Os últimos dias de Ana Bolena [Parte II]

Keith Michell como Henrique VIII e Jane Asher como Jane Seymour, no filme Henry VIII and His Six Wives de 1972.Embora Henrique estivesse cortejando Jane Seymour, ele prometeu à sua nova amante que não visitaria-a ou falaria com ela ‘exceto na presença de um parente’. Apesar de todos os esforços para esconder o relacionamento, a nova paixão do rei tornou-se pública.

Em uma conversa entre Cromwell e o Embaixador Chapuys no final de março de 1536, o último exclamou que ‘Como favorecia ao rei outro matrimônio, se é que ele o está considerando! Aí está um rei “que até este momento se sentia decepcionado quanto à questão da descendência masculina, e que se sabe muito bem que este matrimônio (atual) nunca será considerado legal. Depois, Cromwell replicou dizendo que era certo que seu senhor ‘ainda estava inclinado à prestar atenção nas mulheres”, mas que acreditava que ele viveria honradamente e puramente o seu presente matrimônio.

O Embaixador perspicaz estava ciente de toda a questão de Jane Seymour, e foi justamente por isso que sugeriu o tema de outro matrimônio do rei. Jane, por agora, era considerada simplesmente como outra em uma larga lista de mulheres queridas pelo rei. Apesar do decoro e modéstia da dama, Chapuys logo viu nela outra concubina. Ele informou ao imperador Carlos V:

Podeis imaginar que, sendo inglesa e tendo vivido tanto tempo na Corte, ela não consideraria pecado ser ainda virgem. Disto o rei ficará talvez contente… porque ele pode esposá-la com a condição de ser virgem e quando quiser divorciar-se achará uma quantidade de testemunhas para sustentar o contrário.

Ele acrescentou que há ‘abundantes testemunhas contrárias’ de Jane ser realmente virgem. As relações internacionais eram outro dilema perturbando Henrique VIII. Seu objetivo principal era um acordo entre Inglaterra e Espanha, enquanto as relações com a França se tornavam mais tensas. O Imperador desejava afgora uma aliança com o monarca inglês, e estava disposto a concessões. Carlos V tinha engolido o tratamento que foi dado a sua tia, Catarina de Aragão, seguido por rumores de que a ‘concubina’ poderia ser substituída, criando uma atmosfera favorável nos acordos.

Embora possa parecer que Ana Bolena não desfrutaria de mais favores reais, a sua posição nos meses de fevereiro, março e abril em 1536 foi surpreendentemente fortes. Ao invés de causar a ruptura do casal real, parece que o aborto despertou a simpatia do rei por Ana. Naquela época, ele ainda não tinha intenções de se livrar de sua segunda esposa. Assim, a facção Bolena continuou a dominar a corte.

 Cópia da miniatura de Ana Bolena feita por Holbein, por artista desconhecido.Na primavera de 1536, a Corte Inglesa era um local tumultuado, cheio de todos os tipos de boatos e rumores da queda da rainha. Apesar do apoio momentâneo de Henrique, ela percebeu que havia algo errado e que poderia comprometer sua posição. Ana Bolena, ao contrário de Catarina de Aragão, não tinha construído uma base em seu poder além de seus próprios parentes, com exceção talvez do Duque de Norfolk, seu tio, que tinha uma forte antipatia por ela e que não compartilhava de suas visões religiosas.

Enquanto isso, as contas indicam que a rainha continuou a manter seu status real. Durante este período, foram compradas seda alaranjada para um camisola e centenas de metros de fita para prender seus longos cabelos. Havia rendas decoradas para a Rainha, fitas verdes (a cor dos Tudor) para seu cravo e caros chapéus para seu bobo da corte. Pagamentos para os ornamentos de sua ‘grande cama‘ – franjas e borlas de ouro vindas de Veneza – chamavam a atenção, talvez um artifício para atrair o monarca para a cama real.

O imperador estava disposto a aceitar de uma vez que ‘a continuação do último matrimônio‘ do rei Henrique com Ana Bolena para mudar que a filha de sua tia, Catarina de Aragão, Maria, fosse declarada legítima.

No final de março, Chapuys tinha ouvido falar da briga de Cromwell e a rainha, provavelmente por causa da lei de Supressão aos Mosteiros e por ele ter concordado em desocupar seus quartos para que Seymour fosse instalada neles. Esse foi o sinal oficial de que Cromwell tinha se juntado a eles para livrar-se de Ana Bolena. Além disso, essa decisão favoreceu o rei imensamente. Foi dito que ele poderia acessar esses quartos ‘por meio de algumas galerias sem ser visto‘. Cromwell mais tarde afirmou que ‘este foi o momento exato em que ele percebeu que a presença da Rainha Ana ameaçava a segurança do reino, a sua própria’.

Eustace ChapuysCromwell contou a Chapuys a sua briga com Ana Bolena no dia 1 de abril, e assegurou que a rainha o odiava e queria mandá-lo para o cadafalso. Ele perguntou ao Embaixador o que Carlos V pensaria se o rei se casasse novamente. Chapuys insistiu que ‘o mundo nunca reconheceria Ana como a esposa verdadeira de Henrique, mas poderia aceitar outra dama’.

Em 2 de abril de 1536, o esmoler de Ana Bolena, John Skip, pregou um sermão bastante controverso na frente do rei. O tema era  “Quis ex vobis arguet me de peccato?” ou ‘Qual de vocês podem me convencer do pecado?’ Skip falou sobre ‘defender o clero de seus difamadores e do zelo imoderado dos homens em manter a reprovação pública as falhas de um único clérigo, como se ele fosse culpado de tudo’. Ele também usou como exemplo uma história do Antigo Testamento, a história do Rei Ahasuerus ‘que foi movido por um mau ministro a destruir os judeus’, mas a rainha Ester entrou em cena com conselhos diferentes que salvaram os judeus. No sermão de Skip, Henrique VIII era claramente Ahasuerus, Ana Bolena a Rainha Ester e Thomas Cromwell, que tinha acabado e introduzir a Lei de Supressão aos Mosteiros no Palarmento, era Haman, o ‘ministro perverso’.

Ana Bolena, que deveria ter estado por trás desse sermão, acreditava na reforma e combatia os abusos e a corrupção, mas sentia que a reforma só deveria ser realizada onde fosse necessária e que o dinheiro dos mosteiros dissolvidos deveriam ser gastos no alívio a pobreza e educação, ao invés de irem para a Coroa. Ela não concordava com o que estava acontecendo e os conselhos do Rei estava recebendo. O sermão foi um ataque contra o que tinha sido debatido no Parlamento e foi uma declaração sobre a posição de Ana e suas crenças.

Henrique estava decidido que o imperador reconheceria Ana como rainha e, havendo concedido uma audiência com Chapuys na segunda-feira de Páscoa, no dia 18 abril, onde o rei traçou um plano para o Embaixador que até então negou a Ana a cortesia de beijar sua mão, teve todas as oportunidades de prestar seus respeitos.

Em meio a rumores de que o rei se casaria com Jane Seymour ou uma princesa francesa, Chapuys foi convidado durante a semana de Páscoa no Palácio de Greenwich em 18 de abril de 1536. Lá, o irmão de Ana, Lord Rochford, recebeu-o calorosamente. Em seguida, Cromwell lhe entregou uma mensagem do rei em que ele o convidava a visitar Ana e beijar sua bochecha, o que era uma alta honra que se conferia apenas àqueles que estavam nas graças dos reis. Chapuys fez o seu melhor para afastar o convite, no entanto, George Bolena teve permissão para acompanhá-lo até a Capela Real, onde estava acontecendo a missa. Isso também poderia ser considerado uma grande honra, uma vez que os diplomatas não assistiam à missa junto da família real.

Quando o rei e a rainha se levantaram de seus assentos para darem suas oferendas, Ana avistou o Embaixador de pé atrás da porta e se voltou ‘somente para lhe fazer uma reverência’. Chapuys recebeu com o mesmo gesto. Ana tinha a esperança de falar com Chapuys durante o banquete que seria presidido em seus aposentos, mas depois de deixar a Capela com o rei ela ficou muito surpreendida ao perceber que ele não se encontrava entre aqueles que a aguardavam em sua porta. “Porque ele não esta aqui, como todos os outros embaixadores?“, perguntou Ana. “Há boas razões para isso“, respondeu Henrique, que tinha decidido ele mesmo falar com Chapuys durante a audiência.

Catarina de Aragão jogando cartas com Ana Bolena e Henrique VIII ao fundo, feito por Egley Guilherme Maw.Após o jantar com Ana, o rei se dirigiu ao Salão de Audiências, onde Chapuys tinha comido com Rochford, e Henrique teve uma conversa privada com o embaixador aproveitando a privacidade. Durante a entrevista, o monarca expressou muita hostilidade à aliança proposta e insistiu que o imperador deveria pedir desculpas pela forma com que se comportou e que reconhecesse a Rainha Ana, o que ele, surpreendentemente, o fez por escrito.

Cromwell ficou consternado ao ouvir as palavras do rei, porque ele sabia que o imperador nunca aceitaria tais condições humilhantes. O secretário percebeu que, por trás da atitude de Henrique estava a influência de Ana. Após a audiência tentar persuadir o monarca do contrário, dizendo que o tratamento que ele dera ao embaixador não tinha sido o dos melhores, e com esse comportamento ele colocaria tudo a perder.

Foi inútil. Henrique se mostrou tão irritado e propenso a acabar com seus obstáculos que Cromwell decidiu que o mais conveniente seria se retirar da Corte e fingir que estava doente. Enquanto Ana estivesse no poder, uma aliança com a França seria impossível. Cromwell considerava esse acordo algo imprescindível para a segurança do reino e da seu própria. Ana foi, a partir desse momento, sua mais temida inimiga e a maior ameaça para sua carreira e, até mesmo sua vida.

Bibliografia:
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 3ª Parte‘. Acesso em 4 de Maio de 2013.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 4ª Parte‘. Acesso em 4 de Maio de 2013.

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Um comentário sobre “Os últimos dias de Ana Bolena [Parte II]

  1. Interessante que Ana, sendo protestante, tenha acabado com uma inimizade dessa forma com Cromwell, que também era protestante. A política e interesses escusos, acabaram por destruir primeira à ela e depois ao próprio Cromwell. Duas gerações mais tarde, Oliver Cromwell perde a grande oportunidade de proclamar a Inglaterra como uma república, por pura falta de visão. Se tivesse feito isso, hoje não terias monarquia no Reino Unido.

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