Os últimos dias de Ana Bolena [Parte V]

The Other Boleyn Girl 2003Henrique VIII estava suportando bem as situações com Ana Bolena. Longe de situações desagradáveis, ele vivia sonhando com sua vida futura ao lado de Jane Seymour. Sabe-se que ela manteve-se distante de toda a ação que estava acontecendo na Corte, protegida pelo seu irmão Edward e o amigo de confiança do rei, Nicholas Carew, em sua casa, em Croydon.

Na noite após a prisão de Ana, Henrique desmoronou. Mais uma vez, as esperanças do rei foram frustradas, o filho que ele desejava ter com uma ‘senhora jovem e vigorosa’ nunca veio ao mundo, a nova rainha tinha-o ‘enganado e enfeitiçado’ com suas falsas promessas. Nesse ponto, ele estava disposto a acreditar em qualquer coisa sobre sua esposa.

Quando Henrique Fitzroy foi dizer boa noite e pedir sua benção, Henrique o abraçou apertado e disse:

Vós e vossa irmã Maria deveis dar graças a Deus por terdes escapado a essa maldita e venenosa prostituta que tentou envenenar-vos a ambos.

Os cortesão se perguntavam quem seria o próximo a ir preso. Todos temiam sobre seus relacionamentos passados com os Bolena, que tiveram sua reputação manchada do dia para a noite.

Até Francis Bryan foi interrogado por Thomas Cromwell, mas seu interrogatório não passou de uma farsa que daria crédito às outras prisões. Ele era bem conhecido por sua inimizade com o primo de Ana, Bryan, e que de fato seria beneficiado com a desgraça de seus acusados. Em uma missiva dirigida a Gardiner para informar que Bryan havia abandonado cruelmente sua prima, Cromwell o chama de ‘Vigário do Inferno’.

O julgamento de Ana foi de uma falsidade cínica, que só contemplava um resultado: a morte. Livrar-se dela era o único objetivo a ser alcançado, seu desaparecimento era primordial para que o rei pudesse ter um terceiro casamento. Ao contrário da investigação que foi apresentada à Rainha Catarina de Aragão no Julgamento de Blackfriars (1529), para determinar a validade de seu casamento com Henrique VIII, com Ana Bolena era totalmente o contrário, se afirmava que ela era irremediavelmente culpada, antes mesmo que a sentença fosse dada.

The Other Boleyn Girl 2008Porque o rei não se divorciou de Ana como fez com Catarina de Aragão? Um novo divórcio teria dado ao rei  outra ex esposa somente poucos meses após de ter se livrado da primeira. A morte de Catarina no princípio foi muito oportuna para a sua rival, e ao mesmo tempo acelerou o seu declínio. Cromwell agora trabalhava na trama impulsionada pelos desejos de seu senhor, já que sabia que Henrique não via sua esposa com bons olhos desde os rumores de bruxaria que a perseguiam após o aborto que ocorreu em janeiro. Como esperado, a ‘consciência’ do monarca foi novamente agitada.

Sem saber porquê, Ana começou a reanimar-se e jantou até com satisfação. ‘Creio que o Rei faz isto para me experimentar’, disse sorrindo. Mais tarde ajuntou: ‘Quisera que estivessem aqui os meus bispos. Eles iriam todos ao Rei falar em meu favor’.

Ao passo que Ana não perdia a coragem, mais supostos amantes foram detidos: Sir Francis Weston em 4 ou 5 de maio, e William Brereton. As acusações contra Weston não se tornaram públicas, mas provavelmente incluíam adultério com a rainha. Cromwell tinha razões pessoais para que Weston fosse preso. Ele tinha uma grande influência no norte de Gales e Cheshire, onde representava Richmond, o filho bastardo do rei, e queria livrar-se dele. George Cavendish afirma em suas memórias que ele foi executado ‘vergonhosamente, sem razão nenhuma além de um velho rancor’. Além disso, Brereton, sua esposa, e outros membros da família alegavam que ele era inocente, mas seus apelos foram em vão.

Diz-se que em 6 de Maio Ana Bolena escreveu uma carta a seu marido, da Torre de Londres. Ela é assinada como ‘Ao rei, da Dama na Torre’. Nesta carta, Ana enfatiza sua inocência, mas há controvérsias entre os historiadores sobre a autenticidade desta carta.

Em 8 de maio, outro cavaleiro da Casa Real, sir Richard Page, foi encarcerado na Torre junto de Sir Thomas Wyatt. O poeta acreditava que Charles Brandon, o Duque de Suffolk, era o culpado de seu aprisionamento; Wyatt era amigo de Cromwell e era pouco provável que este tenha ordenado seu aprisionamento. O poeta sempre estivera na mira de Henrique, e agora em plena ‘busca e captura’ dos supostos amantes de Ana, as suspeitas de que a rainha tivera mantido um relacionamento com Thomas é acentuado. Ele foi profundamente afetado, não só pela sua lamentável situação, mas também por Ana Bolena e os homens acusados com ela. Enquanto estava na prisão, ele escreveu versos muito emotivos, uma prova fidedigna daqueles exatos momentos que ele contemplava:

Estes dias sangrentos partiram meu coração
Minha luxúria, minha juventude os fizeram partir
Por seu juízo apenas, muitos homens lamentaram
E já que é assim, muitos ainda chorarão alto.

É uma grande perda que estejas morta
E tenha partido
O tempo que tiveste sobre a sua pobre posição
A queda da qual seus amigos podem lamentar muito.

Um galho apodrecido sobre uma árvore tão alta
Deslizou até suas mãos segurando
E estás morta.

E se foi.

Estes dias sangrentos partiram meu coração
Minha luxúria, minha juventude os fizeram partir
E o desejo cego de almas ambiciosas
As quais têm pressa para subir buscando reverter

E sobre o trono, o trovão ressoa.

Henry VIII and his Six Wives [1972]Durante o cativeiro de Ana Bolena na Torre, o rei foi visto por poucos cortesãos. Não ia além de York Palace, com exceção de viagens curtas ao Tamisa ao entardecer, onde desfrutava de grandes banquetes com várias damas em seu barco, de onde voltavam depois da meia noite. Jane Seymour estava morando em uma residência perto de Hampton Court, onde Henrique poderia ir sem problemas usando sua confortável barca. Ele se comportou, como disse Chapuys, ‘como um homem que havia escapado de um cavalo magro, velho e selvagem na esperança de votar a ter um bom cavalo para montar’.

Certa noite, Henrique jantou na casa de John Kite, o Bispo de Carlisle, sem qualquer pretensão, ‘mostrou uma alegria extravagante’, ao comer na companhia de várias senhoras. Ele parecia completamente alheio à tragédia iminente. O bispo anfitrião contou o que aconteceu a Chapuys, alegando que o monarca havia dito que acreditava que uma centana de homens ‘tinham tido’ com a rainha, e disse que há muito tempo aguardava o resultado dessas aventuras. Ele notou também que Henrique levava ao peito um livro escrito com sua própria letra, mas o bispo não pode ler o conteúdo. É possível que se tratava de certas baladas que o próprio rei havia composto, das quais Ana e seu irmão George haviam zombado por considerarem estúpidas.

BBC - The Six Wives of Henry VIII  1970Provavelmente haviam alojado Ana nas chamadas Habitações Reais, na Guarda Interior, ao sul da Torre Branca, que a rainha havia ocupado antes de sua coroações, pois iso havia sido prometido por Sir William Kingston. No entanto, a atmosfera não era tão asfixiante como era de se esperar. Se sabe que as circunstâncias de sua prisão não foram tão dolorosas. Ela fazia suas refeições com Kingston, como era costume para os presos do Estado, e a presença de quatro ou cinco damas para atendê-la era um sinal revelador de que todas ainda se dirigiam a ela como rainha.

Logicamente, Ana Bolena manifestava uma grande depressão pela inquietude de sua viagem e o horror de ser presa Torre. Ela sempre demonstrou um caráter nervoso, uma dama que e entregava facilmente à ira ou às lagrimas. Parecia que a Rainha tinha sucumbido por completo. Kingston contou a Cromwell que ela estava constantemente entre o riso e as lágrimas, como fez em sua entrada na Torre.

Anne of the Thousand Days [1969]Apesar de padecer de momentos de total desespero, Ana teve forças para solicitar a Eucaristia, em seu gabinete, porque queria rezar. ‘Eu estou limpa da mancha que me acusa’ – ela dise a Kingston – ‘e sou a fiel esposa do rei’. Em outra noite, dominada pelo desespero, ao ver o contestável da Torre ela perguntou ‘Mestre Kingston, irei eu morrer sem justiça?‘ – ‘Existe justiça para até mesmo o súdito mais pobre do rei‘, respondeu Kingston.  Ana de repente deu uma sonora gargalhada.

Apesar das palavras de Ana  tornarem-se pertubadoras e sem sentido, elas foram cuidadosamente registradas pelas damas, que Ana mais tarde se referiu a elas como sua ‘guardiãs’ com indignação. Certamente as mulheres eram mais leais ao rei (e Cromwell) do que a sua senhora: Uma delas era a tia de Ana Bolena, Lady Shelton, que havia ocupado o posto de governanta da princesa Elizabeth; também estavam a mulher de Kingston e a senhora Margaret Coffin, esposa do Mestre dos Cavalos do soberano, e uma senhora chamada Stoner. Sabe-se que a Sra. Coffin compartilhava do quarto da rainha. Uma das obrigações primoridiais dessas damas era a de transmitir tudo que Ana dizia a Kinston, e por fim responder a Cromwell.

Foi reunido um júri em Kent e Middlese, lugares onde se supunha que foram cometidos os crimes de adultério. Os acusados se apresentaram ante Cromwell, em Westminster Hall, no dia 12 de maio, decidindo também se Ana e seu irmão, em virtude de suas posições, seriam julgados na grande sala da Torre, por vinte e seis pares do reino, três dias depois.

The Tudors [2007]A culpa empregada a Smeaton, Norris, Weston e brereton eram em sua maioria implausível: por exemplo, que o adultério da rainha com Norris tivesse acontecido poucas semanas do nascimento da princesa Elizabeth; em uma época em que se tinha o costume de que a soberana permanecesse isolada em Greenwich antes da cerimônia religiosa oficial na qual a mulher voltava para o mundo após o parto.

Cranmer ficou chocado quando soube o que tinha acontecido a Ana e alguns dos cortesãos.’Estou surpreso’ – escreveu ao rei – ‘porque jamais mulher nenhuma mereceu tanto a minha boa opinião quanto a rainha. Por outro lado, não creio que Vossa Alteza teria ido tão longe, como já fez, se não estivesse convencido de que não houvesse nenhuma culpa (…) Eu a amava muito porque creio ter observado nela um grande amor por Deus e os Evangelhos’.

Cranmer compôs essa carta e a manteve consigo até depois de ser interrogado pelo comitê; em vista do que foi dito lá, acrescentou um inteligente pós-escrito que dizia: ‘Sinto que podes revelar como certa as acusações lançadas contra a Rainha’. Ana sempre o protegeu. Sua nomeação como arcebispo de Canterbury foi devido a importante missão de conseguir a anulação do matrimônio do rei Henrique com Catarina para que o rei pudesse se casar legalmente.

A atitude calculada de Cranmer influenciou, sem dúvida, a conduta de Smeaton quando compareceu diante do júri. Mark finalmente admitiu diante todos a sua culpa no crime de adultério. Norris, Weston e Brereton negaram, e os quatro foram igualmente condenados à morte. As leis jurídicas durante o reinado de Henrique VIII não autorizava o comparecimento de advogados defensores se o caso fosse de traição. Os quatro homens foram condenados à morte em Tyburn com as penalidades máximas da lei: serem tirados da forca ainda vivos, eviscerados, castrados e, por fim, esquartejados.

Bibliografia:
HACKETT, Francis. Henrique VIII. Tradução de Carlos Domingues. São Paulo: Pongetti, 1950.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 9ª Parte‘. Acesso em 13 de Maio de 2013.
JOSÉ, Caroline Barrio. ‘Los últimos días de Ana Bolena – 10ª Parte‘. Acesso em 13 de Maio de 2013.

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Um comentário sobre “Os últimos dias de Ana Bolena [Parte V]

  1. Fiquei chocada com a sentença dos acusados!! Quanta brutalidade para com homens inocentes, não existia justiça nestes tempos…

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