Os últimos dias de Ana Bolena [Parte III]

Maria Tudor, por Hans Eworth, cerca de 1550No final de sua vida, Ana Bolena tentou estabelecer uma relação amigável com sua enteada Maria. Talvez a melhor maneira de evitar problemas futuros seria suavizar as relações com a filha de Catarina de Aragão tendo ela como uma aliada. A rainha quis que Maria a reconhecêsse como a verdadeira rainha da Inglaterra, algo que nunca aconteceria. Sem surpresa, Maria Tudor não estava disposta a isso. Ela disse que não reconhecia nenhuma outra rainha exceto sua falecida mãe. Além disso, seu status como bastarda real não ajudava em nada.

Durante as últimas semanas de abril, em sua residência particular em Londres, Cromwell começou a elaborar um plano arriscado que poderia causar a queda de Ana e de seus partidários mais leais. Ele também ganhou o apoio de Seymour (obviamente, a pessoa que mais se interessava), Carew, Exeter, Montague e Sir Francis Bryan, que recentemente voltara à corte e foi um grande aliado de Seymour.

Cromwell foi inteligente e percebeu que a única maneira de sobreviver na política seria ao apoiar a causa de Jane Seymour. Para atingir seu objetivo, ele não hesitou ao aliar-se com a aristocracia mais conservadora de crenças católicas. Era do conhecimento geral que o secretário era um dos arquitetos mais poderosos da Reforma da Inglaterra, mas em seguida ele colocou de lado todas as suas pretensões religiosas e decidiu juntar a seus oponentes para derrubar Ana Bolena.

Diz-se que Chapuys também foi um de seus aliados, e que também Lady Maria aprovou o complô sobre certas condições. O dia 23 de abril do fatídico ano de 1536 foi uma data decisiva que previa dias difíceis para Ana Bolena. Sir Nocholas Carew foi nomeado Cavaleiro da Ordem de Jarreteira no lugar de George Bolena, Visconde de Rochford. Entre os participantes do evento estavam o rei, Norfolk, Wiltshire e Henrique Fitzroy, o Duque de Richmond. Tal ação foi avaliada como um sinal público do favor real, algo que Chapuys diz que foi uma indicação clara de que os Bolenas estavam perdendo terreno em favor aos partidários de Seymour. Embora o embaixador estivesse ciente de que a distinção atribuída a Carew veio por recomendação de Francisco I, ele disse que sua nomeação foi devido a seu apoio na trama de Cromwell.

No mesmo dia, a rainha recriminou Sir Francis Weston por flertar com Madge Shelton, e fez suposições do porque Sir Henry Norris ainda não havia se casado com Madge. Weston enfatizou: “Norris entra mais na câmara de Vossa Alteza do que de Madge”. Ana fingiu não notar o comentário indiscreto, apesar de não esquecê-lo, e Weston havia ouvido dizer que ele não amava sua esposa, Anne Pickering. Ironicamente, em tom irônico, perguntou se ele estava apaixonado por Madge. ‘Amo alguém de vossa casa mais do que a ambas’, respondeu Weston, intencionalmente. ‘Quem é esse alguém?’, perguntou Ana. ‘Vos mesma’, declarou Weston. A rainha riu dele e continuaram a conversar. Para a desgraça da rainha, relatórios dessa conversa ajudaram Cromwell a preparar uma acusação formal contra ela.

Apesar da hostilidade que cercou Ana e do plano maquiavélico de Cromwell, é pouco provável que, naquela época, o rei soubesse que sua esposa estivesse sendo investigada. Segundo Alison Weir, Henrique tinha todos os motivos para se sentir satisfeito com Ana, porque havia muitos sinais de que ela estivesse grávida novamente. Diz-se que havia concebido logo depois de Elizabeth nascer, e que é provável que ela tenha se reconciliado com o monarca depois de ter abortado no mês passado. Existem alguns indícios a favor dessa hipótese.

Em abril de 1536, o rei fez um referência indireta à gravidez em uma conversa com o embaixador. Houve um momento em que o rei se exaltou quando Chapuys sugeriu que Deus não havia achado conveniente enviar filhos homens para o rei por que Ele havia decretado que a sucessão de Inglaterra recaísse em uma mulher. ‘Acaso não sou homem como os demais homens? Não sou? Não sou?’ – gritou Henrique VIII. ‘Vós não conheceis todos os meus segredos’.

Primeira Entrevista de Henrique VIII com Ana Bolena, por Daniel Maclise, 1835.Em 25 de abril, uma missiva a mando de Richard Pate, seu embaixador em Roma, com duplicatas para Gardiner e Wallop na França, o rei Henrique informava sobre a ‘probabilidade e aparência de que Deus irá nos enviar herdeiros do sexo masculino’. Era subtendido de que Ana esperava uma outra criança. Na mesma carta, Henrique se referiu a Ana Bolena como ‘nossa mais amada e mais querida esposa, a Rainha’. Se de fato tivesse ocorrido uma gravidez no final de fevereiro, o rei poderia ter feito essa afirmação com certeza, e vemos claramente que ele havia feito isso.

Normalmente, a concepção de um filho do rei não se proclamava de maneira oficial, e não obstante, a urgência que suscitava o problema da sucessão conveniava com a inesperada divulgação. Além disso, Henrique VIII queria provar sua masculinidade para seus súditos, e que nada o impedia de ter filhos saudáveis. Por Ana Bolena, ele tinha enfrentado todos sem se importar com as consequências, separando-se de uma esposa complacente e bondosa como era Catarina de Aragão, tudo para conseguir o esperado herdeiro que ele era tão obcecado. Mas, acima de tudo, a coisa mais difícil foi admitir que a luta tenha sido em vão, que todos os seus esforços para casar com Ana não deu o fruto mais desejado. Ele, portanto, seria a maior chacota da Europa e sua virilidade seria abalada.

Em suma, é improvável que o rei tenha se atrevido a dizer algo se não houvesse a mínima esperança de um herdeiro. A notícia de que Ana ainda era capaz de dar a luz a um varão, o qual asseguraria definitivamente a sua posição, deve ter alarmado muito Cromwell e o impulsionou a provocar sua queda enquanto tivesse a chance.

Cromwell tinha em conta qualquer boato que pudesse incriminar Ana, portanto, qualquer prova que parecesse trivial poderia parecer, em última análise, muito relevante quando se tratava de derrubar sua inimiga. No final de abril ele e os demais conspiradores estavam falando sobre a possibilidade da anulação do casamento real. No entanto, a posição da rainha ainda era forte, o que teria que ser mudado o quanto antes.

Em torno de 26 de abril, a Rainha Ana Bolena se encontrou com seu capelão Matthew Parker. Parker escreveu que Ana pediu para que ele cuidasse de Elizabeth caso algo acontecesse com ela. Anne estava confiando-lhe assistência espiritual de sua filha. Mais tarde, no reinado de Elizabeth, Matthew Parker tornou-se arcebispo de Canterbury. Será que Ana Bolena tivera um pressentimento de que  estavam conspirando contra ela?

Damien Thomas como Smeaton e Charlotte Rampling como Ana Bolena, no filme Henry VIII and his Six Wives.Um músico chamado Mark Smeaton no dia 29 de abril teve uma conversa com Ana, e isso chegou ao conhecimento de Cromwell. Smeaton não era nobre a ponto de merecer consideração, ele era um jovem de origem humilde e seu sustento vinha apenas de seu talento musical e suas habilidades na dança. É possível que tenha sido flamengo e que seu nome pode ter sido originalmente ‘Smet’ ou ‘Smedt’, além de ter sido um homem muito bonito. A sua presença na corte se fez notar a partir de 1529, devido a inclusão de seu nome nas contas reais de onde mostram camisas, meias, sapatos e chapéus sendo pagas. Smeaton era consciente de sua baixa posição e que era pura sorte que ele desfrutasse de uma posição de privilégio.

O músico nunca pertenceu ao círculo íntimo da rainha, que incluía damas e cavalheiros de nascimento nobre. Um dia, Ana encontrou-o com uma aparência abatida na ‘janela redonda’ de seus aposentos.’Mestre Smeaton, porque estás tão triste?’ – a rainha perguntou. ‘Não importa’, disse o músico desanimado. Ana respondeu com altivez ‘Não podeis esperar que o fale como falaria a um nobre, porque sois uma pessoa inferior’. ‘Não não, com apenas um olhar eu tenho o suficiente, e você também’, disse Smeaton. Essa conversa seria crucial para o julgamento de Ana.

Em 30 de abril, Cromwell tentou arrancar mais informações do músico convidando-o para um banquete. O jovem, de 24 anos, era de um tipo sentimental e deve ter sentido uma grande honra ao ser convidado para comer em sua casa em Stepney. Smeaton nunca imaginaria o cruel destino que lhe aguardava. Assim que ele chegou na sala, havia uma mesa e no seu extremo estava sentado Cromwell, e dois homens caminharam em silêncio por trás de Smeaton. Ele estava consciente de que algo estava errado, que o comportamento era bastante suspeito, e imediatamente começou a fazer perguntas. Temeroso do que poderia acontecer, ele não escondeu sua expressão de medo.

Damien Thomas como Smeaton no filme Henry VIII and his Six Wives.Dizem que uma corda foi colocada ao redor de seus olhos, e enquanto faziam perguntas, a corda era continuamente apertada. ‘Quanto custou esse anel que estais usando? Quem lhe deu? Quanto foi essa roupa? Onde você comprou? O que mais comprou? Quando? Quanto? O que ela lhe disse? Ela se entregou a você? Sim? Quantas vezes? Bom, podes confessar detalhadamente. Quero saber os nomes. Quem mais?

Nunca se soube ao certo se realmente Smeaton foi torturado, embora alguém da casa de Cromwell tenha contado este relato a um mercador espanhol, que decidiu incluir o relato em uma crônica.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 5ª Parte‘. Acesso em 7 de Maio de 2013.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 6ª Parte‘. Acesso em 7 de Maio de 2013.

Anúncios

4 comentários sobre “Os últimos dias de Ana Bolena [Parte III]

  1. “Aqui se faz, aqui se paga”, é bem certo. Cromwell foi uma peça crucial para a queda de Ana, mas ele sofreu o mesmo destino anos depois, o que nos prova que há uma justiça mais alta que, certamente, não falha!

  2. Quem entende esse homem? Ao mesmo tempo q ama, odeia. Na verdade, eu acho que ele gostava dela pelo o que ela poderia oferecer, ou seja, um herdeiro, quando ele viu que isso poderia não ser possível, passou a odiá-la.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s