Os últimos dias de Ana Bolena [Parte I]

Em 7 de janeiro de 1536, morreu, confinada e esquecida, uma das rainhas mais queridas da Inglaterra: Catarina de Aragão. Sua morte, paradoxalmente, seria o crepúsculo de sua poderosa rival, Ana Bolena. Depois disso, a nova conjugue pode encontrar-se em uma rede de intrigas e traições que conduziriam inevitavelmente a sua queda.

Henrique ficou ligeiramente emocionado com a notícia da morte de Catarina, então exclamou:  “Deus seja louvado que estamos livres de qualquer suspeita de guerra”. Como sabemos, Henrique VIII não admitiu a legitimidade de seu primeiro casamento e não hesitou em mostrar sua alegria na Corte. O rei novamente tinha a perspectiva de um filho do sexo masculino sendo apoiada incondicionalmente. Ana Bolena estava bem ciente da paixão do rei com a recatada e amável Jane Seymour, que se aventurou a utilizar o mesmo jogo que a rainha usara anos atrás, para conquistar o coração do monarca. De acordo com Chapuys, Jane estava sendo treinada por Sir Nicholas Carew e a facção católica sobre como apelar ao rei e como dizer a ele o quanto o povo da Inglaterra detestava seu casamento com Ana Bolena.

Antes da morte de Catarina, havia duas vidas entre Henrique e qualquer novo casamento: agora havia somente uma; se Ana desse à luz a um filho, podia considerar-se salva. Mas se a gravidez não tivesse um êxito satisfatório para Henrique? Se lhe causasse nova decepção, e ele se voltasse contra ela? E Jane Seymour, que estava agora na Corte e recebia presentes dele? E a princesa Maria? Como Chapuys comentou secamente, o casamento ‘da concubina’ não se tornara ‘mais válido e legítimo’ em consequência da morte da rainha Catarina. Henrique VIII era agora, segundo os padrões católicos, um viúvo, já que sua única esposa aos olhos da Igreja havia morrido. Ele estava, assim, liberado para tornar a se casar com quem escolhesse.  Até a alegria mais modesta de Ana acabou por desvanecer-se. Mandou chamar seu irmão George e seu amigos mais íntimos. Seus inimigos diziam que estava deprimida, inquieta, agitada e em lágrimas.

Henrique participava de umas justas de vez em quando, mas sua carreira terminou bruscamente em 24 de janeiro de 1536 quando, durante um torneio em Greenwich, usando sua armadura completa, ele foi derrubado por um adversário. Seu cavalo também usava uma armadura completa e caiu sobre ele. “A caída foi tão violenta que todos pensaram que era um milagre ele não ter morrido”, escreveu Chapuys.

Após este terrível infortúnio, o Duque de Norfolk entrou nos aposentos de Ana repentinamente para contar a rainha que Henrique tinha caído do cavalo com tal força que todos inicialmente temeram por sua vida. A notícia foi um choque muito grande para a rainha, e em 29 de janeiro ela abortou. Era um menino com pouco mais de  três meses. É provável que chorou ao ouvir o rei gritar, desapontado e zangado: “Esta claro que Deus não me dará filhos”.

Ana se desculpou, garantindo que o medo garantido pela queda havia causado o aborto súbito. Envolvido em um mar de sofrimento e infelicidade por não ser capaz de agradar o seu marido, e vítima do ciúme que a consumia todos os dias, ela pronunciou essas comoventes palavras:

“Porque eu o amo infinitamente mais do que Catarina, e por isso me parte o coração te ver enamorando outras.”

O rei respondeu indiferentemente: “Conversaremos quando você levantar.”

Após o triste incidente, o rei comentou com alguém no seu círculo interno na Câmara Privada dizendo-lhe que Deus estava negando-o um filho. Na mente do monarca tudo começou a fazer sentido: Ele tinha sido enfeitiçado por Ana Bolena, “Seduzido e forçado a fazer um segundo casamento por magias e feitiços”. O Embaixador Chapuys afirmou que havia uma crença geral que Ana tinha uma constituição pobre, que a impediria de ter filhos saudáveis. Alguns acreditavam que ela nem mesmo esteve grávida.

Enquanto isso, Henrique estava isento de qualquer responsabilidade por ter se separado de sua primeira esposa, agora que esta havia morrido. O luto pela perda de seu filho era difícil de suportar, e Henrique estava evitando sua esposa. Talvez Ana tenha sentido o perigo que estava exposta, se não servisse ao propósito de dar ao rei um filho saudável. Embora Ana ficasse cada vez mais impopular, ela ainda era a mãe da filha do Rei, a Rainha reinante, com uma língua solta e um temperamento arrebatado. Nem o próprio Henrique se arriscava a desafiá-la de frente ou a combinar intrigas muito patentes.  Ana continuava a desfrutar do apoio e confiança de seus aliados e suas amigas, sua prima Madge Shelton e Margaret Lee, irmã do poeta Thomas Wyatt. Além disso, seu irmão George nunca deixou seu lado nos momentos mais delicados. Lord Rochford, de arraigadas tendências luteranas e Embaixador, tinha um caráter decidido e perspicaz e poderia ser de grande utilidade para Ana.

O relacionamento do rei com Jane Seymur ficava mais forte a cada dia. A primeira rainha tinha morrido, e a segunda era acusada de ter ‘total incapacidade para conceber filhos’. O Embaixador Chapuys foi informado da notícia que Henrique havia presenteado a ‘senhorita Seymour’ recentemente, o que causou o aborto da rainha Ana. Se sabe que o rei havia enviado a Jane uma bolsa cheia de ouro e uma carta expressando sua admiração. Jane inclinou-se de joelhos e beijando a carta real, disse a seu mensageiro para lembrar-se que ela era “uma gentil dama de linhagem honrada e íntegra”, e que sua honra estava acima de tudo. Se o rei dignava-se a presentear-lhe com dinheiro e objetos caros, que seja depois de terem um casamento honroso. Longe de sentir-se desiludido, o soberano sentiu-se encantado com tal rejeição.

Ana Bolena nunca apresentara essas homenagens a seu marido. Ela podia brilhar no meio dos seus cortesãos, e estes podiam rir de suas observações vivazes e deliciar-se com os seus olhos negros. Mas tratava-se daquele espírito zombeteiro e malicioso que Ana adquirira na França e que Henrique não podia suportar. Ele gostava de uma boa anedota, de uma risada cordial, de um honesto gracejo material; mas o que lhe agradava mais do que tudo era a imaculada modéstia e o respeito de uma mulher pura e boa.

Em 3 de março, Sir Thomas Seymour foi nomeado Cavaleiro da Casa Real. Ele e seu irmão Thomas esperaram receber muitas honras devido ao relacionamento de sua irmã com o rei. Eles e os partidários de Seymour pediram a Jane que não cedesse às reivindicações do rei, mas que extraísse todas as vantagens possíveis do relacionamento. Portanto, é lógico que os Seymour e inimigos da facção Bolena promoveram seus próprios interesses e derrubar a Rainha. Jane tinha crenças religiosas ortodoxas e simpatizava com a filha mais velha do rei, e estava disposta a cooperar com eles.

De acordo com uma história escrita posteriormente, Ana encontrou Jane sentada no colo de seu marido. Como esperado, a rainha demonstrou indignação ao testemunhar uma cena tão embaraçosa. Ana censurou o rei e culpou-o pela perda de seu filho.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 1ª Parte‘. Acesso em 1 de Maio de 2013.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 2ª Parte‘. Acesso em 1 de Maio de 2013.

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