por Shakespeare e, assim, fui ganhando os caras.”

Ele conta que resolveu dar vazão ao seu sonho “maluco” de criar uma plataforma shakespeariana no Brasil quando conseguiu convencer a Vale a ceder para esse fim o terreno de 20 mil metros quadrados que estava abandonado.

— A ideia é fomentar o desenvolvimento do quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, preparando a região para receber o teatro Globe em 2016. Pensei em cada detalhe, para não dizerem que estamos construindo um elefante branco numa cidade desconhecida. Rio Acima é um ponto estratégico, entre cidades importantes de Minas, e o Globe será o polo irradiador desse circuito integrado. Há um conjunto de iniciativas que consolidarão um grande ciclo de arte, educação e desenvolvimento econômico não só para Minas, mas para o Brasil.

Ele compara ainda o Globe Brasileiro ao trabalho que é feito na Escola do Teatro Bolshoi, que chegou a Joinville (SC) em 2000 e, ainda hoje, é a única escola do Bolshoi fora da Rússia. “Mudou a completamente a forma de conduzir a formação dos jovens bailarinos no Brasil”, exemplifica Villella, diretor, cenógrafo e figurinista. ‘O que está vindo para Minas é mais que a arquitetura e a experiência da equipe de um dos teatros mais importantes do mundo, é a transferência de um conceito. Para nós, Shakespeare é deus, e aqui teremos uma capela”, sintetiza.

Os moradores da cidade de 10 mil habitantes, que não tem teatro nem cinema, a 35 quilômetros de Belo Horizonte, estão eufóricos com a chegada do complexo cultural. Nas praças, na lotérica, na padaria, em bares e outros estabelecimentos comerciais, o assunto é o novo teatro. “É a notícia do momento. Por aqui, só se fala nisso, pois é um orgulho para nós”, afirma a aposentada Geralda Eustáquia dos Santos, de 62 anos de idade.

O tema desperta a atenção até de crianças. Na praça central, ao lado da plataforma da Maria Fumaça, o primeiro contato com uma maquete do teatro, que faz parte do acervo da produtora responsável pela obra, deve ficar para sempre na memória dos meninos Daniel Tiago Germano, de 12 anos, e Ícaro Leonardo Teixeira Pagliarini, de 10. “Legal demais, né?”, diz Daniel. “É muito bacana mesmo”, reforça Ícaro.

Para a moradora Priscyla Joviano, a versão brasileira do The Globe não pode ser vista apenas como um novo teatro. “Vai haver oficinas e cursos para a população local e moradores vizinhos. Temos de aproveitar essa oportunidade única”, afirma a mãe de Vitor, que também ficou encantado com a maquete da edificação londrina.

A inauguração do teatro está prevista para 2016. Até lá, Maya realizará, em 2014, a primeira edição do festival Globe to Globe, reunindo 12 produções internacionais de peças de Shakespeare.

— Em 2016, já com o teatro pronto, vamos fazer a versão integral do festival, com 37 criações, ou seja, todas as peças de Shakespeare. Além disso, a partir daí todas as nossas produções serão apresentadas em Londres e vice-versa.

Segundo Maya, o projeto também pretende ir além do dramaturgo inglês, ao debater e encenar autores nacionais, como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Ariano Suassuna. Ainda seguindo essa ideia de intercâmbio, grupos daqui também vão interpretar Shakespeare no exterior.

Outra característica “brasileira” do complexo em Rio Acima se dá na construção do Globe brasileiro.

“Como é uma réplica, é claro que o projeto da obra e a atmosfera da Inglaterra serão mantidos, mas o teatro vai ganhar roupagem e cores brasileiras”.

A fachada típica do teatro em Londres, com seu telhado de palha e muita madeira, será idêntica, assim como o anfiteatro principal, aberto e circular. No entanto, no teatro de Rio Acima, ganhará destaque a técnica de pau a pique, bastante comum no Brasil. Também serão usados elementos barrocos relacionados à cultura brasileira e, especialmente, à mineira.

O Shakespeare Globe inglês confirmou que o mesmo escritório de arquitetura responsável pelo teatro em Londres está envolvido no projeto mineiro, dando diretrizes e acompanhando a construção. O engenheiro Peter McCurdy, cuja empresa pesquisou e recriou o lado artesanal da construção britânica, também está trabalhando com Maya no projeto.

Um dos envololvidos na construção construção do Shakespeare Globe Theatre no Brasil é o Instituto Gandarela, que diz que não se buscará com a construção do Globe Brasileiro uma imitação, ao ver deles irrelevante, do teatro do maior dramaturgo do mundo:

‘Busca-se, sim, a viabilização de um desenvolvimento cultural que a shakespeariana, e o próprio edifício em que as peças de Shakespeare primeiramente foram encenadas, permitem, de forma talvez única. Isso porque, em sua especificidade, a arquitetura do Globe permite um encontro mais próximo com a platéia, estabelecendo, se bem aproveitada, um rapport cultural que induz a inúmeras oportunidades de se repensar o fazer artístico e a inovação na educação. A própria imagem internacionalmente reconhecida desse teatro, em sua relação com o ícone da cultura dramática, que é Shakespeare, já irá naturalmente atrair um interesse muito maior de vários setores de produção e de um público proveniente de diversos níveis sociais. Tudo isso sem se dizer que a obra dramática do maior dramaturgo inglês contém um insuperável caudal de caminhos sócio- educativos (…) ‘

Além de eventos na sede em Rio Acima, o Globe Theatre brasileiro também terá outros fora do local. No Rio de Janeiro, o Globe brasileiro vai ter uma espécie de filial em um prédio doado pelo poder público na zona portuária, área da cidade que vem passando por um intenso projeto de remodelação.

Mas a empolgação de Maya com o projeto o fez ir além das capitais nacionais para buscar mais parceiros para o projeto. Em Nova York, ele pediu a colaboração do James Shapiro, professor da Universidade de Columbia especialista em Shakespeare e autor de vários livros sobre o dramaturgo.

Shapiro aceitou participar do projeto fazendo parte do conselho que vai gerir o teatro em Rio Acima. O projeto terá outros colaboradores de peso no cenário brasileiro, como Barbara Heliodora, uma das críticas de teatro mais renomadas do Brasil e especialista em Shakespeare, e o diretor teatral Gabriel Vilella, cujo espetáculo Romeu e Julieta foi apresentado em português no Globe Theatre londrino. Ambos serão coordenadores de núcleos temáticos de arte e educação ligados ao Globe brasileiro.

Para a grande inauguração, em 2016, Maya sonha com um festival completo, com 37 peças. “Nesse dia, vou me despedir do meu lado produtor e empreendedor. E vou voltar a atuar”, conta. “Aos 43 anos, eu vou ser Hamlet.”

Fontes: Jornal 96, Hoje em Dia, BBC, Revista Encontro, Gandarela e G1.

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