A criação de Catarina Howard

Quadro póstumo de Catarina Howard. Artista desconhecido.Entusiastas da história Tudor ficaram animados ao descobrir que um livro muito interessante acaba de ser publicado, escrito por Susan Bordo: The Creation of Anne Boleyn (‘A criação de Ana Bolena’, sem previsão de ser publicado no Brasil). Esta não é uma biografia histórica, ao invés disso, Bordo explora como Ana foi ‘criada’ ao longo da história por diferentes pessoas, de acordo com seus preconceitos, crenças e culturas através de uma variedade de meios, incluindo cinema, teatro e romance. E sua prima, que teve uma vida muito menos famosa mas igualmente trágica, Catarina Howard, foi ‘criada’ ao longo dos anos e acordo com diferentes crenças e preconceitos?

 

A partir do momento de sua execução em 1542, até o século XIX, ao contrário de Ana (que gozava de uma longa fama devido ao seu status como a mãe da rainha Elizabeth I), Catarina era uma mulher sem identidade, ignorada e esquecida por quase todos, até mesmo sua própria família rapidamente deserdou no momento de sua morte. No entanto, com o surgimento do estudo da história no período vitoriano, os escritores começaram a prestar muito mais atenção nos reinados das rainhas de Henrique VIII.

Os valores morais austeros e a condição das ‘mulheres perdidas’ na sociedade vitoriana contemporânea, obviamente, influenciaram o entendimento da história de Catarina como uma lição de moral, como algo a ser aprendido. Em relação a Catarina por si mesma, historiadores vitorianos eram ou hostis ou a viam com pena – Agnes Strickland, talvez a maior biógrafa feminina da época, caracterizou-a como ‘uma ovelha que estava sendo levada ao matadouro’ – mas se esquiva de sua carreira chocante, devido aos seus sufocantes valores morais.

Binnie Barnes como Catarina Howard, no filme The Private Life of Henry VIII em 1933.Nas telas, Catarina apareceu pela primeira vez em 1533 com o sucesso vencedor de Oscar ‘The Private Life of Henry VIII’, com Binnie Barnes no papel de Catarina e Charles Laughton como Henrique VIII. O filme é centrado em torno da relação entre o rei e sua quinta esposa, marginalizando seus negócios com as outras rainhas. O resultado foi que Catarina foi apresentada como uma mulher influente e importante, em certo sentindo, em detrimento do que ela tinha sido na realidade. Esta Catarina era mundana e sóbria, sofisticada e bela, mas seu charme e qualidades pareciam muito mais sutis do que os da real Catarina provavelmente eram.

A publicação da única biografia acadêmica sobre Catarina, escrito em 1961 por Lacey Baldwin Smith em um momento no início na rebelião feminista na política e rapidamente mudando a visão das mulheres, ela criticou fortemente Catarina, condenando-a como ‘uma delinquente juvenil’, uma ‘prostituta comum’, que era infantil, imprudente e dada a acessos de histeria. Mais uma vez, vemos como o contexto da época forma a interpretação – os valores morais pesados e a prisão real de delinquentes juvenis no momento do crime influencia o conhecimento dessa historiadora sobre a rainha executada por adultério.

Angela PleasanceA interpretação de Baldwin Smith foi muito influente no próximo retrato de Catarina na TV, na série de televisão The Six Wives of Henry VIII (BBC, 1970) onde ela foi interpretada por Angela Pleasance. Esta série foi muito antipática para com Catarina, onde ela retratada como uma violenta manipuladora, adolescente, hedonista e obessiva por si mesma, onde sugere casualmente ao seu tio se seria possíverl que Francis Dereham ‘desaparecesse’ e agride fisicamente sua prima Catarina, filha de Maria Bolena.

Dois anos mais tarde, no entanto, a apresentação mais precisa de Catarina surgiu no filme Henry VIII and his Six Wives, onde a jovem rainha foi interpretada pela atriz de 18 anos Lynne Frederick (com uma vida realmente trágica). O filme talvez represente a crescente simpatia por Catarina na Inglaterra, destaca sua juventude, inocência, ingenuidade e sua histeria quando presa. Lynne Frederick Ao contrário de todos os outros retratos de Catarina, neste filme não é tratado a questão se Catarina realmente foi culpada do adultério pelo qual morreu. Lynne talvez tenha a aparência mais precisa de Catarina Howard. Esse filme pode ser visto como o início da ‘criação’ do status de Catarina como vítima, que continua em nosso dias. Na série de televisão de David Starkey (2001), todas as seis esposas são apresentadas como um subtítulo – Catarina é a ‘vítima’.

Emily BlountNão é difícil ver por que isso aconteceu. O surgimento da história das mulheres, a política feminina, e uma maior consciência da violência doméstica moldou a criação de Catarina nos tempos modernos. Os historiadores têm sugerido que ela foi vítima de violência sexual contra os predadores implacáveis na corte. Seu status de vítima foi exemplificado no filme britânico Henrique VIII (2003), onde Emily Blount dá um retrato pungente de uma chorosa e gritante Catarina no cadafalso – mas, novamente, é apresentada como uma egoísta dirigida por seus prazeres.

Tamzin Merchant Na recente série The Tudors, Tamzin Merchant dá um retrato da muito moderna Catarina como uma garota que só quer se divertir. Somos encorajados a simpatizar com ela, mas a série apresentou o que as pessoas veêm como um problema na sociedade contemporânea – as meninas promíscuas que pensam em nada além de seus próprios prazeres. Ao contrário de outras interpretações dramáticas de Catarina, The Tudors não sugere que ela tenha seduzido Thomas Culpeper a fim de engravidar, e foi o único drama – até agora – que sugere que muito do suposto adultério que ela cometeu foi para afastar o tédio e a solidão.

Embora Ana Bolena e Catarina Howard tenham sido acusadas de adultério, Ana Bolena é a única defendida a todo custo. Será que a visão da única mulher realmente adúltera que temos é a descrição da mulher real ou apenas a visão de como ela tem sido apresentada no cinema e na tv?

Traduzido dos artigos 'The Creation of Katherine Howard' escrito por Conor Byrne e 'Catherine Howard in the Movies' escrito por Gareth Russell.
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7 comentários sobre “A criação de Catarina Howard

  1. Acho a historia dela tão triste… Acho que a mais triste de todas as esposas… Imagina uma adolescente se casando com um velho gordo que tem fama de se livrar das esposas assim que enjoa delas!
    Se ela traiu ou não, sei lá, mas isso não a faz menos vitima da situação do que realmente foi… Ela foi joguete da familia e objeto sexual do rei, e a chance dela ter amado o marido pra mim são quase nulas…
    Mas quero ler o livro pra tirar minhas proprias conclusoes… O livro só vai abordar a criação da Ana Bolena ou da Catarina Howard tb?

    • Só de Ana Bolena, igual está escrito no artigo: ‘Bordo explora como Ana foi ‘criada’ ao longo da história por diferentes pessoas, de acordo com seus preconceitos, crenças e culturas através de uma variedade de meios, incluindo cinema, teatro e romance.’
      O livro já foi publicado em inglês, só não existe previsão para o lançamento em português. Acho que seria interessante se alguém escrevesse sobre a ‘criação de Catarina Howard’, mas também não existe nenhuma previsão sobre algum livro que trate desse assunto.

      • Hum tendi… Vai ser algo parecido com o que a Stacy Shiff fez da Cleopatra… Vou adorar ler… A Ana é a minha esposa preferida, e uma das rainhas que mais gosto :)

  2. Gosto muito da interpretação de Lynne Frederick. Ela sonhava com corvos mortos a medida em q caía em desgraça, aparentava mais uma adolescente inexperiente sucumbindo diante do peso da corte, do q uma devassa agindo conscientemente. E muitos cortesãos tinham interesse em sua queda, p poderem “vender” o rei a uma pretendente politicamente mais proveitosa.

  3. O triste da história de Henrique VIII e que as mulheres dele eram sempre destruídas por causa da política e dos interesses de outras pessoas. Vamos desestabilizar Henrique, diz que ele está sendo traído, cria, forja…. Triste fim para elas

    • Nessa mesma série, a sexta esposa, a Parr, até se desespera quando o Rei se interessa por ela e diz: Todos sabem o que acontece com suas esposas. 😔

  4. Tem uma pretendente que é a sobrinha neta da primeira esposa catarina de aragao que é cristina de Milão que quando recebe um convite de casamento ela diz que precisa ter 2 cabeças para casar com ele.

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